ADRIANA TURNES “O SKIMBOARD FEMININO MERECE RECONHECIMENTO”
Foto: Ricardo Barradas
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Com apenas 21 anos, Adriana Turnes afirma-se como uma das principais referências do skimboard feminino em Portugal.
Estudante de Direito na Universidade de Lisboa e Campeã Nacional de Skimboard em 2024, enfrenta atualmente um dos maiores desafios da sua carreira: garantir os meios necessários para competir ao mais alto nível internacional.
Sem apoios institucionais suficientes, Adriana lançou um GoFundMe com o objetivo de viabilizar a sua participação no Circuito Mundial de Skimboard, um passo decisivo tanto para o seu percurso individual como para a afirmação da modalidade em Portugal.
Entre o rigor académico, a paixão pelo mar e a ambição de deixar uma marca no ranking mundial, esta entrevista dá a conhecer o percurso, os desafios e os sonhos de uma atleta que luta diariamente pelo reconhecimento do skimboard feminino.
Fonte: Helena Santos // OPraticante.pt
Quem é Adriana Turnes fora da competição
1. Para começarmos, quem é a Adriana Turnes enquanto pessoa, fora da competição e dos títulos?
Olá, tenho 21 anos e sou estudante universitária, estando no 4°ano da licenciatura de Direito, na Universidade de Lisboa.
Desde sempre que amei Desporto, tendo praticado natação durante 10 anos, atletismo, xadrez, ginástica acrobática, ténis, entre outros…
Atualmente, gosto de fazer surfskate, escalada, coasteering, volleyball (no qual fui federada até ao ano passado) e atividades que promovam uma sensação de adrenalina, como conduzir em todo-o-terreno ou saltar de 10m para a água.
Trabalho durante a época de verão como guia de coasteering e kayaks em Sesimbra, faço voluntariado sempre que me é possível e participo nas mesas de voto para as eleições.
Adoro os meus cães, conviver com os meus amigos, ir ao cinema, provar cozinhas novas, viajar e experimentar novas atividades fisicas.
Sou competitiva, resiliente e gosto de demonstrar o meu valor, estando sempre pronta para novas experiências.
O primeiro contacto com o skimboard
2. Como surgiu o skimboard na tua vida e em que momento percebeste que podia ser mais do que apenas um hobby?
Comecei a praticar com 12 anos durante o verão, após ter visto um rapaz a deslizar na areia com uma prancha de madeira.
O meu padrasto comprou-me logo uma prancha do mesmo material numa loja na vila de Sesimbra e, a partir daí, fiquei viciada em deslizar na areia durante as férias de verão.
Contudo, foi apenas há 5 anos que percebi que o skimboard era muito mais do que simplesmente deslizar na areia.
Foi a minha amiga, Kika Freire, também praticante de skimboard e campeã nacional (entre outros títulos), que me introduziu ao verdadeiro lado do skimboard e me ensinou a apanhar ondas.
Dois anos depois, no final do ano de 2022, perguntou-me se eu queria participar no Campeonato Nacional e eu, sem ter qualquer conhecimento sobre o mundo dos campeonatos ou qualquer ideia sobre o meu nível desportivo, decidi participar, acabando por ficar em 2° lugar.
Acabou por ser das melhores experiências da minha vida e, a partir daí nunca mais quis largar o mundo das competições.
Foi este momento que me fez perceber que o skimboard é muito mais do que um hobby.
É uma oportunidade de poder evoluir e crescer a nível pessoal, que me traz muita alegria e senso de competitividade.
O equilíbrio entre estudos e carreira desportiva
3. Conciliar uma carreira desportiva de alto rendimento com o curso de Direito não deve ser fácil. Como é que geres esse equilíbrio no dia a dia?
O curso de Direito ocupa maior parte do meu tempo, não me permitindo treinar sempre que quero ou preciso.
