FISGAS DE ERMELO – DOR, CALOR E SUPERAÇÃO NO ALVÃO

FIsgas de Ermelo

Foto: Bruno Batista

Entre a pedra, o desnível e o silêncio da montanha, o Alvão voltou a testar limites e a escrever histórias de superação. Num cenário onde a natureza impõe respeito e o esforço ganha outra dimensão, o Trail Fisgas de Ermelo regressou em 2026 como um dos grandes palcos do trail nacional.

Aqui, cada passo é mais do que avanço. É confronto direto com a montanha. E, muitas vezes, também consigo próprio.

Fonte: Helena Santos e Sérgio Sousa

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FISGAS DE ERMELO VIVE A MONTANHA DAS EMOÇÕES

FIsgas de Ermelo
Foto: Helder Magalhães

9º Trail Fisgas de Ermelo

Nos dias 18 e 19 de abril de 2026, o Parque Natural do Alvão voltou a ser palco de um dos eventos mais marcantes do trail nacional com a realização do Trail Fisgas de Ermelo.

O evento foi promovido e organizado pela AMA – Associação Mondim Atletismo, com o apoio da Câmara Municipal de Mondim de Basto, reforçando uma parceria sólida que continua a valorizar o desporto e o território.

OPraticante.pt voltou a assumir o papel de parceiro media, acompanhando de perto toda a prova e, sobretudo, dando voz às emoções vividas nos trilhos do Alvão.

Desde logo, entre Ermelo e Mondim de Basto, a montanha voltou a ser protagonista absoluta, impondo-se como cenário e também como desafio permanente.

Assim, o Trail Fisgas de Ermelo reafirmou-se como uma prova de identidade forte, dura, técnica e profundamente ligada à serra, onde cada atleta é colocado frente a frente com o esforço, o desnível e consigo próprio.

Neste contexto, as distâncias disponíveis, Trail Longo de 30 km, Trail Curto de 20 km, Fisgas Uphill, Trail Kids e uma caminhada de cerca de 10 km, voltaram a permitir diferentes formas de viver a montanha, desde a competição mais exigente até à descoberta mais tranquila do território.

Ao longo de toda a prova, destacou-se ainda a fantástica organização, que voltou a demonstrar um nível muito elevado, garantindo segurança, controlo e fluidez em todos os percursos.

De igual forma, os abastecimentos distribuídos ao longo do trajeto foram um dos pontos fortes do evento, marcados pela qualidade, regularidade e cuidado constante com os atletas em pleno ambiente de montanha.

FIsgas de Ermelo
Foto: Sérgio Rodrigues

O Alvão em estado puro

Entrando no coração do percurso, as Fisgas de Ermelo, uma das maiores cascatas da Europa, voltaram a ser o ex-líbris da prova.

Aqui, a paisagem domina tudo e o esforço humano parece sempre pequeno perante a dimensão da natureza.

Por sua vez, nos trilhos do Parque Natural do Alvão, os atletas enfrentaram percursos exigentes, com subidas longas, zonas técnicas e descidas traiçoeiras, vivendo constantemente entre o controlo, a resistência e a superação.

Mais tarde, já em zona alta, na Senhora da Graça, a 947 metros de altitude, voltou a viver-se um dos momentos mais duros e simbólicos da prova.

Uma subida longa e implacável, onde cada metro exige entrega total e onde a montanha simplesmente não oferece concessões.

FIsgas de Ermelo
Foto: Fernando Ramos

Fisgas Uphill – a verticalidade sem filtro

E foi precisamente nesse espírito de exigência que se viveu o Fisgas Uphill.

No dia 18 de abril, atletas destemidos enfrentaram os 7 km / 800D+ de um percurso duro, técnico e totalmente vertical, desde Mondim de Basto até ao mítico Alto da Senhora da Graça.

Ao longo da subida, não houve espaço para gestão confortável. Apenas esforço contínuo, decisão em cada passo e uma luta permanente contra o declive.

Gabriel Vilela e Nataliya Popova foram os mais rápidos a chegar ao topo da Monte Farinha.

FIsgas de Ermelo
Foto: Helder Magalhães

Resultados com alma de montanha

No Trail Curto, a competição foi intensa desde cedo.

Em masculinos, Paulo Costa (A.D. Amarante) venceu em 2:07:26, seguido de Miguel Silva (Saca Trilhos Anadia) e Fábio Carvalho (Linces do Marão).

Em femininos, vitória para Lara Fernandes (Linces do Marão), com Célia Neto em segundo e Helena Martins (Quebraritmo) a fechar o pódio.

