À Conquista de Paris!

Comecei a correr em fevereiro de 2012, após seis meses antes ter deixado de competir em Danças de Salão no escalão sénior na Federação Portuguesa de Dança Desportiva. A corrida surgiu como o novo escape ao stress do dia-a-dia de trabalho. Comecei por correr sozinho na ecopista de Amarante onde, duas vezes por semana, corria cerca de 10 km. Tendo eu na altura algum excesso de peso não me atrevia a correr nas ruas de Amarante; um pouco por vergonha do olhar dos outros, escolhia sempre locais mais isolados longe da vista de outros corredores da cidade. Certo dia, a minha amiga Elisabete Ribeiro convidou-me a juntar-me a um grupo de veteranos pertencentes à Associação Desportiva de Amarante que costumavam treinar no Complexo Desportivo da Costa. Ela própria tinha sido convidada uns meses antes a juntar-se àquele grupo. O grupo acolheu-me de braços abertos e assim iniciei o meu percurso no mundo da corrida. Estreei-me no longo curso na meia-maratona da SportZone na cidade do Porto naquele mesmo ano. Desde então, participei em várias meias-maratonas, grandes prémios de 10 km e no ano em que fiz 42 anos, ou seja em 2013, desafiei-me a correr a mítica: A MARATONA, apenas com o objetivo de a terminar e assim foi. Desde então corri mais duas maratonas, todas na cidade do Porto, tendo como record pessoal o modesto tempo de 4h15min.

Após ter realizado, em Portugal várias corridas com distâncias de 10km, 12 km, 15 km, 21,975km e 42,195 km e o bichinho da corrida sempre a crescer, faltava o desafio de correr fora do país, e assim, inscrevi-me na meia-maratona VIG-BAY que liga as cidades de Vigo e Baiona que se realizou em março de 2015. Infelizmente uma intervenção cirúrgica em janeiro do ano passo a duas hérnias inguinais impossibilitou-me de realizar a minha primeira “internacionalização”.

Sendo natural de França e tendo vivido mais de 20 anos naquele país, senti a nostalgia e vontade de regressar ao país que, no passado, foi o meu lar. Após alguma pesquisa na internet, descobri, em meados de maio do ano passado, que no dia 6 de março de 2016 se realizaria a meia-maratona de Paris o: “Fitbit Semi de Paris 2016” e que a abertura das inscrições iniciariam a 15 de setembro 2015. Estava decidido! A minha primeira “internacionalização” seria no país que me viu nascer e crescer para me tornar naquilo que sou hoje. Iniciou-se uma longa espera até ao dia da abertura das inscrições. Após semanas e semanas de espera e de consultas na internet sobre as edições anteriores, chegara finalmente o momento de me inscrever. Curiosamente, o acordar no dia 15 de setembro não foi difícil e dirigi-me logo para o computador pois sabia que as primeiras inscrições, a um preço mais acessível, se esgotariam rapidamente. 20.854 foi o número de dorsal que me foi atribuído, em função do tempo estimado de corrida 1h45min. A primeira etapa da minha “internacionalização” estava concluída. Entretanto, outros dois colegas de corrida também manifestaram a vontade de participar nesta prova e um casal amigo de Guimarães também se mostrou entusiasmado com esta iniciativa. Procedi à inscrição da parte da tarde e já as 5.000 primeiras inscrições com preço mais reduzido se tinham esgotadas.

No dia seguinte, tratei de marcar as viagens e hotel para mim e para o grupo que iria acompanhar-me. Ficou resolvido partirmos para Paris no sábado, véspera do dia da prova e regressar no domingo à noite. Dormiríamos no 10º Bairro de Paris, a cerca de 11 km do local da partida da prova. Os voos low-cost da Ryanair seguem todos para o aeroporto de Beauvais que fica a perto de 90 km do local onde iríamos pernoitar. Apesar de existir autocarros a fazerem a ligação entre o aeroporto e Paris, concluímos que ficaria mais económico alugar uma viatura para nos deslocar nesse fim-de-semana. Inscrições Check, Bilhetes Check, Hotel Check, Carro Check, só faltava agora um atestado médico a certificar que estávamos aptos para a prática desportiva. Iniciava-se agora uma espera de quase seis meses até ao dia da prova.

Dia 4 de março chegara finalmente! A véspera da nossa aventura à conquista das ruas da capital de França!

Dia 5 de março: 4h30min da manhã, foi essa a hora em que o meu colega e eu nos levantamos para nos prepararmos para partir para o aeroporto. Escusado será de dizer que poucas foram as horas de sono devido à adrenalina que já corria nas nossas veias. Finalmente saímos de casa, recolhemos o terceiro elemento que foi connosco de Amarante e iniciamos a viagem para o Aeroporto Sá Carneiro. À caminho, recebi uma chamada do casal, que também nos acompanhou, a informar que estavam a chegar ao aeroporto.

