Carlos Coelho “Tive que ter muita coragem para abandonar”

Carlos Coelho

Carlos Coelho “Tive que ter muita coragem para abandonar uma prova em que tinha a minha melhor prestação de sempre”

Em exclusivo para “O Praticante”, Carlos Coelho explica o motivo do abandono de Carlos Sá, do seu, e de mais dois participantes na Jungle Marathon 2014, que se iniciou a cinco do corrente mês, num total de seis etapas.

Logo após terminar a minha participação na  Marathon des Sables, senti a necessidade de fazer uma Ultra mais extrema, falei então com o Carlos Sá e pedi-lhe uma opinião entre a Costal, da Costa Rica e a da Amazónia, Brasil.

Carlos Coelho e Carlos Sá na Jungle Marathon

Ele já tinha feito a Costal e disse-me que a Jungle Marathon era decerto mais dura e era necessário uma boa, muito boa preparação, porque além do peso da mochila com a rede, medicamentos e comida para toda a prova chegando aos 10kg mais 2,5 da água obrigatória, iríamos encontrar terreno difícil aliado a uma temperatura a rondar os 39, 40º com perto de 95% de humidade.

A partir daí tomei a decisão. Pedi ao António Nascimento-Ultra Man, meu treinador na Hand2Hand todo o esquema de preparação que incluiu cerca de 1200 km de treino, entre areia, ladeiras, pista de lodo, natação com mochila incluída, e estrada.

Depois de uma longa viagem, cheguei a Santarém do Pará juntamente com o Carlos Sá onde fomos recebidos por dois amigos Portugueses que nos levaram a sua casa para descansar umas horas, comermos uma última refeição decente antes de embarcarmos no barco Natureza, numa viagem nocturna de onze horas subindo o rio Tapajós.

Ao entrarmos no barco para montarmos as redes de dormir o calor húmido era infernal, mas, com o passar das horas a noite ficou mais fria, como sempre acontece na selva, o que dificultou o nosso descanso.

Descanso e adaptação

Cheguei ao acampamento base numa pequena comunidade índia perto do meio-dia, montei a rede e após um dia de descanso e adaptação, foi feita a verificação do material obrigatório, pequenos Workshops sobre a proteção da floresta, dos perigos, temperaturas elevadas, animais e vegetais que iríamos encontrar e como nos devíamos proteger dos mesmos.

Os maiores perigos nesta prova eram os animais, a Onça pelo seu grande porte e por ser o maior predador da floresta, embora seja um animal cauteloso, que só ataca o que acha ser menor do que ela. Isto impede-nos de sentar para descansar ou mesmo parar, tendo sempre de correr acompanhado de outro atleta.

Outros perigos incluem as mais variadas cobras como as anacondas, pitons, surucucus entre outras espécies bastante venenosas, os insectos desde formigas gigantes como a famigerada tocandeira cuja picada pode ser descrita como “ estar andando sobre carvão em chamas com um prego enferrujado de três polegadas fincado no seu calcanhar“.

Aranhas gigantes que podem atingir cerca de 25 cm de diâmetro

Vi também aranhas gigantes chamadas de caranquejeiras que, com patas incluídas, podem atingir cerca de 25 cm de diâmetro, carraças, maribondo (vespas) que logo no início da primeira etapa, após alguém por descuido ter dado um pontapé no ninho, atacou vários atletas sendo que um ficou em estado grave devido a uma alergia.

Nos Igarapés (braços de rio de água límpida e fresca) tínhamos de caminhar arrastando os pés no fundo para não pisarmos as raias pois estas ao sentirem-se pisadas fazem um chicote com a cauda que é capaz de cortar por inteiro o tendão de Aquiles e provocar dor lancinante por mais de 24 horas.

Nos rios estavam presentes outros ‘amigos’ como as Piranhas, enguias eléctricas, cobras de água e crocodilos.

Terreno era agressivo

O próprio terreno é agressivo, pântanos com muito lodo, restos de árvores e arbustos submersos que provocavam cortes nas pernas e prendiam as sapatilhas, trilhos com pouco mais de um metro de largura na maioria das vezes abertos poucos dias antes, ladeados por árvores e arbustos, palmeiras com faces dos ramos afiadas que cortam como facas, outras com picos de três centímetros, cipós e raízes misturadas no chão coberto de folhas secas que fazem tropeçar constantemente, outros cipós fininhos que estão pendurados nas árvores e ao tocarmos cortam a pele e prendem as roupas, muitas árvores caídas que nos obrigavam a enorme esforço, tanto passando por cima como por baixo dos troncos, subidas e descidas com elevada inclinação.

No final de cada etapa tinha de montar as redes de dormir nas árvores ou em postes, previamente preparados.

Estes acampamentos eram sempre em comunidades Índias, onde podíamos tomar banho no rio, preparávamos as refeições e fazíamos os curativos das feridas e bolhas para no dia seguinte por volta das 6 da manhã partirmos de novo.

Aqui tínhamos de ter o cuidado de fechar bem as mochilas e pendurar na rede porque os macacos que estavam nas árvores da selva junto ao acampamento tentavam roubar a comida que pudessem apanhar além de fazerem um barulho infernal toda a noite.

