DIOGO CARMONA LEVA PORTUGAL A DESLIZAR PARA A HISTÓRIA
Diogo Carmona - Foto: Paralímpicos
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O snowboarder português Diogo Carmona prepara-se para marcar um momento histórico ao tornar-se o primeiro atleta nacional a competir em snowboard nos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. A estreia acontece na prova de banked slalom, numa participação que o atleta encara sobretudo como uma conquista pessoal após um percurso de superação.
Fonte: Helena Santos com a Lusa
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Pouca experiência na neve antes da estreia paralímpica
“Tenho 97 dias de neve, com a prancha debaixo dos pés, sei que é muito pouco tempo”, afirma.
O atleta recorda que esse número contrasta com a experiência de alguns dos seus adversários. Segundo contou, o italiano Emanuel Perathoner, várias vezes medalhado nos Jogos Paralímpicos, explicou-lhe que acumula aproximadamente esse mesmo número de dias de treino em apenas meio ano.
Aos 28 anos, Carmona prefere não estabelecer metas rígidas para a sua participação na competição, apostando antes na possibilidade de surpreender.
“Espero surpreender-me e surpreender as pessoas que estão a ver”, assegurou.
Preparação condicionada por lesão
A preparação para a prova não decorreu sem dificuldades. Uma lesão no pé condicionou a fase final de treinos e atrasou a evolução física do atleta.
Apesar disso, Carmona garante que chega à competição praticamente recuperado e preparado para competir.
“Agora tenho dores residuais, nada demais, o meu pé está praticamente a 100% e estou mais do que pronto para competir”.
Do acidente à recuperação
O caminho até aos Jogos Paralímpicos começou após um episódio dramático na vida do atleta. Em 2019, Carmona foi atropelado por um comboio e perdeu parte da perna esquerda, uma situação que o deixou profundamente abalado.
“Depois de perder a minha perna, fiquei muito em baixo de forma física, também psicológica”.
Segundo o próprio, a recuperação começou com pequenos passos. Incentivado pela mãe e também por iniciativa própria, regressou ao ginásio, decisão que lhe trouxe novos hábitos mais saudáveis e motivação para voltar às atividades que sempre fizeram parte da sua vida.
O skate, modalidade que praticava antes do acidente, acabou por desempenhar um papel importante nesse processo. No entanto, regressar ao skate park não foi fácil.
Voltar ao local onde os amigos continuavam a fazer manobras enquanto ele se adaptava à nova realidade foi inicialmente doloroso. Ainda assim, ganhou coragem para voltar a andar de skate e ultrapassar a vergonha que sentia em mostrar a prótese.
“Hoje olho para trás e penso que estupidez, porque eu deveria ter vergonha de mostrar a minha perna?”.
O convite que mudou tudo
Atualmente, o foco está no snowboard e na estreia paralímpica. No entanto, Carmona não esconde ambições futuras e admite que gostaria também de competir nos Jogos Paralímpicos de Verão caso o skate venha a integrar o programa.
Conhecido do público português por ter participado em várias produções televisivas durante a infância e juventude, Carmona acredita que a sua visibilidade pode ajudar a promover o desporto adaptado.
“Às vezes, a imagem acaba por enganar um pouco. Posso parecer ou dizer coisas superficiais, mas existe alguma profundidade. Tenho algumas camadas, e sei que sou uma pessoa ambiciosa”.
O atleta fala também com gratidão do papel do treinador Nuno Marques ‘Mancha’, que foi quem o introduziu na modalidade e acreditou no seu potencial desde o início.
“É alguém que acreditou em mim, quando ninguém mais acreditava”.
O primeiro contacto entre ambos surgiu através das redes sociais, depois de ‘Mancha’ ter visto vídeos de Carmona a praticar skate.
“Ele viu esses vídeos, entrou em contacto comigo e disse-me: ‘Diogo, há falta de atletas olímpicos e paralímpicos de snowboard em Portugal. O que é que tu achas de experimentares um dia? Só para ver como é que corre'”.
Pouco tempo depois de experimentar a modalidade, Carmona participou numa etapa da Taça da Europa, experiência que recorda como um verdadeiro desafio.
“Creio que foi uma excelente decisão da parte dele, atirar-me assim para os leões, porque foi exatamente isso. Atirou-me para algo que eu não estava preparado e obrigou-me a ter de puxar por mim”.
Uma lição de vida nos Jogos Paralímpicos
A presença nos Jogos Paralímpicos foi um momento particularmente emotivo para o atleta e para o treinador, que partilharam a emoção durante a cerimónia de abertura da competição.
Carmona destaca também o ambiente vivido entre os atletas, considerando que a experiência tem sido inspiradora.
“Além das nossas deficiências, existem outras dificuldades adjacentes nas quais às vezes nem pensamos e não temos noção do que é outros atletas podem estar a passar”.
Durante a preparação, o português tem treinado ao lado de atletas de diferentes países, incluindo um snowboarder ucraniano que lhe contou como é treinar num país em guerra.
“Enquanto falo consigo, estou no ginásio e estou a treinar com um atleta ucraniano, que já partilhou um pouco da realidade do seu país e de como é a treinar lá”.
Independentemente do resultado final, Carmona acredita que o mais importante é a mensagem que pode transmitir a outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes.
“Seguir aquilo que nos faz felizes”.




