Trail Longo de Almeirim – uma aventura sozinha!
Ana Ribeiro Alves - Foto: Paulo Sérgio Alves
Estava inscrita para o Trail de Almeirim desde Janeiro. Foi-me “vendida” como uma prova fácil, 30 kms rolantes, apenas com muita terra mole.
Chamariz da sopa da pedra e da caralhota
Seria uma manha bem passada ainda por cima havia o chamariz da sopa da pedra e da caralhota, hummmm!!! Pensei é em Almeirim. Almeirim é plano, o que pode correr mal? ! Ok vamos lá a mais um desafio.

Choveu torrencialmente toda a madrugada de Sábado, estou a aprender a controlar os meus medos e ate já não sonho com as provas antes de elas acontecerem… mas convenhamos que três tempestades seguidas assustam qualquer amadora.
Pouco antes do almoço quebro e digo ao Paulo que não vou. Assusta-me a chuva, o frio, o ir sozinha e ainda por cima a organização aumentou 5 kms a prova, seriam agora 35km.
O Paulo ficou triste, chamou me cobarde mas passado alguns minutos disse-me: – Tens razão, nao estão condiçoes para ires correr, ficamos em casa e vamos almoçar fora onde se possa ver a chuva a cair.

Mas aquela palavra mexeu comigo, sei que não foi com a intenção que parece, eu tenho que enfrentar os meus medos, receios e angustias. Passou algum tempo e pela hora do jantar assumi que iria fazer a prova. Arrumei o saco, não pensei muito no assunto.
As cinco da manha tocou o despertador: – Nervosa? perguntou o Paulo. – naaaa estou bem, um kilometro de cada vez e logo se verá!
Trail de Almeirim
No caminho apanhamos uns chuviscos e ao fundo viam-se uns rasgos de azul no céu que deixavam antever um dia maravilhoso. Chegámos, levantámos o dorsal da corrida e aguardamos pelo autocarro que nos transportaria para Marianos onde seria a partida dos 35km ate Fazendas de Almeirim.

Dos 140 inscritos encontravam-se uns 100, os faltosos devem ter pensado 2 vezes ou se calhar apenas uma, os terrenos com 15 dias de chuva estavam pesadíssimos e muito enlameados e a prova iria ser dura, muito dura.
Estava fresco mas nada que não se suportasse. Telefonei a Rita e despedi-me do Paulo, dai a pouco estaríamos juntos no próximo abastecimento.
Começou a corrida, vou sozinha pela primeira vez e não passou muito tempo para perceber o significado de “parte pernas”!! subidas e descidas, subidas e descidas pequenas, umas atras das outras que partem o ritmo, cansam os gemeos e quase não permitem correr 5 metros sem outra subida ou descida aparecer.

Lama, muita lama, terrenos cheios de agua e dou por mim de lagrimas nos olhos e a falar para comigo: mas o que é que estas aqui a fazer? Já não tínhamos combinado que não te metias mais nisto, mas tu és louca? Tu não ves que isto não é para ti?
Falo com Deus, com as minhas estrelas e peço forças para as minhas pernas fracas… um abastecimento de cada vez, é so o que peço!
Duas horas para fazer onze quilómetros tal a dificuldade e atrás de mim ainda vêm muitos atletas, vejo o Paulo, lá estava ele á minha espera, com um sorriso enorme.

Proximo troço ia ter barreira horária
Não perdi muito tempo e retomei de imediato, ali ficariam alguns atletas, uns com caimbras, outros nao queriam mais. O Paulo tinha me dito que tinha que ter feito este troço em 1h30, por isso já ia muito atrasada. O proximo troço ia ter barreira horária e ficámos ambos preocupados.
Não há gel, barra energética, bebida isotónica que se compare á força que dá ver um rosto conhecido, ouvir uma palavra de conforto e um força, até já… Ver o Paulo nos abastecimentos foi o meu dopping!
Os proximos 12 kms foram mais corriveis mas com mais lama, um peso extra nos pés. As pernas ainda não recuperaram de tanto sobe e desce.
Vou controlando o tempo e os kms, mas a falta de experiencia com os gadgets de corrida trocaram-me as voltas e devo ter mexido sem querer nalgum botao e o relogio deixou de contar os kms.

Encontrei três atletas e confirmei com eles quanto faltava ate ao próximo abastecimento e relembrei-os da barreira horaria, faltavam pouco mais de 2km e ainda tínhamos uma boa vantagem, tinha conseguido recuperar um bom pedaço de tempo.
Um deles vinha já lesionado e com algumas dores, seguimos juntos puxando uns pelos outros até que ouço o grito de guerra do Paulo, lá estava ele no cimo de uma subida de maquina em punho a puxar por nós, rápido já descansam ali a frente, faltam uns 700m.
Ohh palavras magicas
Ohh palavras magicas. Entretanto o Paulo mexe no relogio e afinal lá estavam os kms noutra secção, parece que não mas ajuda muito. vermos o que estamos a fazer.
Comi uma canja, atestamos os camelback e fazemos nos ao caminho faltam 15 km para a tão desejada medalha, para ver o nosso esforço recompensado.

Aqui tambem ficariam alguns atletas desistentes. Segui mais alguns minutos com eles mas aos poucos fui me adiantando e juntei me por alguns minutos a mais dois atletas, acompanhado é mais facil: vamos lá agora ninguém desiste!
Por volta do km 26 começo com dores na perna esquerda e tento não forçar, faço as contas ao tempo e aos kms em falta e se andar muito depressa consigo chegar no limite. Dou por mim por vezes a correr, esquecendo me da dor.

Estou sozinha…
Começamos agora a subir para a parte que tinha mais altimetria, mais uma serie de voltas, subidas e descidas e ao km 28 tenho uma quebra, deixo de ver era como uma onda de calor que não me permitia ver as fitas e sem as fitas não consigo continuar, estou sozinha… se desmaiar ao menos tenho como conforto que vem gente atras de mim.

Tiro uma barra do bolso e obrigo me a comer… aos pouco começo a ver uma e outra fita de novo e começo a avançar um pouco mais rápido. Faltam sete km, anda miúda esta quase ganho. Ao fundo ouço alguém dizer “Embora” e avanço, era o Carlos acabou por ser a minha companhia, temos tempo dizia ele, faltam 5km temos tempo ao que eu respondi quanto mais depressa melhor, melhor o nosso tempo.

Chegámos ao alto, Antena onde estava o Frade da Sopa da Pedra com quem eu barafustei por nos ter obrigado a subir uma ultima vez antes da reta para a meta, vamos agora os dois a conversar e a alternar corrida com passada rapida até à meta.
Estava feito o Trail Longo de Almeirim, o sorriso e a sensação de mais uma vitoria e as mãos milagrosas dos Amigos da Massagem fizeram esquecer os quebra pernas e recordar os 35 kms como a primeira vez que apesar de ir em corrida parei para apreciar a paisagem.
Visualize mais fotos efectuadas por Bernadete Morita Photography.
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Texto: Ana Ribeiro Alves
Fotos: Paulo Sérgio Alves / Bernardete Morita Photography