PEDRO FLÁVIO “SINTO UM ENORME ORGULHO E RESPONSABILIDADE”
Foto: COP – Comité Olímpico de Portugal
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Portugal vai marcar presença pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos de Inverno, com um único atleta a representar o país em Milão e Cortina d’Ampezzo, entre 6 e 15 de março de 2026. À frente da missão estará Pedro Flávio, presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal, que tem dedicado a sua carreira ao desenvolvimento e promoção das modalidades de neve e gelo no país.
Nesta entrevista, abordamos a sua trajetória, os desafios enfrentados, os projetos em curso e a histórica estreia paralímpica portuguesa nos desportos de inverno.
Fonte: Helena Santos // OPraticante.pt
Sobre a carreira e motivação
1. Como nasceu o seu interesse pelos desportos de inverno?
O meu interesse pelos desportos de inverno nasceu muito cedo. Comecei a esquiar quase ao mesmo tempo que comecei a andar, muito por culpa do meu Pai que era na altura Professor de Educação Física, Professor de Esqui Alpino diplomado pela ESF e um grande adepto dos desportos de neve.
Com o tempo e à medida que ia evoluindo na modalidade comecei a competir nacional e internacionalmente no Esqui Alpino, o que me levou a conseguir obter o Estatuto de Alta Competição (que hoje equivale ao Alto Rendimento). Fui durante mais de uma década Campeão Nacional da modalidade. Tenho por estas razões uma ligação muito forte aos desportos de inverno.
2. O que o levou a aceitar a presidência da Federação de Desportos de Inverno de Portugal?
Estou ligado à Direção da FDI-Portugal desde 2010, por convite do anterior presidente Pedro Farromba. Trabalhei com o Pedro neste projeto durante mais de 12 anos e vi a Federação crescer, ganhar notoriedade e reconhecimento. Em 2014 passei a desempenhar funções de Vice-Presidente e naturalmente, num sentido de continuidade do projeto que tínhamos montado, decidi em 2022 candidatar-me à presidência com sentido de responsabilidade e visão de futuro. Acreditei, e continuo a acreditar, que Portugal pode afirmar-se nos desportos de inverno com um projeto estruturado, sustentável e ambicioso. Era necessário consolidar processos, reforçar credibilidade internacional e criar oportunidades reais para os atletas. Esse desafio motivou-me.
3. Quais foram os maiores desafios pessoais que enfrentou ao longo da sua carreira neste desporto?
Enquanto atleta, a superação de algumas lesões que foram acontecendo, bem como a necessidade de abrir portas numa modalidade que na minha altura não tinha as condições que hoje conseguimos para os nossos atletas.
Enquanto dirigente o maior desafio foi, sem dúvida, desenvolver modalidades que não fazem parte da tradição desportiva portuguesa. Trabalhar com limitações estruturais, financeiras e geográficas exige persistência constante. Também foi desafiante mudar mentalidades e demonstrar que é possível para Portugal competir com qualidade nos Desportos de Inverno e obter resultados de excelência como o título mundial Júnior de Jéssica Rodrigues na Patinagem de Velocidade no Gelo em 2025.
Sobre a Federação e desafios
4. Quais são os principais obstáculos para o desenvolvimento dos desportos de inverno em Portugal?
Os principais obstáculos são a ausência de condições naturais permanentes, a escassez de infraestruturas específicas e os custos elevados associados à prática internacional. Além disso, é necessário um esforço contínuo de sensibilização para tornar estas modalidades mais conhecidas junto do público e dos jovens.
5. Como equilibra a falta de neve e infraestruturas com a formação de atletas de alto nível?
A estratégia passa por um modelo híbrido: formação de base em Portugal, através de preparação física, técnica e utilização das pistas de neve e gelo disponíveis, nomeadamente a Estância de Ski da Serra da Estrela e a Serra da Estrela Ice Arena (Pista de gelo construída pela FDI-Portugal em 2021), complementada por estágios regulares no estrangeiro. Trabalhamos com planeamento rigoroso e parcerias internacionais que permitem aos nossos atletas treinar fora do país nas melhores condições possíveis.
6. Que estratégias a Federação tem para atrair mais jovens para estas modalidades?
Temos investido em programas de captação em escolas, demonstrações públicas, eventos promocionais e parcerias com clubes, bem como a realização de casas abertas ou “Try days” junto das comunidades Portuguesas espalhadas pela Europa e América do Norte. A comunicação digital também desempenha um papel importante na aproximação aos jovens. Queremos mostrar que os desportos de inverno são acessíveis e desafiantes.
Sobre projetos e futuro
7. Pode explicar o projeto da “Casa das Modalidades no Gelo”?
O Pavilhão de Desportos de Inverno, cuja construção está prevista para o Seixal é um projeto estruturante que visa criar um espaço dedicado às disciplinas de gelo em Portugal. Pretende centralizar recursos, apoiar atletas, promover formação técnica e criar uma identidade comum às modalidades. Será um polo de desenvolvimento, inovação e sustentabilidade para o futuro, tendo condições também para vir a receber competições e eventos internacionais de Hóquei no gelo, Curling, Patinagem Artística no Gelo ou Patinagem de Velocidade no Gelo (Short Track).
