Coluna Dto
Coluna Esq

O Conflito CORPO e mente em ULTRA TRAIL

A leitura desta reflexão ” O Conflito CORPO e mente em ULTRA TRAIL ” pode ferir a susceptibilidade dos leitores.

Vamos lá ver se consigo transmitir em escrita aquilo que penso.

Costumo iniciar algumas formações que dou tocando num aspeto fundamental sobre a forma como recebemos e usamos informações ou reflexões.

Queria começar por dizer que neste texto poderão encontrar conteúdo que vos possa ajudar a ter mais CONHECIMENTO (Saber) e certamente algumas linhas orientadores para terem mais COMPETÊNCIAS (Saber fazer), contudo, querer usar o conhecimento e as competências dependerá sempre de um terceiro vector: CARÁCTER (Querer fazer). Em relação a este último “C” vai obviamente depender da consciência e vontade de cada um querer fazer aquilo que se acredita (e a ciência comprova) que faz mais sentido em detrimento daquilo que “eu acho que é melhor para mim”.

Amarante Christmas Trail

FICA ASSIM DENTRO DE CADA UM ENCONTRAR O EQUILÍBRIO

(Eu sei, é difícil!) Tentarei ajudar:

Acabei o último parágrafo a dizer uma coisa absolutamente crítica em relação ao objetivo desta reflexão: “AQUILO QUE É MELHOR PARA MIM”.

Aquilo que é melhor para mim

Quem estuda e compreende o cérebro e a evolução da sociedade sabe que todas as ações do ser humano são executadas porque achamos que o que estamos a fazer o que é o melhor para nós. Se não reparem: Quem tem vícios acha que tem mais equilíbrio/compensação/equilíbrio em mantê-los, já que, entende que seria pior para a si deixar de os ter. Se formos mais longe, quem se suicida acha que naquele momento essa decisão é o melhor para ela. Acho que perceberam! Nada que fazemos achamos que é mau para nós, dizem os neurocientistas (os que li, admito que haja outros).

Sociedade cada vez mais egocêntrica

Se juntarmos a este conhecimento sobre o cérebro a tendência exponencial de uma sociedade cada vez mais egocêntrica (fruto de uma crescente menor dependência de outros para se ter acesso ao que a sociedade compreende como fundamental) poderemos encontrar aqui uma mistura explosiva. Se a isso juntarmos todos os efeitos hormonais (físicos) e de autoestima (psicológicos) associados ao ULTRA TRAIL temos uma mistura altamente POTENTE.

Aprofundemos a situação do EGO. Parece ser mais valioso e fácil atingir cada vez maior distância, do que treinar para se ser mais rápido num tipo de distância. A sociedade parece dar muita atenção a esses feitos e os detentores do mesmo veem os holofotes virados para si.

Andorra Ultra Trail Vallnord

NÃO HÁ NENHUM PROBLEMA. A MENOS QUE NÃO TENHAS PLANEADO BEM COMO CHEGAR LÁ.

Aqui, se observarmos algumas das necessidades básicas (mentais) do ser humano encontramos rapidamente combustível para uma das mais importantes: SIGNIFICÂNCIA.

Assim, observou-se nos últimos anos a um número cada vez maior de pessoas a procurar esse combustível através destes feitos ultra. Ficamos com o EGO no máximo, temos “gostos” e comentários e os mais afastados deste mundo vão olhar para estes praticantes como se de heróis ou pessoas altamente corajosas se tratassem (E são. Uma ridícula parte da população se submete a estes desafios e isso é altamente tentador de se querer fazer parte).

Se somos admirados pela tribo e pelas pessoas mais próximas fora desta realidade encontramos um grande catalisador de uma outra necessidade básica: LIGAÇÃO. E isto significa estar ligado a uma corrente, é atingir um novo estatuto e chegar a outras pessoas, é ser reconhecimento como Ultra e poder ter acesso a outro nível como se de um jogo se tratasse. É uma posição social que contribui fortemente para a necessidade falada lá trás: Significância (Sim, precisamos mesmo de sentir isso e não consegue evitá-lo).

Andorra Ultra Trail Vallnord

NÃO TENTEM MESMO FUGIR. É TRANSVERSAL.

O fenómeno de ser ULTRA traz também grandes estímulos para outras necessidades elementares humanas como a VARIEDADE (E nisso esta modalidade é imbatível), o CRESCIMENTO (Estou sempre a aprender com os erros e a tentar saber mais para ser melhor e o cérebro adora isso) e por exemplo, a CONTRIBUIÇÃO (onde no nosso inconsciente achamos que estamos a fazer algo que contribui para o meu bem estar, saúde física e mental).

NÃO RESTAM DÚVIDAS QUE TEMOS UMA BOMBA ATÓMICA A EXPLODIR NA MENTE SEMPRE QUE NOS SUPERAMOS NUMA ULTRA (Contando com as repercussões internas e externas).