FIsgas de Ermelo
Foto: Organização

No Trail Longo, a dureza do percurso voltou a marcar diferenças ao longo dos quilómetros.

Em masculinos, venceu Hugo Vieira (EDV Vianna Trail) em 3:17:57, seguido de António Pereira (Linces do Marão) e Nuno Fernandes (Clube Atletismo de Fafe).

Em femininos, destacou-se Sara Vaz (Damira Trail Team), vencedora em 4:10:06, seguida de Sofia Padilha (Penacova Team) e Sílvia Santos (Clube de Atletismo de Ferreira do Zêzere).

FIsgas de Ermelo
Foto: Helder Magalhães

OPraticante.pt em prova

OPraticante.pt voltou também a marcar presença em competição, com vários atletas a representar o projeto.

No Trail Longo, Paula Santos teve uma prestação de enorme nível, terminando em 4:33:35 e alcançando um excelente 4º lugar da geral feminina e o 1º lugar no seu escalão.

Ainda neste percurso, Sérgio Sousa concluiu em 5:45:16, num verdadeiro teste de resistência e superação constante.

No Trail Curto, Vítor Santos terminou em 5:09:55.

Na caminhada, Helena Santos viveu o percurso de forma mais contemplativa.

Já no Trail Longo, Ricardo Moutinho reforçou a presença da equipa num dos palcos mais exigentes do calendário nacional.

FIsgas de Ermelo
Foto: Fernando Ramos

Voz da montanha – o testemunho de Sérgio Sousa

Entre todos os momentos vividos no Trail Fisgas de Ermelo, há histórias que ficam gravadas não só no corpo, mas também na memória.

O atleta do OPraticante.pt, Sérgio Sousa, deixou o seu testemunho sobre uma experiência dura, intensa e profundamente marcante:

“O Trail Fisgas de Ermelo foi, sem dúvida, uma experiência à parte. Logo na arrancada diferente em relação a 2024, sentia-se que este ano ia ser especial — um misto de respeito e adrenalina no ar.

A primeira subida em direção às cascatas começou a selecionar o grupo, com aquele cenário brutal a compensar cada gota de esforço. Mas o verdadeiro teste veio a seguir: a temida subida ao Coice da Burra, onde parecia que toda a gente ia ficando pelo caminho — pernas a arder, coração no limite e cabeça a tentar não quebrar.

Como se não bastasse, ainda havia a subida à Senhora da Graça pelo Monte Farinha, longa, dura e sem piedade. Tudo isto com calor extremo, que tornou cada quilómetro ainda mais pesado e levou a demasiadas desistências.

Houve um momento em que estive mesmo para desistir. O corpo já não respondia e a cabeça começava a ceder. Mas é nestes momentos que se percebe o verdadeiro significado da superação.

Apesar de tudo, os trilhos são brutais, daqueles que ficam na memória — técnicos, exigentes e incrivelmente bonitos.

Se há 2 anos os 30 km com 1350+ já tinham sido duros, estes 35 km com 1890+ foram simplesmente extremos.

No fim, fica o respeito enorme por todos. Parabéns a todos os atletas pela superação.

Muitos parabéns à organização e a todo o staff. No final, um autêntico banquete aguardava pelos atletas.”

FIsgas de Ermelo
Foto: Fotovilas

Mondim de Basto, onde tudo ganha sentido

Por fim, a chegada voltou a ser um dos momentos mais intensos do fim de semana.

A praça de Mondim de Basto encheu-se de aplausos, emoção e rostos marcados pelo esforço.

Mais do que tempos ou classificações, ficaram histórias.

Histórias de luta, de superação e de resistência silenciosa.

FIsgas de Ermelo
Foto: Fernando Ramos

Mais do que uma prova

Em suma, o Trail Fisgas de Ermelo continua a afirmar-se como muito mais do que uma competição.

É um encontro anual com a montanha, com o esforço e com a identidade de um território que só se revela verdadeiramente a quem o percorre a pé, em esforço e em silêncio.

No fundo, não é apenas correr.

É atravessar o Alvão e sair dele diferente.

FIsgas de Ermelo
Foto: Sérgio Rodrigues

Como escreveu Miguel Torga sobre este lugar:

“A contemplação dos abismos naturais é necessária de vez em quando a quem tem a atracção dos outros.” – Miguel Torga, Diário VIII

E talvez seja isso que define esta prova.

Não é vencer a montanha.

É deixar que ela nos marque.

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