AFONSO EULÁLIO FAZ HISTÓRIA E VESTE DE ROSA NO GIRO
Foto: Sprint Cycling
O ciclismo português voltou a viver um daqueles dias que ficam gravados para sempre na memória coletiva. Depois de Acácio da Silva, em 1989, e de João Almeida, em 2020, chegou agora a vez de Afonso Eulálio entrar para a história do Giro d’Italia ao vestir a mítica maglia rosa.
O jovem corredor da Bahrain Victorious assumiu a liderança da classificação geral no final da 5.ª etapa, entre Praia a Mare e Potenza, depois de protagonizar uma exibição épica sob chuva intensa, frio e estradas traiçoeiras.
Num dia absolutamente caótico, Eulálio terminou a etapa no segundo lugar, apenas batido ao sprint pelo espanhol Igor Arrieta, da UAE Team Emirates. Ainda assim, o mais importante estava conquistado: a camisola rosa estava entregue a Portugal.
Aos 24 anos, o corredor natural da Figueira da Foz torna-se apenas o terceiro português de sempre a liderar o Giro, depois dos dois dias de Acácio da Silva em 1989 e dos 15 dias de João Almeida em 2020.
Além disso, assume também a liderança da juventude, vestindo igualmente a camisola branca.
Um dia de loucos em Potenza
A etapa ficou marcada pelas condições extremas e por um final absolutamente inacreditável.
Depois de integrar a fuga do dia, Eulálio isolou-se na frente ao lado de Arrieta, construindo uma vantagem superior a sete minutos sobre o pelotão.
Entretanto, a cerca de 13 quilómetros da meta, o espanhol caiu numa descida molhada, deixando o português sozinho na frente da corrida.
Pouco depois, quando a vitória parecia encaminhada para Eulálio, também o português foi ao chão, permitindo o regresso do rival espanhol.
No entanto, o caos ainda estava longe de terminar.
Já nos quilómetros finais, Arrieta entrou numa estrada errada depois de sair largo numa curva, mas conseguiu recuperar de forma impressionante para ultrapassar o português nos metros finais, vencendo uma etapa absolutamente memorável.
Mesmo sem o triunfo parcial, Eulálio saiu de Potenza como o grande vencedor do dia.
“Ainda não assimilei”
Depois da cerimónia do pódio e já vestido de rosa, o português não escondia a emoção.
“Penso que ainda não assimilei. O dia foi de loucos. Primeiro com a chuva, o frio, os ataques, a intensidade. Depois, no final, as descidas super escorregadias, as quedas; caiu o Arrieta, caí eu e o sprint quase não foi um sprint, foi só aguentar na bicicleta. Foi de loucos.”
Além disso, a estratégia da Bahrain Victorious acabou por funcionar praticamente na perfeição, com a equipa a colocar o português na fuga certa para atacar a etapa — e, sem o assumir diretamente, também a classificação geral.
“A equipa traçou o plano perfeito para eu estar presente na fuga e para lutarmos pela vitória. Não falamos quase nada sobre a camisola rosa, mas acabou por acontecer.”
Apesar da desilusão de perder a etapa praticamente sobre a linha de meta, o sorriso manteve-se intacto.
“O facto de as quedas terem acontecido no final… não sei o que dizer. Deu-se a queda do Arrieta, depois eu tinha a etapa, mas caí e voltamo-nos a juntar. Penso que fizemos o sprint mais lento de sempre.”
Uma vantagem que alimenta o sonho
Com a liderança consolidada, Afonso Eulálio parte para a 6.ª etapa, entre Paestum e Nápoles, com 2m51 de vantagem sobre Igor Arrieta.
Por outro lado, os principais favoritos à conquista do Giro seguem já a mais de seis minutos da camisola rosa.
Entre eles está Jonas Vingegaard, que ocupa uma posição distante na classificação geral e poderá permitir ao português prolongar por mais alguns dias a permanência de rosa.
Ainda assim, Eulálio acredita que é possível continuar a defender a liderança.
“Tenho uma vantagem interessante, vamos ver o que podemos fazer nos próximos dias. Amanhã vou partir da fila da frente e espero repetir em mais dias.”
Portugal volta a sonhar
Do jovem que conquistou os adeptos na Volta a Portugal em 2024 ao homem que agora lidera a maior corrida do mundo depois do Tour de France, a ascensão de Afonso Eulálio continua a surpreender o pelotão internacional.
Agora, o corredor da Figueira da Foz sabe que o país inteiro está colado ao Giro — e sente esse carinho vindo de Portugal.
“Seguramente as pessoas estão a acompanhar mais o Giro por este momento. Estão-me a acompanhar a mim também e espero que sintam orgulho disto como eu estou a sentir.”
Assim, Portugal voltou a vestir-se de rosa.
E, desta vez, o protagonista chama-se Afonso Eulálio.


