MEIA MARATONA DO PORTO: ENTRE CORRIDA E ENTREAJUDA
Foto: RUNPORTO.COM
O Porto voltou a vestir-se de corrida para receber a 19ª edição da Hyundai Meia Maratona do Porto, numa manhã que juntou cerca de 11 mil atletas, de 94 países, para correr entre a Invicta e Vila Nova de Gaia.
Com partida e chegada junto ao Jardim do Passeio Alegre, na Avenida Dom Carlos I, a prova voltou a apresentar um percurso renovado e levou novamente os atletas até Gaia através da Ponte Luís I, atravessada pelo tabuleiro inferior nos dois sentidos.
Foram 21,1 quilómetros entre duas margens, com o Douro como cenário e uma corrida que voltou a ter muito mais do que competição.
Fonte: Helena Santos // OPraticante.pt
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Porto, Gaia e uma corrida feita também de apoio
Ao longo do percurso, o ambiente voltou a ser uma das imagens da Meia Maratona do Porto.
O público marcou presença em diferentes pontos, o staff esteve no terreno e houve uma constante preocupação em apoiar quem seguia quilómetro após quilómetro. Mas, em vários momentos, a entreajuda foi muito além do que estava previsto nos postos de abastecimento.
Houve polícias a cederem a sua própria água a atletas que precisavam, enquanto alguns corredores partilharam géis e fruta com outros participantes que iam encontrando pelo caminho.
São gestos simples, mas que ganham outro significado quando as pernas já pesam e o calor começa a fazer-se sentir.
E contra o calor ninguém pode fazer nada.
Pode existir água, fruta, isotónico, géis, staff e toda uma estrutura montada para apoiar os atletas. Mas há condições que pertencem simplesmente ao dia da prova. O que se pode fazer é estar lá, perceber quando alguém precisa e ajudar.
Também o início às 9h00, horário que a Meia Maratona do Porto tem mantido nos últimos anos, acabou por não ser um problema para muitos participantes. Para quem está habituado à prova, começar a esta hora já faz parte do ritual.
Depois, cada atleta fez a sua gestão. Uns procuraram o relógio, outros procuraram simplesmente chegar ao fim. E houve quem tivesse de tomar uma decisão diferente.
Quénia domina a frente da corrida
Na luta pela vitória, o domínio foi queniano.
Owen Korir Kapkama venceu a prova masculina, com 1:01:58, seguido de Cyrus Kipkemoi Kimaiyo, que terminou em 1:02:03. O terceiro lugar foi para Thimothy Kibet Misoi, com 1:03:22.
O melhor português foi André Pereira, do Santa Tecla, que terminou no sexto lugar da classificação geral, com 1:04:13.
Na competição feminina, Naomi Chepngeno, do Quénia, foi a vencedora, com 1:10:35. Margaret Murinjo Monicah, também queniana, foi segunda, em 1:10:57, enquanto Hiwot Mehari Beza, da Etiópia, fechou o pódio com 1:12:07.
A melhor portuguesa foi Maria Vinagre, do SC Salgueiros, sexta classificada da geral feminina, com 1:14:21.
Mas uma meia maratona não se resume aos primeiros a cortar a meta.
Há milhares de outras histórias espalhadas pelos mesmos 21,1 quilómetros.
Quando parar também faz parte da corrida
Para Helena Santos, esta edição acabou por ser vivida de uma forma completamente diferente daquela que tinha imaginado.
A atleta alinhou à partida com uma virose e, desde cedo, sabia que dificilmente conseguiria levar a prova até aos 21,1km.
Ainda assim, decidiu começar.
“Numa prova, somos responsáveis pelos nossos atos e pelas nossas decisões. Temos de saber hidratar-nos, alimentar-nos e, acima de tudo, perceber como o nosso corpo reage ao frio, ao calor e às diferentes condições.”
A decisão de parar não surgiu por falta de vontade de continuar. Surgiu porque o corpo começou a dar os sinais que ela já conhecia.
“Já fiz provas debaixo de granizo, chuva torrencial e trovoada, mas também com um calor tremendo. Conheço as minhas reações, os meus limites e, principalmente, os sinais que o meu corpo me dá quando é altura de parar.”