Para além do tempo de aulas, é necessário estudar muito para conseguirmos acompanhar a matéria e preparar as aulas do dia seguinte, não ajudando o facto de não haver nenhum estatuto especial de atletas para o nosso “nível”, devido às normas da Federação Portuguesa do Surf.
Infelizmente, em Portugal o skimboard ainda não é reconhecido como um desporto de alto rendimento e muito ainda tem que se fazer para se conseguir que assim seja.
Estes eventos desportivos e todas as divulgações possíveis constituem, portanto, ferramentas de promoção deste desporto em ascensão, em especial para o skimboard feminino.
O significado do título de Campeã Nacional
4. O que sentiste ao tornares-te Campeã Nacional em 2024 e que impacto teve esse título no teu percurso?
Foi apenas a partir do momento em que ganhei a etapa do circuito nacional que realmente comecei a ponderar a possibilidade de o skimboard ser algo mais “sério”, mudou a minha mentalidade em relação aos campeonatos e às minhas ambições quanto a estes.
Ser campeã nacional foi muito especial, principalmente por ter sido a etapa de sesimbra que me fez obter o título nacional.
Ganhar em casa fez-me sentir muito orgulho de mim mesma, tanto por poder representar Sesimbra e mostrar o meu valor como finalmente ganhar reconhecimento dentro do círculo do skimboard.
Ter ganho o título de campeã nacional foi realmente muito importante, porque me permitiu demonstrar o meu valor num desporto que me é tão querido e que surgiu de forma tão espontânea na minha vida (sem intenções ou sequer conhecimento de que iria moldar o resto da minha carreira desportiva).
Não é toda a gente que pode dizer que é campeão nacional e, por isso, sinto um orgulho imenso na minha evolução e desempenho!
O reconhecimento nacional e internacional permitiu-me obter patrocinios, não só na área do skimboard como no surfskate (modalidade com técnicas identicas, ajudando-me a melhorar a postura e movimentos dentro de água).
A experiência no circuito europeu
5. Em 2025 alcançaste o 4.º lugar no circuito europeu. Que aprendizagens retiraste dessa experiência internacional?
Competir internacionalmente é uma experiencia incrível.
É um evento muito mais dinâmico e intenso, com mais animação e competição, visto que aqui já não estamos apenas a concorrer com atletas portugueses, mas sim contra os melhores atletas da Europa.
Ao contrário do surf, não existe aquela rivalidade intensa e pouco saudável entre atletas, no skimboard existe sim competitividade séria, mas amigável com um senso de interajuda e boa onda.
É uma excelente maneira de conhecer novas pessoas e culturas, criar amizades e evoluir, tanto como atleta como pessoa.
Portugal no mapa do skimboard mundial
6. Este ano de 2026 Portugal vai receber, de forma excecional, uma etapa do Circuito Mundial de Skimboard em Santa Cruz. O que representa este momento para ti e para o skimboard português?
A minha primeira reação a esta notícia foi simplesmente ir ter com o meu primo Tomás (o meu parceiro no skimboard desde sempre) e desatar aos gritos de entusiasmo.
Desde que comecei a competir e entrei no mundo do skimboard, nunca houve, cá em portugal, nenhuma etapa do circuito mundial.
Aliás, só no ano passado é que incluiram de novo as três etapas do circuito nacional (antes, tudo se reduzia à única etapa de Novembro, em são Pedro do Estoril) e não existiam mais campeonatos.
Não existem muitas mais oportunidades de participar em torneios, nacionalmente, restando-nos a etapa do circuito europeu, em Santa Cruz.
É um desporto espetacular, mas que carece de reconhecimento.
Não tem apoios e, portanto, a importância da realização do circuito mundial é enorme!
É uma oportunidade incrível para o skimboard receber mais reconhecimento e divulgação.
Não é discutível a importância de uma etapa do circuito mundial em Portugal, tanto a nível nacional como europeu.
Normalmente, o circuito mundial reduz-se a etapas no continente americano.
O facto de este ano o circuito incluir a Europa já é um passo enorme para a expansão da modalidade.