Olhando desta forma podemos dizer que o ULTRA TRAIL é das mais potentes ferramentas para o EGO humano e sem dúvida a que fez e faz pessoas mais felizes dentro da família Endurance.

Até aqui tudo bem. Mas todos sabemos que somos pouco férteis em encontrar um equilíbrio. Do outro lado da moeda temos um elemento chamado: CORPO

trail04

Conflito MENTE e CORPO

É fácil perceber que temos então aqui um verdadeiro conflito MENTE e CORPO nesta modalidade:
– A mente não tem limites, mas o corpo tem (E muitos desafiam os limites do corpo sem preparação).
– A mente quer mais vezes, mas o corpo não deixa (E grande parte não respeita isso).
– A mente pede para ir quando o corpo pede para parar (E grande parte vai).

Treino/descanso

Vamos falar um pouco sobre treino/descanso? (Espero que o teu cérebro se estimule com a informação que aí vem).

Esta reflexão foi provocada por uma pergunta que vi no Facebook que dizia assim: “Pergunta que fica no ar: Quantas horas para recuperar de 173km????”

Quantas horas para recuperar de 173km

Fui ao dito post comentar dizendo que no mínimo 3 semanas (sem conhecer a prova nem o atleta com todos os riscos associados) para se voltar a colocar treinos com intensidade (Claro que quem leu deve achar que sou louco e deverão estar a perguntar: “Então mas como pode ser se eu tenho outra ULTRA para fazer daqui a um mês?”).

Na verdade este é um problema muito comum nos praticantes desta modalidade, o excesso de provas longas com poucas semanas de intervalo (penso que já leram na primeira parte porque eu acho que isto acontece).

Corpo trail douro

Macrocilo

Se observarmos um Macrociclo de treino (ex: planeamento de 6 a 12 semanas) para uma ULTRA vindo de uma outra ULTRA poderemos dividir genericamente em 3 Mesociclos (2 a 8 semanas habitualmente): Recuperação, fase de carga e Pré-competição.

Mesociclo

Se o primeiro Mesociclo de recuperação tiver 2 a 3 semanas (composto por 2 a 3 microciclos), se o Mesociclo de Carga tiver 4 a 6/8 semanas e o Mesociclo Pré-competição tiver pelo menos 2 semanas temos uma distância de uma prova à outra de 8 a 12 semanas.

A realidade é outra

A realidade é outra. Conheci um atleta que fez 3 provas de 100 em 4 semanas (Já não corre).

Sabemos que após um estimulo forte tem que haver um descanso e após um estimulo extremo deve haver um descanso extremo. Sabemos também que o corpo precisa de tempo para absorver as adaptações do treino e que precisa antes da competição de “aliviar” a carga e carregar baterias (linguagem genérica).

Diz-nos a metodologia do treino que, quando damos carga na fase de fadiga e sem o processo de recuperação estar completo acontecem várias coisas:
– Não permitimos a desintoxicação do corpo e a recuperação das estruturas.
– Não deixamos que haja super-compensação (melhoria da performance física fruto da adaptação do treino).
– Catabolizamos (destruímos em cima de um processo destrutivo) os músculos e estruturas e aumentamos drasticamente o potencial de lesão, para além de diminuirmos a capacidade física em vez de a aumentar.
– Não havendo equilíbrio entre intensidade e descanso começa a vir a desmotivação e a consequente falta de vontade de correr/competir (Falta de prazer na tarefa). Aqui temos a necessidade básica de VARIEDADE a virar-se contra nós.

Mas, mesmo assim continuamos a massacrar por muito tempo. Não me perguntem porquê, porque se estão nesta fase do texto é porque já leram a primeira parte, e por isso, JÁ SABEM A RESPOSTA.

Não é objectivo desta reflexão, estar a dizer que quem faz este tipo de desafios deverá progredir calmamente e que quem não tem estrutura favorável ou passado desportivo, terá que ter cuidados redobrados. Não é para aqui chamado que ter o peso certo, o treino certo e outros tipos de treino complementares é FUNDAMENTAL.

trail

Correr não é socorrer

Mas, fica aqui em jeito de recordação. Parece um cliché mas é verdade: #corrernaoesocorrer

Adoro esta modalidade! MESMO!

Mas gostava de ver os atletas a terem mais equilíbrio nesta luta entre CORPO e MENTE para poderem correr por muitos e muitos anos.

QUERO QUE A MODALIDADE DURE…COM VOCÊS!

Muitos já encontraram o equilíbrio. Uns porque perceberam o que iam fazer de errado a tempo e outros porque já foram vítimas do erro.
PLANEIEM BEM AS PROVAS DA ÉPOCA 2017 E VOLTEM A DAR CARGA QUANDO O VOSSO CORPO MANDAR…

Não tenho nada contra o Ultra Trail (bem pelo contrário).
Não me levem a mal.

Se não concordam…ignorem (não insultem)! 🙂

Texto: Ricardo Bomtempo

Sobre o Autor

Artigos relacionados

Deixe uma Resposta