Após a revista habitual de segurança e passagem pelo detetor de metais dirigimo-nos para o avião que nos levaria até França.

Prontos a embarcar

chegada

A viagem decorreu sem problemas e, ao fim de 1h50min, iniciavam-se as manobras para aterrar. Qual não foi o nosso espanto quando, ainda no ar, descobrimos quilómetros quadrados de campos de cultivo cobertos de um manto branco de neve. Será que iríamos correr nas ruas de Paris com neve? A aterragem realizou sem dificuldades. O meu amigo e colega António Gonçalves tinha tido o seu batismo de voo, até aquele dia nunca tinha viajado de avião.

Manto de Neve Branca

neve

Preenchidas as formalidades para o levantamento da viatura dirigimo-nos para o hotel em Paris. É nestas ocasiões que dá-mos valor às tecnologias, em particular ao GPS que nos indicou o caminho certo a seguir até ao hotel. Apesar de ter vivido em França por mais de 20 anos, nunca tinha conduzido em Paris e foi com alguma apreensão que circulei nas ruas da capital. O estacionamento grátis é inexistente e só em parques subterrâneos é que encontrámos lugares. Acomodamo-nos nos nossos aposentos e já eram horas de almoçar. A minha ideia era provar a gastronomia francesa mas os meus colegas mostraram-se reticentes e, por sorte encontrámos um restaurante português perto do hotel. Nem parecia que estávamos em França.

Recompostos e de barriga cheia eram horas de nos deslocarmos para Bois de Vincennes onde se encontrava instalada a Aldeia Desportiva da prova, local de levantamento dos dorsais. Após mais de meia hora para percorrer uns 11 km de carro, foi preciso encontrar um lugar para estacionar o carro. Eram milhares de pessoas a dirigirem-se para a Aldeia Desportiva, dias antes tinham sido anunciados no Facebook 46.999 atletas inscritos na prova. Colocamo-nos na fila que daria acesso ao pavilhão com centenas e centenas de pessoas à nossa frente. Estávamos convencidos que seriam seguramente necessárias cerca de 2 horas para conseguirmos o Dorsal que nos daria acesso, no dia seguinte, à prova.

Na fila de espera para a Aldeia Desportiva

fila

Curiosamente, não demoramos mais de 30 minutos até à entrada do pavilhão. A máquina organizativa estava bem oleada.

Entrada para a Aldeia Desportiva

aldeia

Para termos acesso ao Dorsal era necessário validar a convocatória disponibilizada dias antes no site das inscrições através da exibição do atestado médico. Formalidade cumprida, dorsal entregue, apenas faltava a t-shirt para completar o kit; 15 min, foi o tempo que foi necessário para termos o kit completo nas nossas mãos.

Levantamentos de Dorsais e Tshirts

 

dorsais

tshirt

Finalmente podíamos abrandar o ritmo e desfrutar agora da Aldeia Desportiva e de todos os expositores presentes. A organização construiu um mural onde constavam os nomes de todos os participantes da prova. Não resistimos em lá procurar os nossos nomes e fazer o respetivo registo fotográfico!

Muro da Fama

davide

Passamos o resto da tarde na Aldeia Desportiva a visitar os diversos stands ali presentes. Apesar dos inúmeros representantes de diversas marcas e organizadores de provas, a Aldeia Desportiva não demonstrava ter a dimensão à altura da grandiosidade da prova.

Expositores

expositores

Regressamos para o hotel após termos efetuado algumas compras de mantimentos para a manhã do domingo. Jantamos numa pizzeria e recolhemos os aposentos para descansarmos para a prova que iria decorrer a poucas horas de intervalo.

Ficou combinado que nos deslocaríamos, para a partida, de metro para evitar o transtorno do trânsito e do estacionamento da viatura no local da partida/chegada.

Chegamos à estação de Chateaux de Vincennes por volta das 8h00 da manhã apesar de não sabermos ao certo onde se iniciava a corrida, bastava-nos seguir os milhares de atletas que, como nós, seguiam para lá. A organização disponibilizou um guarda-roupa com várias boxes onde o último número do dorsal correspondia à box e o penúltimo à mesa onde seriam guardados os nossos pertences. Finalmente equipados dirigimo-nos para a partida.

E a partida foi assim!!

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O sistema de partida foi diferente daquilo a que estamos habituados em Portugal. No momento da inscrição o atleta estima o tempo provável da sua prova: Elite, <1h35, 1h35, 1h40, 1h45, 1h50, 2h00, + 2h00, cada tempo tinha uma cor específica. Para ter acesso às três primeiras o atleta tem de provar através da exibição de 2 diplomas com da data inferior a 2 anos que possui registos inferiores a 1h35, os restantes dependem da honestidade de cada participante.