8. Quais outras iniciativas estão previstas para melhorar as condições de treino dos atletas?
Estamos a trabalhar com o Comité Olímpico de Portugal e com o Comité Paralímpico de Portugal, com o objetivo de conseguir mais e melhores condições para os nossos atletas, como as Bolsas de Esperanças Olímpicas já a pensar nos Jogos Olímpicos de 2030.
É importante também investir na formação de treinadores bem como melhorar o acesso destes atletas a acompanhamento multidisciplinar: fisioterapia, nutrição, psicologia desportiva, por forma a garantir a melhor preparação possível.
9. Que parcerias internacionais têm sido mais importantes para o desenvolvimento dos desportos de inverno em Portugal?
As parcerias estabelecidas com outras federações, como as Federações de Espanha e Andorra ou com centros de treino de referência como o Centro de Excelência da ISU em Heerenveen na Holanda, têm sido fundamentais. A colaboração com estruturas técnicas internacionais e a participação em campos de treino promovidos pelas federações internacionais permite-nos elevar padrões, partilhar conhecimento e integrar atletas portugueses em ambientes altamente competitivos.
Sobre atletas e competição
10. Como avalia a presença de Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno?
A presença portuguesa tem sido marcada pela superação e pelo crescimento progressivo. Portugal participa sem interrupções nos Jogos Olímpicos de Inverno desde Turim 2006, como resultados que têm na generalidade vindo a melhorar. Cada participação dá sinais de consolidação institucional. O nosso objetivo é aumentar consistência e competitividade a cada ciclo, qualificando mais atletas em mais modalidades.
11. Que conselhos dá aos atletas portugueses que querem competir internacionalmente?
Diria que é essencial começar o mais cedo possível, acreditar no processo, manter disciplina diária e estar preparado para sair da zona de conforto. As modalidades de Inverno são muito exigentes.
12. Como a Federação apoia os atletas fora das competições, no seu desenvolvimento pessoal e académico?
Procuramos garantir equilíbrio entre carreira desportiva e formação académica, incentivando os nossos a dedicarem-se aos estudos.
Sobre a primeira representação paralímpica de Portugal (2026)
13. Portugal terá o seu primeiro atleta paralímpico de inverno. Como se sente por chefiar esta missão histórica?
Sinto um enorme orgulho e responsabilidade. Liderar esta missão é representar um momento histórico para o desporto português e uma oportunidade única para desenvolver o desporto adaptado de inverno, sendo um passo importante no caminho da inclusão, determinação e evolução da Federação.
14. Que significado tem para Portugal ter, pela primeira vez, um atleta nos Jogos Paralímpicos de Inverno?
Significa dar um passo decisivo na igualdade de oportunidades no desporto. É uma afirmação clara de que o talento e a ambição não têm limites. Abre portas a novas gerações e reforça o compromisso do país com o desporto inclusivo.
15. Que desafios enfrentaram para preparar este único atleta para competir neste nível?
O principal desafio foi estruturar um programa de preparação específico, com recursos limitados e necessidade de treinos internacionais frequentes. Exigiu planeamento rigoroso, apoio técnico qualificado e grande dedicação do atleta e treinador.
16. O atleta será acompanhado pelo seu treinador, Nuno Marques ‘Mancha’. Qual a importância desta parceria?
A relação atleta-treinador é determinante. O Mancha fez um trabalho muito bom com o Diogo, acreditando no seu potencial desde o início que garantiu a este processo a estabilidade e a confiança necessária para atingir os objetivos. Esta parceria é um dos pilares do percurso que permitiu atingir esta qualificação paralímpica.
17. Que tipo de apoio a Federação providenciou para garantir que o atleta possa competir nas melhores condições?
A Federação apoiou financeiramente e logisticamente este projeto desde o início, conseguindo também incluir o atleta no Programa de Apoio à participação Olímpica e Paralímpica de Inverno formalizado com o IPDJ e que financiou o período de qualificação do Diogo.
18. Que mensagem gostaria de transmitir ao atleta antes da sua competição?
Gostaria de transmitir ao Diogo, que no dia que entrar em competição, o faça com orgulho, serenidade e coragem. Já fez história ao qualificar-se. Agora, irá competir com a consciência de que representa não só Portugal, mas também uma nova geração de atletas paralímpicos de inverno, motivados pela sua participação.
19. Que impacto espera que a participação deste primeiro atleta paralímpico de inverno português tenha no desporto paralímpico em Portugal?
Espero que seja transformador. Que inspire jovens atletas com deficiência a acreditar que também podem chegar ao mais alto nível. Que motive instituições a investir mais e que amplie a visibilidade do desporto paralímpico nacional.
20. Como pretende a Federação apoiar futuros atletas paralímpicos nas modalidades de inverno?
Dependendo do número de atletas que possa vir a ser identificados, pretendemos vir a reforçar parcerias com entidades que nos possam ajudar neste caminho e integrar plenamente os atletas paralímpicos na estratégia global da Federação.
21. Como imagina a presença portuguesa nos Jogos Paralímpicos de Inverno nos próximos anos?
Imagino uma presença com mais atletas em mais modalidades. O objetivo é consolidar esta primeira participação e transformá-la numa presença consistente e sustentada nos próximos ciclos paralímpicos.