E foi aí que a corrida mudou.
“O corpo avisa sempre. Cabe-nos a nós saber ouvi-lo e não levar os limites até ao limite dos limites.”
Parar também é uma decisão.
E, para Helena Santos, é uma decisão que não deve ser confundida com falhar.
“Desistir não é falhar. Há momentos em que parar é a decisão mais consciente, mais responsável e mais difícil de tomar. Numa prova, o objetivo não deve ser apenas chegar ao fim… deve ser chegar ao fim em segurança.”
De atleta a ajudar no quilómetro 5
A história podia ter terminado ali.
Não terminou.
Depois de abandonar a prova, Helena Santos chegou ao posto de abastecimento do quilómetro 5. Ali, ninguém sabia quem ela era. Para quem estava no local, era simplesmente mais uma atleta que tinha parado.
Mas, em vez de ficar apenas a assistir, decidiu ajudar.
“Ali ninguém sabia quem eu era. Sabiam apenas que era atleta e que tinha desistido. Meti mãos à obra e comecei a entregar águas juntamente com eles.”
Durante algum tempo, a corrida foi vista de um lado completamente diferente.
Já não havia ritmo, quilómetros para cumprir ou uma meta para alcançar. Havia atletas a aproximarem-se, mãos a estenderem-se e garrafas de água a passarem de mão em mão.
Correr também é um ato de responsabilidade
Há outra questão que esta prova também deixa em cima da mesa: a preparação para uma distância de 21,1km.
Correr é saudável. É desafiante. É uma forma de nos superarmos. Mas também é um ato de responsabilidade.
Hoje, muitas vezes, o desafio começa com uma inscrição, passa por uma fotografia e termina com uma selfie na meta. E não há nada de errado em querer viver essa experiência. O problema está em pensar que, para superar um desafio, basta aparecer no dia da prova e tentar.
Uma meia maratona não começa na linha de partida. Começa meses antes, nos treinos, na adaptação progressiva à distância, na alimentação, na hidratação e na capacidade de perceber como o nosso corpo reage ao esforço.
Se durante a preparação nunca fizemos uma distância próxima daquela que vamos enfrentar numa prova, avançar depois “às cegas” para 21,1 quilómetros exige ainda mais cuidado. E quando a isso se juntam temperaturas a rondar os 30 graus, o corpo é colocado perante uma exigência completamente diferente.
Não é preciso correr depressa para estar preparado. Cada atleta tem o seu ritmo e o seu processo. Mas é preciso treinar para o objetivo que queremos alcançar.
Superar não é simplesmente dizer “eu consegui”. Superar é preparar, respeitar o processo e conhecer os próprios limites.
Porque a selfie na meta fica muito mais bonita quando chegamos lá sabendo que o nosso corpo estava preparado para essa viagem.
Água também perto do quilómetro 18
Mais tarde, já perto do quilómetro 18, voltou a acontecer algo semelhante.
Desta vez, não se tratava de um posto de abastecimento oficial.
“Não era um abastecimento oficial. Foi algo pensado na hora. Tínhamos águas e, aos atletas que pediam, fomos dando.”
Àquela altura, os quilómetros acumulados já pesavam. E uma garrafa de água entregue no momento certo podia significar muito para quem seguia em direção à meta.
Foi também nesse contexto que se tornou mais evidente uma das características que marcou esta manhã: a entreajuda entre quem estava na estrada.
O que os atletas disseram depois
Mas há uma diferença importante entre aquilo que aconteceu no terreno e aquilo que os atletas sentiram ao longo de toda a prova.
Nos dias seguintes à Meia Maratona do Porto, Helena Santos falou com vários participantes sobre a experiência vivida nos 21,1 quilómetros, nomeadamente sobre a hidratação e o apoio encontrado nos diferentes pontos do percurso.
“Falei com vários atletas e, nas conversas que tive depois da prova, disseram-me que nunca lhes recusaram água e que encontraram também fruta, géis e isotónico nos postos de abastecimento.”
Alguns participantes referiram ainda que conseguiram levar água de uns postos para os seguintes, permitindo manter a hidratação durante uma parte maior do percurso.
