O Berdadeiro Orientista “Uma questão familiar”

Berdadeiro

Séniores

Uma questão familiar que O Berdadeiro Orientista resolveu em família.

– “E agora para terminar, vê lá se bates este. Onze segundos no sprint!” – atiro de macio, arvorando o meu melhor sorriso de vencedor. – “Ok, fiz treze, mas aponta aí que na pernada anterior levaste com quatro segundos” – riposta a minha mulher, desconsolada e no “limite dos cabelos em pé”. – “Querida, estás cansada de saber que isso é táctica. Pura poupança para o glorioso final” – explico em tom condescendente.

Não entendo os amigos do .COM. Há umas semanas, na Cabreira, aplicaram-me uma valente tareia, para de imediato me tratarem com especial desvelo em Vieira do Minho.

Veteranos

Um caldinho caseiro para digerir

Agora, no Braga City Race, arranjaram-me um “caldinho” caseiro para digerir. Desde quando é que se atribui ao “berdadeiro”, o mesmo percurso que o da sua “santa”? – “Vês amor, até te coloco num altar”. – “Não sejas trocista, olha que não perdes pela demora” – retruca com um significativo revirar de olhos, de causar calafrios preocupantes. – “Ui no que me fui meter. O caldo está entornado”.

Reconheço que esta disputa devia manter-se no foro privado, mas dadas as circunstâncias – o facto de há bastante tempo não termos percursos comuns – e também, o de não ter acontecido nada de realce para comentar, concluí que a confrontação de tempos e opções era de inevitável análise.

Em favor do bem-estar do “berdadeiro”, sugiro, que a situação não passe de uma pacífica e salutar rivalidade de sexos.

Mas que interesse terá para a modalidade, os pormenores da discussão técnica entre o “berdadeiro” e a sua consorte? Provavelmente nenhum. No entanto, julgo que concordam, que para o casal se revelou de primordial importância. Dispúnhamos de 5.200 metros e 15 controlos, para um tira-teimas familiar.

Várias questões pertinentes encontravam-se a aguardar resposta: Quem realizou o melhor tempo? Quem tomou as opções mais acertadas? Quem venceu maior número de pernadas? Quem conseguiu o “split” de maior diferença? Quem obteve a velocidade mais alta? Quem correu com mais estilo? Quem atingiu ritmo cardíaco mais elevado? Quem apresentou o equipamento mais selecto? Afinal, quem é o verdadeiro orientista da casa?

Séniores Vencedores

Só um “ berdadeiro ” tem lata para competir com uma senhora

– “Não tens um pingo de vergonha. Só um “berdadeiro” tem lata para competir com uma senhora” – aparece a “vozinha”, acutilante como sempre. – “Ela corre mais do que eu, caramba!” – argumento sem grande convicção.

Nesta “guerra” vale tudo, inclusive o grau de satisfação individual demonstrado, pelo reaparecimento de uma simultaneidade desastrosa. Pessoalmente tinha tudo a perder. Ou corria afincadamente e de azimutes atinados, ou sujeitava-me a ser humilhado pela cara-metade.

Imaginam o ambiente que o “berdadeiro” teria de suportar diariamente? Para ela tudo não passaria de uma feliz e providencial coincidência – “Se ele fizer melhor, tudo normal, não é o macho? Mas se o conseguir bater, vai ver como elas lhe mordem, ai vai, vai”.

Recordava-me vagamente, que o mapa da cidade dos arcebispos não exigia capacidade técnica apurada, mas na vertente física, o caso mudava de figura, pois seria necessário correr bem e depressa, de modo a alcançar um resultado aceitável (sobretudo no particular “tête à tête” com a parceira). Ora, perante esta evidência, a minha tarefa não se afigurava nada simples.

Debaixo de chuva miudinha, que tornava o piso algo perigoso, parti corajosamente à desfilada, de maneira a minimizar as perdas por andamento deficiente, em busca de um ponto a cerca de quinhentos metros. Porém, rapidamente abrandei a passada.

Bateu-me tal canseira, que temi ser obrigado a sentar-me na beira do passeio. Felizmente tudo não passou de rebate falso. A fadiga estava lá, porque se não treinas, não há milagres, só que decidi atirar as debilidades para trás das costas (sabe Deus!).

