AFONSO EULÁLIO PERDEU A ROSA, NÃO A AMBIÇÃO
Foto: Team Bahrain Victorious
Durante nove dias, Portugal sonhou vestido de rosa.
Durante nove dias, Afonso Eulálio carregou às costas uma das histórias mais improváveis deste Giro d’Italia. Uma aventura inesperada, emocionante e quase inacreditável para um corredor que, há pouco mais de um ano, pedalava longe da verdadeira elite mundial.
Mas nos Alpes, onde o ciclismo costuma revelar a verdade absoluta das pernas e da resistência, surgiu a inevitabilidade chamada Jonas Vingegaard.
E, sem surpresa, cumpriu-se aquilo que praticamente todos antecipavam.
Na duríssima 14ª etapa, entre Aosta e Pila, o dinamarquês atacou rumo à camisola rosa e deixou claro, mais uma vez, que continua a ser um dos maiores dominadores da montanha no ciclismo moderno.
Fonte: Helena Santos
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AFONSO EULÁLIO ENTRA NA MONTANHA LÍDER
A etapa que mudou completamente o Giro
Foram 133 quilómetros brutais, desenhados no coração dos Alpes italianos, numa etapa que tinha tudo para provocar diferenças importantes na classificação geral.
Montanhas cobertas de neve, calor de Maio nos vales e uma sucessão interminável de subidas transformaram esta etapa-rainha numa autêntica prova de sobrevivência.
O final em Pila, uma ascensão longa e impiedosa de 16,6 quilómetros com inclinação média de 7%, era o palco perfeito para o inevitável ataque de Vingegaard.
E a Visma preparou tudo ao detalhe, controlando a corrida praticamente desde os primeiros quilómetros.
O comboio da Visma esmagou a concorrência
A equipa neerlandesa assumiu completamente as despesas da corrida e começou lentamente a destruir resistências.
Victor Campenaerts endureceu o ritmo. Depois surgiu Sepp Kuss, aumentando ainda mais a velocidade e eliminando vários candidatos da frente da corrida. Finalmente, Davide Piganzoli lançou a última aceleração antes do golpe decisivo do líder dinamarquês.
O plano era simples.
Isolar Jonas Vingegaard no momento perfeito e deixá-lo fazer aquilo que melhor sabe.
Atacar montanha acima até destruir toda a concorrência.
E, na verdade, resultou quase na perfeição.
O momento em que Eulálio ficou sozinho
A 8,5 quilómetros da meta, Afonso Eulálio começou finalmente a ceder perante o ritmo sufocante imposto pela Visma.
O português ainda tentou reagir. Ainda procurou manter contacto com o grupo dos favoritos. Ainda respondeu por instinto e por coragem.
Mas o andamento era simplesmente desumano.
Pouco depois, ficou sozinho na montanha.
Sem colegas. Sem abrigo. Apenas ele, o sofrimento e as intermináveis rampas de Pila debaixo de um calor pesado.
Foi então que apareceu Damiano Caruso.
O experiente italiano revelou, mais uma vez, toda a sua importância dentro da Bahrain, acompanhando Eulálio durante parte da subida e ajudando-o a limitar perdas numa das fases mais difíceis deste Giro.
Mesmo em grande dificuldade, o português nunca entrou verdadeiramente em colapso.
E isso, olhando para a classificação geral, pode revelar-se absolutamente decisivo nos próximos dias.
O ataque decisivo de Vingegaard
Enquanto Afonso Eulálio lutava para sobreviver na montanha, Jonas Vingegaard preparava calmamente o golpe final.
A 4,6 quilómetros do topo, o dinamarquês levantou-se da bicicleta e acelerou de forma seca e controlada.
Felix Gall ainda tentou responder, mas rapidamente ficou claro que ninguém tinha capacidade real para acompanhar o líder da Visma.
O ataque nem sequer foi explosivo.
Foi talvez pior do que isso.
Foi um aumento de ritmo constante, frio, clínico e absolutamente esmagador, daqueles que lentamente destroem qualquer resistência física e psicológica.
Vingegaard seguiu isolado até à meta, venceu a etapa com autoridade e assumiu naturalmente a liderança da classificação geral.
Eulálio perdeu a rosa… mas ganhou estatuto
Na meta, Afonso Eulálio perdeu 2m48s para Vingegaard.
O português desceu ao segundo lugar da classificação geral, ficando agora a 2m26s do dinamarquês.
Mas, apesar da perda da camisola rosa, a realidade continua a ser extraordinária.
Eulálio mantém-se à frente de vários nomes consagrados do pelotão internacional, continua líder da classificação da juventude e preserva uma margem importante sobre rivais diretos.
Tem 24 segundos de vantagem sobre Felix Gall.
E mantém 37 segundos sobre Arensman.
Mais importante ainda do que os números é a sensação que deixou na estrada.
Afonso Eulálio continua firmemente colocado na luta pelo pódio do Giro d’Italia.
De surpresa a verdadeiro candidato
No início desta corrida, poucos conheciam verdadeiramente Afonso Eulálio fora do círculo mais atento do ciclismo.
Hoje, o cenário mudou por completo.
O corredor português deixou de ser apenas a grande surpresa da competição.
Passou a ser encarado como um candidato real aos lugares cimeiros de uma grande volta.
A capacidade demonstrada na montanha, a consistência física, a maturidade competitiva e a forma como resistiu nos dias mais difíceis impressionaram praticamente todo o pelotão.
Mesmo perante o melhor escalador da corrida, Eulálio conseguiu sobreviver.
Não venceu.
Não conseguiu manter a camisola rosa.
Mas também não desapareceu da luta.
E isso diz muito sobre aquilo em que se pode transformar no futuro.
Vingegaard é o novo patrão do Giro
A etapa-rainha confirmou aquilo que muitos suspeitavam desde o primeiro dia desta Volta a Itália.
Jonas Vingegaard é agora o grande favorito à conquista do Giro.
A superioridade da Visma foi esmagadora e o dinamarquês parece ter entrado numa dimensão inacessível para os restantes candidatos à vitória final.
Se não surgir nenhum problema inesperado, nenhuma quebra física ou qualquer incidente de corrida, o caminho para Roma parece agora claramente inclinado na direção do campeão dinamarquês.
Portugal pode ter encontrado um novo homem das grandes voltas
Perder a camisola rosa custa sempre.
Sobretudo depois de nove dias históricos para o ciclismo português.
Mas a verdade é que o Giro de Afonso Eulálio já ultrapassou há muito qualquer expectativa inicial.
Portugal perdeu a liderança da corrida.
Mas pode muito bem ter encontrado algo ainda mais importante para o futuro.
Um verdadeiro homem das grandes voltas.
Um corredor capaz de lutar nas montanhas mais duras do mundo contra os melhores ciclistas da atualidade.
E, acima de tudo, um nome em quem o ciclismo português pode voltar a acreditar durante muitos anos.