São relatos recolhidos nos dias seguintes à prova e correspondem às experiências dos atletas com quem Helena Santos falou. Não representam, naturalmente, a experiência de todos os participantes.
“Cada atleta pode ter tido uma experiência diferente. Eu só posso falar daquilo que vi e daquilo que ouvi diretamente no terreno e, depois da prova, de quem me contou a sua experiência.”
E talvez seja precisamente essa a forma mais justa de olhar para uma prova com 15 mil atletas: perceber que não existe uma única Meia Maratona do Porto.
Existem milhares.
Um obrigado a quem esteve no terreno
Uma palavra também para quem esteve do outro lado da corrida. O staff da RUNPORTO.COM esteve presente ao longo do percurso, nos abastecimentos, nos pontos de apoio e em todos aqueles momentos que nem sempre aparecem nas fotografias, mas que fazem parte de uma prova desta dimensão.
A todos os elementos que estiveram no terreno, fica o nosso obrigado pelo trabalho, pela disponibilidade e pela forma como estiveram junto dos atletas durante esta Meia Maratona do Porto.
Nem sempre a meta é o mais importante
Uns terminam em pouco mais de uma hora, outros passam duas horas ou mais na estrada. Alguns correm à procura de um recorde pessoal, enquanto outros querem simplesmente desfrutar dos 21,1km, mas todos devem fazê-lo com noção dos seus limites e daquilo que o corpo lhes vai dizendo ao longo do caminho.
E há quem, como aconteceu desta vez com Helena Santos, perceba que o melhor resultado possível é parar.
Mas parar não significou deixar de fazer parte da corrida.
“Comecei a prova como atleta, mas acabei por vivê-la de outra forma. Primeiro estava a correr. Depois estava do outro lado, a ajudar quem continuava.”
Talvez seja também isso que torna uma meia maratona especial.
A classificação conta. Os tempos contam. As vitórias contam.
Mas, entre a partida e a meta, acontecem muitas outras coisas que não aparecem numa tabela de resultados.
Um polícia que entrega a sua própria água. Um atleta que divide o gel ou a fruta que levava consigo. Um elemento do staff que está ali quando alguém precisa. Uma garrafa entregue perto do quilómetro 18. Uma palavra de incentivo quando as pernas já não respondem da mesma forma.
Nem sempre a história mais importante é a de quem chega primeiro.
Às vezes, é a de quem sabe parar.
Outras vezes, é a de quem continua.
E, algumas vezes, é simplesmente a de quem, mesmo depois de deixar de correr, encontra outra forma de fazer parte da corrida.
Porque, no final, numa meia maratona, o objetivo não deve ser apenas chegar à meta. Deve ser chegar à meta em segurança.
E depois há a meta. O momento em que cada atleta fecha os 21,1 quilómetros e percebe que aquela corrida já ficou para trás. Para uns, com um tempo desejado. Para outros, simplesmente com a satisfação de terem conseguido chegar. Mas todos carregam consigo aquilo que aconteceu pelo caminho.
Ajudar também é saber quando pedir ajuda
E há uma coisa que não pode ser esquecida numa prova deste tamanho: quando um atleta deixa de estar em condições para continuar, o mais importante deixa de ser a corrida.
Nessa altura, ficam para trás o relógio, o ritmo, o objetivo e a classificação. O que importa é a pessoa que está ali.
A primeira atitude deve ser parar, ficar junto do atleta e procurar ajuda, contactando de imediato o número de emergência ou os meios de assistência disponibilizados pela organização da prova.
E há também um cuidado importante: não tentar carregar ou transportar um atleta debilitado pelos próprios meios, salvo se existir um perigo imediato que obrigue a retirá-lo desse local. Em caso de dúvida, é preferível manter o atleta acompanhado e deixar a avaliação e o transporte para quem está preparado para o fazer.
Porque ajudar não é apenas dar uma garrafa de água ou um gel. Às vezes, ajudar é simplesmente esquecer os nossos tempos, ficar ao lado de quem precisa e saber chamar quem pode realmente intervir.