Tive a minha primeira contrariedade ao receber o itinerário oficial, treinei para uma prova de 256km, como estava indicado e fiquei a saber que a mesma teria 309 km 810 mts. A etapa longa já não teria 105km mas sim 140km.

O meu encontro com a onça

Tinha somente alimentos e suplementos para os 256 km, tive de reprogramar as doses diárias de modo a sobrarem suplementos para a etapa longa, sacrificando assim as quatro primeiras etapas que eram as de piso mais difícil com muitos desníveis acentuados, obrigando a subir muitas vezes com a ajuda das mãos, pântanos e igarapés, rios com mais de 80 metros de largura e o famoso beco das onças onde apanhei um enorme susto ao sentir a menos de três metros o rugido seco de uma onça o que me fez correr mais rápido sem sequer tentar olhar para ela.

Carlos Coelho
Carlos Guerreiro Coelho – Foto: Alexander Beer

Cerca de quinze minutos depois o Brasileiro Felipe Rocha e o Espanhol José Miguel Montenegro encontraram a enorme onça no trilho tendo o José Miguel trepado a uma árvore e o Felipe berrar para afugentar o animal.

A minha estratégia nesta prova foi arrancar forte com o grupo da frente, pois o trilho era muito estreito e começava sempre com uma subida íngreme.

Escapar ao engarrafamento de atletas, sacrificar o máximo de energia nas três primeiras etapas que eram as de piso mais difícil, controlando a partir daí os atletas que vinham atrás, o que consegui sempre fazer.

Ao reduzir drasticamente a dose diária de sódio e potássio nas primeiras e mais difíceis etapas para poupar para a etapa longa, o que se tornou um grande sacrifício fazendo-me sentir caimbras e tonturas. Valeu-me a ajuda de outros atletas que me cederam suplementos.

Atletas destroçados física e psicologicamente, pareciam verdadeiros “zombies”

O que mais me impressionou logo no final da primeira etapa, foi o estado em que muitos dos atletas que seguiam atrás chegavam ao acampamento horas depois de eu ter cortado a meta, completamente destroçados física e psicologicamente, pareciam verdadeiros “zombies”.

Ao fim de terceira etapa e após cortar a meta, deu-se então o episódio que me levou a abandonar a prova depois de terminar a quarta etapa, juntamente com o primeiro classificado, Carlos Sá, o terceiro Rodrigo de Souza e o quinto Gustavo.

O meu abandono não foi por desgaste físico ou psicológico, cada dia estava mais forte e as últimas duas etapas eram as de piso mais fácil e estava seguro na sexta posição com pouco mais de uma hora de diferença para o sétimo classificado.

A minha decisão de abandonar a prova, horas depois de ter cortado a meta da quarta e etapa maratona em sexto lugar deveu-se ao facto de eu não tolerar injustiças, não aceitar de modo nenhum uma penalização de duas horas por algo sem sentido.

Tentei ainda na terceira etapa que a diretora da prova reflectisse no exagero da sua atitude e retirasse a penalização a todos os atletas que chegaram nas primeiras duas horas.

A discórdia pelo copinho de água de coco

O copinho de água de coco que todos beberam e que levou ao desentendimento com a diretora de prova aconteceu depois de terminar a terceira etapa, onde fomos informados que estava autorizado, como tinha acontecido no ano anterior e a diretora só soube porque um atleta tranquilamente agradeceu a autorização, nunca pensando que tinha sido um engano, eu próprio disse à diretora de prova que tinha bebido, ninguém denunciou ou viu sequer.

Curiosamente, após o nosso abandono a diretora de prova diminuiu a etapa longa em 40 km e a ultima etapa em oito kms.

Seria impossível terminar a prova no dia previsto se tivesse mantido a loucura dos 140, ou 147 km da etapa longa e retirou também a penalização aos restantes atletas.

Dos 65 atletas que partiram após o nosso abandono terminaram apenas 26.

Carlos Coelho “Tive que ter muita coragem para abandonar”

Tive que ter muita coragem para abandonar uma prova em que tinha a minha melhor prestação de sempre. Sei que algumas pessoas ficaram tristes e desiludidas pelo meu abandono mas quem me conhece sabe que nunca viro as costas a nenhum desafio, por mais difícil que pareça, mas também sabem que não aceito injustiças.

Ficaram as amizades com quem partilhei, a dureza da prova, a memória da beleza única deste paraíso e isso é mais importante que qualquer medalha, venha a próxima!

Aconselho todos os atletas, que pretendam fazer este tipo de provas, a não seguirem apenas a informação do Site oficial, mas sim tentarem contactar com atletas que já tenham feito a prova, minimizando assim os riscos de se inscreverem numa prova mal organizada, que neste caso envolveu não só o risco inerente a este género extremo de provas desportivas mas, existiram verdadeiros momentos de perigo que só não levaram a acidentes muito graves por mera sorte!

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Texto: Carlos Coelho
Fotos: Alexander Beer

 

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