Quando soube da notícia senti-me super entusiasmada e cheia de vontade de participar neste evento.
Quero mostrar o meu valor e deixar uma marca portuguesa no ranking mundial.
Uma oportunidade rara para a Europa e para Portugal
7. Porque consideras esta etapa mundial em Portugal uma oportunidade única e difícil de repetir?
Penso que a ideia de uma etapa mundial decorrer na Europa já tinha sido abandonada por maior parte dos europeus, por não existirem apoios que permitissem a sua realização.
Foi preciso mesmo muita insistência para que este ano houvesse uma etapa.
Não existe interesse nem preocupação com a nossa participação no mundial e, portanto, quem gere a realização deste evento não costuma ponderar a Europa como um local para hospedar parte do circuito, singindo-se apenas ao continente americano, no qual é muito mais fácil cobrir todos os custos de participação para os seus atletas.
Infelizmente, isso torna a nossa participação lá fora dificílima, porque os custos são muito elevados e não existem apoios que nos ajudem a competir.
Vamos ser sinceros, como é que o circuito mundial apenas se realiza no continente americano? E o resto do mundo?
Finalmente, estamos incluídos no circuito e, por isso, é uma oportunidade única de participar-mos nele.
Sonhos além-fronteiras e o Circuito Mundial
8. Para além da etapa em Portugal, tens o objetivo de competir noutra etapa do circuito mundial, nomeadamente no México. Porque é tão importante competir fora da Europa?
O circuito mundial é outro nivel! Muito mais profissional, com mais apoios monetários, que permitem uma melhor competição e apoio de um staff direcionado para o skimboard.
A competição mundial ajuda a desenvolver habilidades desportivas, a superar limites e a criar competências e atitudes que aumentam as capacidades para inovar e evoluir, de modo a alcançar objectivos desportivos e pessoais.
O Circuito Mundial dá mais visibilidade, reconhecimento e destaque, impulsionando os atletas e o desporto e insentivando os jovens a iniciarem-se nesta modalidade.
O nível de competição aumenta, permitindo-nos mostrar realmente as nossas habilidades.
Porquê restringir-mo-nos à Europa se podemos ter o Mundo?
9. Quais são atualmente os maiores desafios para uma atleta portuguesa de skimboard que quer competir ao mais alto nível internacional?
O maior desafio é realmente conseguir competir.
Participar no circuito tem um custo muito elevado e sem apoios é muito difícil. Já para não falar que ter acesso a várias pranchas e restantes materias é dispendioso, ainda para mais num país que não apoia o desporto nem quem o pratica.
Como referimos anteriormente, por não ser considerado um desporto de alto rendimento, para estudantes como eu, é impossível não faltar às aulas e exames sem ser prejudicado (a Federação Portuguesa de Surf não nos considera para termos o estatuto de atleta-estudante).
Para além disto, o facto de o Circuito Mundial apenas se cingir ao continente americano torna o acesso muito complicado.
Se as etapas fossem distribuidas de uma melhor forma, incluindo a Europa e restantes continentes (o que seria, na minha opinião, um verdadeiro circuito mundial), todos teriam hipoteses mais equitativas.
A importância dos apoios e do reconhecimento institucional
10. De que forma o apoio financeiro e institucional pode fazer a diferença no teu percurso desportivo?
Tudo o que precisamos para que o skimboard evolua são apoios. É necessário que o skimboard seja reconhecido como uma modalidade real, de valor e em expansão pelas várias instituições competentes.
É indispensável ter apoios financeiros, divulgar a modalidade, impulsionar a aderência dos jovens para captar a atenção do público. Isto, porque nos permite ter acesso a treinos de qualidade, equipamentos e materiais, cuidados médicos, participar em competições e evoluir como atletas.
Além disso é essencial que se aceite que um atleta federado possa ser considerado atleta-estudante para facilitar o equilíbrio entre treino e aprendizagem.
