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Encantador de Sóis

Trail do Mondego

Manhã de Sábado, fresca à sombra, mas com um sol reconfortante, iniciam-se os levantamentos de dorsais. Não existe propriamente um ambiente festivo na receção em Mangualde, mas acho que grande parte dos participantes nesta altura ainda valoriza algum silêncio, ambicionam provavelmente abraçar o sol do lado oposto da praça e “que belo dia o de hoje” ouvem-se alguns sussurros. Foi coisa rápida, estas gentes não brincam e percebem que estamos cá para degustar os trilhos e as terras férteis dos excelentes vinhos do Dão, mel, queijo, frutos, hortaliças, frutos secos, mas também dos licores, o azeite, os enchidos e claro a famosa pastelaria.

Os atletas do trail longo arrancam devidamente escoltados pelo atleta da casa, António Ferreira (o mais bem disposto de todos) pelo centro de Mangualde, até ao quilómetro 0, em direção à Abrunhosa do Mato, onde os trilhos do trail longo e curto se cruzam, naquilo que seria o maior prémio de todos, que nome fantástico desta aldeia. Já em Abrunhosa do Mato o trail curto, mais composto e com a participação da madrinha, Cármen Pires, e o padrinho, Vitorino Coragem, prometia!

trailInicia-se assim a aventura, uma simpática descida que se vai tornando mais técnica e interessante até à fronteira natural do Distrito de Viseu e Guarda, o rio Mondego! Não posso deixar de sentir uma certa nostalgia, imaginar que tudo isto pode estar submerso em breve, mas adiante… Esta parte do percurso bastante bonita e técnica deve ter sido muito trabalhosa para o Carlos Pereira e restante organização, exigiu abertura de novos trilhos, mas valeu a pena. Nas margens do Mondego de Viseu miramos a Guarda, numa sombra sedutora, num trilho rasgado por raios de sol, imagino as vivências de outro tempo, em que não seria preciso abrir trilhos e que as correrias seriam bem mais lentas e penosas. Que grande privilégio correr por trilhos que nos elevam a imaginação, tempos dos nossos antepassados, partilhar os mesmos trilhos. Os nossos filhos ou netos não o poderão fazer face à promessa de um falso desenvolvimento. A vida segue, não espera pelas gentes, na promessa de um futuro melhor, inundado de falsas esperanças e por um projeto de uma qualquer hídrica. Neste momento, o conflito de trail03sentimentos desperta a vontade de uma pausa e um olhar sereno sobre o majestoso Mondego, é preciso recarregar energias para a prometida subida até à fantástica aldeia de Cunha de Baixo. Iniciada a subida, a paisagem apodera-se agora dos momentos de pausa para respirar, a conflitualidade de sentimentos e elementos é uma constante no trail. Este jogo é viciante e torna-se um obstáculo maior que qualquer trilho. Somos agora interrompidos, por duas atletas paradas no trilho, uma delas incapaz de caminhar agarrada à virilha, percebemos naquele momento que teríamos que pedir ajuda, testamos o sistema de segurança, em pouco tempo tinham já acionado os bombeiros e demais pessoal de apoio.

Retomamos com o mesmo ânimo, mas já arrefecidos, a subida era agora menos íngreme e técnica (pensávamos nós) que até então, mas com motivos interesse paisagístico e rural. No entanto, num ápice percebemos que havia surpresas das boas, umas arribas, daquelas de quase gatinhar, mas com terras bem tratadas e trabalhadas o que de alguma forma nos revitalizou. Roubamos alguns segundos às gentes que trabalhavam arduamente nas suas terras, num cumprimento de respeito mútuo (sempre achei estranho que nos admirem a força e esforço, quando na verdade é deles que vem o maior) mas que sabe bem uma palavrinha de apoio, lá isso sabe. Estava a adorar esta passagem e mais me agradou ainda o facto de todo o percurso estar muito bem sinalizado, sem exageros, a exigir alguma atenção nas mudanças de direção, o que só enriqueceu ainda mais a prova. Chegados ao abastecimento fomos muito bem recebidos e não resistimos em ficar um bocadinho à conversa.

Resolvemos retomar logo que abastecidos de uma boa dose de simpatia, poucos metros acima andávamos no trilho ao contrário, na zona de Abrunhosa do Mato, mas não por engano. Seguem alguns quilómetros “rolantes trail02“atravessando as populações, quando já pensava termos os trunfos gastos em termos de trilhos começamos a entrar em floresta. Novo cenário portanto, predominantemente pinheiros à mistura com a fauna nativa os choupos, salgueiros, freixos, cedros, refrescantes quilómetros num dia bem ameno e sempre acompanhado por uma luz especial, o sol maravilhoso como que sorria aos audazes que foram capazes de organizar a prova pelo segundo ano. Quase que por magia a paisagem mudava outra vez, faltava, já não falta, agora o sossego e isolamento de um pequeno planalto, com bastantes indícios de populações e caminhos muito antigos, realmente esta zona terá sido bastante trabalhada em termos agrícolas, alguns vestígios arqueológicos estão escondidos ou até irremediavelmente perdidos. Aproximamo-nos agora da Cunha Baixa, uma placa bem vistosa aponta para O Dólmen da Cunha Baixa (a 500 metros), um monumento megalítico remonta 3000 a.C, possivelmente do período Celta. Confesso que fiquei impressionado e bastante contente por ter tido a sorte de conhecer desta maneira um monumento que nos reduz à insignificância. Por momentos não fui capaz de dissociar aquela passagem pelo Dólmen com a nossa passagem na vida…Terminamos Km’s depois não sem antes recolher opiniões e falarmos com o vencedor do Trail Longo Miltom Gonçalves (ARSM –S. Miguel Poiares) e do segundo classificado José Tomas (PSP Viseu Runners,). Um especial agradecimento ao Carlos Pereira, pela partilha da paixão, pela região e pelo trail. Sabemos bem a dificuldade que é organizar um trail no interior e longe dos centros urbanos, mas também sabemos o que de único tem. Se quem foi a Mangualde e a Abrunhosa do Mato foi para disfrutar dos trilhos com segurança, das paisagens, usufruir da natureza e de uma prova de trail, teve tudo que podia ter, conseguiram encantar o sol. Parabéns!

Texto / Fotos: Mauro Fernandes

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