Sistema de partida

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A partida para os 3 primeiros grupos estava marcada para as 9h00, embora apenas a elite arrancou às 9h00, os dois grupos seguintes arrancaram 2 minutos após. De seguida os restantes grupos partiram às 9h15, 9h25, 9h40, 10h10 e 10h40. Os nossos dois colegas mais rápidos partiram às 9h00 e nós às 9h25. À medida que os grupos iam partindo, os grupos seguintes aproximavam-se do pórtico de partida. Assim, quando iniciei a minha corrida, os meus outros dois colegas já levavam 25 min de corrida e estariam já bem longe!

Enquanto esperamos pela nossa vez

corrida

9h25. Tiro de partida e iniciava-se finalmente a minha “internacionalização”. Apesar do speaker ter anunciado 47.500 participantes “apenas” terminaram a prova 37.108. Apesar das centenas de atletas a correr nas ruas de Paris, em momento algum, fui impedido de correr por falta de espaço à minha frente ou dos lados, as ruas eram largas e os atletas respeitadores para com os outros. O público saiu à rua para assistir à corrida e gritava palavras de incentivos. A cada km da prova um conjunto de músicos animava o local cantando, dançando ou apenas tocando música. Ou seja, durante 21 km não faltou animação para motivar os atletas. O percurso em Paris era plano e praticamente todo em alcatrão, o único local onde vi algum paralelo foi na Place de la Bastille mas não perturbou o desempenho. A determinada altura da corrida, perto do km 3, ouvi dois atletas franceses dizerem um para o outro que junto ao km 4 havia uma subida e para então ambos se pouparem para enfrentar a subida. Com algum receio fui continuando a minha corrida pronto para enfrentar a subida, passei o km 4, o km 5 e não me apercebi de subida alguma, o conceito de subida para aqueles atletas é muito diferente do meu conceito. Ao km 6, animação e primeiro abastecimento com água, banana, laranja e passas. A partir daí os abastecimentos foram de 5 em 5 km, ou seja ao km 11, km 16 e na meta. Os postos de controlos foram colocados ao km 5, 10, 15, 20 e meta, na altura da inscrição era possível mediante o pagamento de 1,99 euros o envio de uma sms para dois números de telemóveis dos tempos de passagem em cada posto de controlo permitindo, desta forma, seguir em tempo real a evolução da corrida pelo benefício da sms. O percurso englobava duas rotundas emblemáticas da cidade, Place de La Bastille e Place de la Nation. De seguida passava à frente ao Hôtel de Ville (Câmara Municipal de Paris), seguia uma parte pela margem do rio Sena, regressava à Place de la Bastille para finalmente regressar ao Bois de Vincennes onde terminaria a cerca de 500 metros da partida. A única dificuldade do percurso foi ao km 14,5 onde fomos confrontados com uma ligeira subida.

1h49min38 depois de ter iniciado a minha corrida cortava a linha da meta. Não foi o tempo que tinha projetado para esta prova mas uma lesão a seguir a meia-maratona de Viana do Castelo condicionou o meu treino para Paris, fiquei com a classificação de 12.653º em 37.108º

O João Silva terminou a prova em 1h25:14, com a classificação 803º, o João Reis fez 1h27:00, com a classificação 1.085º, o António Gonçalves realizou a prova em 1h52:44 com a classificação 15.026 e finalmente a Maria Ferreira completou o percurso em 2h07:41 com a classificação 26.306.

À chegada foi entregue a cada atleta um “poncho” em plástico para vestirmos e protegermo-nos do frio e, de seguida, recebemos a medalha finisher, uma peça de fruta, água, sumos, chocolate quente etc…

Aguardamos junto das Boxes a Maria Ferreira, esposa do João Silva, que apesar de ter feito a prova em 2h07min foi a única que recebeu um prémio monetário antes de acabar a prova, pois tropeçou numa nota de 10 euros durante o percurso.

De novo o grupo completo regressamos ao hotel para tomar banho, comer qualquer coisa e aproveitar o resto da tarde para visitar a Torre Eiffel. No final da tarde regressamos ao aeroporto e de regresso ao nosso Portugal.

Em jeito de conclusão, posso afirmar que a organização não teve falha alguma que me apercebesse, a máquina estava extremamente bem oleada. O percurso foi simplesmente fantástico e com animação no trajeto todo!

Em masculinos, Cyprien Kotut, do Quénia, gastou 1:01.04 a completar os 21,097 quilómetros, deixando um perseguidor direto, o compatriota Amos Kipruto, a sete segundos. O etíope Azmerew Mengistu completou o pódio, a 13 segundos do vencedor.

Na corrida feminina, Dibabe Kuma foi cronometrada em 1:09.21 horas, menos 31 segundos do que a queniana Pioline Wanjiku, segunda classificada. A francesa Chistelle Daunay, campeã europeia da maratona, “intrometeu-se” no domínio africano, ao acabar na terceira posição, a 37 segundos de Kuma.

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Texto: Davide Pinheiro
Foto: Davide Pinheiro / E. VARGIOLU

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