11. O que gostarias que patrocinadores e apoiantes vissem em ti enquanto atleta e representante de Portugal?
Felizmente, já tenho algum reconhecimento como atleta, mas gosto sempre de mostrar uma boa vibe aliada a uma boa performance.
Alguém que se esforça para atingir os seus objetivos, cumprir os seus compromissos e se dedica, acima de tudo, a se divertir e aproveitar o que o skimboard lhe proporciona.
Sou radical e adoro a energia e adrenalina advindas da modalidade.
O flow e as manobras cativam-me, tal como o mar e as ondas me trazem equilibrio e uma sensação única de felicidade.
Não há nada que mais goste de fazer do que ir para a praia e apanhar umas boas ondas em boa companhia.
Representar e fortalecer o skimboard feminino
12. Que valores procuras transmitir quando competes e representas o skimboard feminino português?
Essencialmente procuro demonstrar que o skimboard não é só um desporto para homens e que existem muitas raparigas a dar cartadas nesta modalidade.
Normalizar a participação feminina, inspirar a geração mais nova e reinvidicar o nosso espaço em competições é algo que me incentiva a continuar a ultrapassar os meus limites.
O skimboard para mim é um desporto com valores que representam camaradagem, apoio, convivio, celebração conjunta e amizade.
O mar muda a cada segundo, é rápido, imprevisivel e exigente, que nos obriga a adaptar a todas as circunstâncias.
Poder representar as meninas no skimboard é muito importante, pois mostra que também somos capazes de alcançar metas e objetivos relevantes se formos preserverantes.
13. Acreditas que o desporto feminino ainda enfrenta obstáculos específicos? Como tem sido a tua experiência nesse sentido?
É factual que o skimboard feminino está muito atrás do masculino.
Basta, para isso, verificar os prémios atribuídos nas competições, a facilidade de obter patrocínio, os heats masculinos são mais longos (proporcionando-lhes maior possibilidade de desempenho) e o horários dos heats masculinos têm sempre prevalência sobre os das mulheres em termos de condições atmosféricas.
Não obstante, eu não trocaria por nada este desporto, apenas é notório que lutemos por ele.
A mensagem para as novas gerações
14. Que mensagem deixarias a jovens atletas, especialmente raparigas, que sonham seguir uma carreira no desporto?
O desporto é para todos. Vamos mostrar de que somos feitas e que a nossa dedicação e empenho esbravará um caminho para todas nós em qualquer desporto que dediquemos.
Se estiveres indecisa em começar a praticar skimboard, não desistas, aposta nele! Garanto que vais viciar e experienciar aventuras tão incríveis e divertidas que não vais querer outra coisa.
Com dedicação e paixão pelo skimboard conseguimos alcançar as nossas metas e traçar novos objetivos para o skimboard português feminino.
O futuro, os sonhos e onde acompanhar o percurso
15. Olhando para o futuro, onde gostarias de estar daqui a alguns anos enquanto atleta e enquanto pessoa?
Gostaria, sem dúvida, de me poder considerar atleta profissional e me orgulhar do percurso que tracei.
Percorrer os circuitos mundiais, participar em eventos globais e promover o skimboard feminino são de certeza uns dos maiores marcos que quero alcançar no futuro.
Para isso, é necessário impulsionar a divulgação do desporto através de meios e incentivar as meninas a aderirem a este incrível desporto.
Ser campeã mundial é, neste momento, o grande sonho para o futuro!
16. Para quem quiser acompanhar o teu percurso e apoiar-te, onde pode fazê-lo?
Podem me acompanhar através da minha página no instagram: @adrianaturnes13 e apoiar a minha participação no Circuito Mundial de Skimboard ao divulgarem o meu perfil e contribuirem no GoFundMe, cujo link está na minha biografia do instagram.
Convido-vos a virem assistir e apoiarem-me nos campeonatos de skimboard e aprenderem sobre esta modalidade.










