EULÁLIO E O CONTRARRELÓGIO DO DESTINO

Afonso Eulálio

Foto: Team Bahrain Victorious

A terça-feira poderá marcar um dos momentos mais importantes da carreira de Afonso Eulálio. O ciclista português parte para a 10ª etapa da 109ª Volta a Itália vestido de rosa, mas plenamente consciente de que o contrarrelógio de 42 quilómetros entre Viareggio e Massa representa um desafio enorme às suas características.

O jovem corredor da Bahrain Victorious, de apenas 24 anos, não escondeu o pessimismo quando questionado sobre a possibilidade de manter a liderança da classificação geral perante Jonas Vingegaard, um dos melhores especialistas do mundo em esforços individuais.

“Não”, respondeu de forma directa quando lhe perguntaram se acreditava que conseguiria conservar a camisola rosa no final do dia.

Apesar da sinceridade, Eulálio garantiu que vai lutar até ao limite.

“Não acredito que a mantenha, gostava de defendê-la e vou lutar por isso, mas o Jonas é super bom, um dos melhores corredores do mundo. Vou dar tudo o que tenho”, afirmou.

O português parte para a etapa com 2.24 minutos de vantagem sobre o dinamarquês da Visma-Lease a Bike, vencedor do Tour de France em 2022 e 2023 e atual campeão da Vuelta. No entanto, o perfil do contrarrelógio joga claramente contra o corredor português.

“Este contrarrelógio é totalmente plano, velocidade máxima, é o pior tipo de contrarrelógio para ciclistas leves”, explicou.

Eulálio admitiu mesmo que as suas hipóteses de conservar a liderança são “de dois ou três numa escala até dez”.

Fonte: Helena Santos

Afonso Eulálio
Foto: Sprint Cycling

Um gregário transformado em líder inesperado

A realidade que o português vive actualmente está muito longe daquela que imaginava há apenas algumas semanas. Inicialmente, chegou ao Giro como homem de apoio da Bahrain Victorious, preparado para trabalhar para os líderes da equipa e aproveitar algumas oportunidades na montanha.

“Há um mês, o meu plano era encarar o contrarrelógio como um dia de descanso, e agora tenho de dar o máximo”, confessou.

Embora tenha trabalhado ligeiramente a componente do contrarrelógio, admite que a preparação nunca foi direcionada para defender uma liderança numa grande Volta.

“Vim para o Giro como um homem de trabalho, um gregário. Ia ter as minhas oportunidades nas montanhas, e agora as coisas mudaram um pouco.”

Ainda assim, acredita que poderá evoluir nesta especialidade no futuro.

“Acho que posso vir a fazer contrarrelógios bons, mas este é mesmo zero para mim. É totalmente plano, sobre velocidade. Vai ser sofrer.”

Afonso Eulálio
Foto: Giro d’Itália

O sonho continua vivo

Apesar das dificuldades esperadas, Eulálio prefere não definir já novos objectivos para a classificação geral. Tudo dependerá da forma como sair deste contrarrelógio.

“Depois do crono logo veremos onde fico. Aí decidiremos se vamos atrás de etapas ou de um lugar no top-10.”

Mas há um cenário que continua a alimentar-lhe a ambição.

“Como sonhar é de graça, o que gostaria era de fechar no top-10 e ganhar uma etapa.”

Mesmo que a camisola rosa possa escapar, o figueirense sente que já cumpriu grande parte da missão com que regressou ao Giro depois da desilusão de 2024, quando abandonou a prova a apenas dois dias do fim.

“Agora penso que só falta mesmo terminar. Tínhamos em mente optar pelo Tour ou pelo Giro e decidimos voltar aqui porque deixei as contas em aberto no ano passado. Fizemos muito bem em regressar.”

Afonso Eulálio
Foto: Giro d’Itália

A explosão que mudou o Giro

Eulálio assumiu a liderança da Volta a Itália após a quinta etapa, depois de integrar a fuga do dia e terminar na segunda posição. Desde então, tornou-se uma das figuras da corrida e já entrou para a história do ciclismo português.

É agora o segundo português com mais dias de liderança no Giro, ultrapassando Acácio da Silva, que vestiu a camisola rosa durante dois dias em 1989. À sua frente está apenas João Almeida, líder durante 15 dias em 2020.

O corredor português admite que o tipo de etapas mais duras acabam por favorecer as suas características.

“No dia da fuga, provavelmente havia ciclistas mais fortes do que eu nas subidas, mas o dia foi tão difícil que no final saí-me bem. Sofro, mas gosto muito destes dias molhados, de sobe e desce.”

Ainda sem grande experiência ao mais alto nível internacional, reconhece também dificuldades em gerir o esforço ao longo de três semanas.

“Não tenho a experiência dos outros corredores para saber dosear.”

Entre os momentos mais difíceis desta edição, destacou a subida ao Blockhaus, na sétima etapa.

“Não foi apenas pela subida, mas pelo vento. Foi muito duro.”

Afonso Eulálio
Foto: MirrorMedia.art

O fenómeno Eulálio já chegou a Portugal

A inesperada liderança do Giro transformou Afonso Eulálio numa das figuras do momento em Portugal. O impacto foi tão grande que até o Presidente da República, António José Seguro, tentou entrar em contacto com o ciclista.

“O Presidente tentou ligar-me e deixou-me uma mensagem. Nestes dias tenho tantas chamadas e mensagens que não consegui atender”, contou, entre risos.

Também Rui Costa, campeão do mundo em 2013 e uma das referências da modalidade em Portugal, fez questão de lhe telefonar.

Eulálio revelou ainda algumas curiosidades sobre a sua vida fora da bicicleta: é adepto do Benfica, aprecia risotto e barbecue, gosta de reggaeton e valoriza sobretudo o pouco tempo que consegue passar em casa.

“Em dois meses, tenho três ou quatro dias em casa. Quando regressamos, para nós é como estar de férias. Neste momento, o meu hobby favorito é mesmo estar em casa.”

O português vive actualmente em Cacia, no distrito de Aveiro, localidade que se encheu de fitas cor-de-rosa para apoiar o líder da Volta a Itália.

Na terça-feira, Afonso Eulálio partirá para a estrada às 15h31, apenas três minutos depois de Jonas Vingegaard iniciar o seu esforço individual.

O fato de sair para a estrada depois dos principais rivais poderá ajudar na gestão da etapa, permitindo-lhe conhecer os tempos intermédios dos adversários.

Muito antes, António Morgado arrancará às 12h41, enquanto Nelson Oliveira iniciará o contrarrelógio às 13h59.

Parceiros

Deixe um comentário