Vencedores Adaptada

“Rais parta a morrinha. De certeza que ela vai apanhar sol”

Os controlos iniciais foram ultrapassados, sem originar quaisquer dúvidas nas opções – demasiado óbvias – embora a sombra, sobre o desempenho da minha mulher, pairasse constantemente (saía 32 minutos depois de mim). – “Rais parta a morrinha. De certeza que ela vai apanhar sol”. O pessimismo de “Murphy” a emergir.

Mal surge uma pernada (ponto 5), onde se equacionavam duas opções, paralisei hesitante: direita ou em frente? Momentos de vacilação, que foram posteriormente aproveitados pela minha adversária: – “Ganhei por cinco segundos. Foste a passo pela zona das árvores ou quê? Se calhar para aproveitares uma sombrinha”. – “Grrr…percebem agora a minha preocupação?”. A ironia feminina provoca dores lancinantes.

Claro que tinha a noção de que perderia alguns parciais, sobretudo se cometesse equívocos primários, como os que aconteceram no ataque ao ponto 8.

A primeira fase desta progressão limitou-se a umas centenas de metros de pura corrida. Contudo, na área da urbanização onde se localizava o controlo, desobedeci ao instinto inicial, baralhei a bússola, confundi muros e muretes, subi escadas que não devia, enfiei por incorrectas passagens inferiores, em ziguezagues mirabolantes, sem nunca me ter afastado do prisma mais de cinquenta metros. Basicamente andei às voltas.

– “Depois de uma banhada de quarenta segundos na pernada mais técnica, queres mesmo que comente? Andaste a cartografar a zona?” – questiona-me, alardeando ar angelical. – “Ai que tom…logo hoje que não tomei as gotas” – murmuro, num ranger de dentadura.

O “ berdadeiro ” em apuros

Seguiram-se três pontos de curta distância, com constantes mudanças de direcção, de escolha múltipla e, novamente, uma chusma de muros, escadas e vedações, pormenores que normalmente colocam o “berdadeiro” em apuros, só que desta vez transcendi-me e não cometi nenhuma argolada. Eram o género de pontos que não poderia dar ao luxo de errar, caso contrário não evitaria outro chorrilho de alfinetadas do sexo oposto.

Constatando que o próximo percurso seria o mais longo, característica que em nada me beneficiaria, aumentou-me os níveis de ansiedade, desconcentrando-me o suficiente para sair mal do ponto 11 (que fornecia inúmeras opções), embicando para um estacionamento circundado de muros intransponíveis, que me impediam de apanhar a via que me interessava.

O “berdadeiro” fair-play prevaleceu, não tentei saltá-los (talvez nem conseguisse), recuei e perdi algum tempo a relocalizar-me. “Estou frito, esta manobra vai dar sarilho” – rabujo ao imaginar novo contratempo, na minha peleja particular.

Mal-grado a contrariedade no arranque, fiz das tripas coração, iniciando uma correria desenfreada, em ritmos nada condizentes com o meu precário estado físico, gerindo o sofrimento o melhor possível, enquanto me ia motivando: – “Não posso fazer pior que ela…não posso fazer pior que ela…não posso…”. E não fiz!

 

“Não posso fazer pior que ela…não posso fazer pior que ela…não posso…”

– “Com qu`então as pernadas longas não são pra velhos, hem? Toma mais quinze segundos. Espero que não te façam mal”. Apesar do meu coração de manteiga, não resisti a dar uma aguilhoada. O silêncio dela também não me caiu bem.

Andei a forçar demasiado o arcaboiço, que no trajecto para o antepenúltimo ponto, fui atacado por estranhas miragens, imaginando-me a escalar uma ingreme subida, quando na realidade a rua descia consideravelmente. Parece uma cena extraída das “mil e uma noites”, mas é a única razão que encontro para justificar os meus ronceiros 2:19, contra o extraterrestre 1:46 da minha senhora.

– “Ah, ah! Paraste para te aliviar ou andaste a ver montras?”. Um novo sapo para engolir. A minha resiliência estava a esgotar-se.

Certamente já todos entenderam, que o “berdadeiro orientista” efectuou uma prova, um tudo ou nada, superior à da sua companheira (não que isso interesse), consequência natural de uma romântica coincidência.

Situação peculiar, que proporcionou uma curiosa troca de impressões, apimentadas pelo sentido de humor de cada um, enquanto disputávamos a derradeira pernada – uma divinal rojoada minhota.

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Texto: Luís Pereira – O Berdadeiro Orientista!!!

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