Trail Medieval faz os atletas regressar no tempo
Foto: Objectiva em Movimento
Com o apoio da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, a Associação Ntrilhos, organizou o Ultra Trail Medieval, composto pelo Trilho das Tormentas (44Km), Trilho da Conquista (29Km), Trilho do Guerreiro (15Km) e o Trilho dos Caminhantes (8km), que mais de mil participantes concluíram.

As provas de maior distância partiram Praia Fluvial da Mamoa – Milheirós Poiares. A prova de 15km e a caminhada teve a partida e chegada na “ Zona Medieval ”, zona de conclusão também das restantes provas.

Ultra Trail Medieval
A primeira prova do ano, já agendada há algum tempo, mas por ser perto de casa e por ter vindo a melhorar a diversão que disponibiliza para os atletas e caminhantes, teria de ser quase obrigatória e a distância mais longa.

Como é habitual, madrugar no dia da prova e após o pequeno-almoço sigo rumo a mais um desafio, lá vai o lobo solitário onde se sente em casa… na montanha. Desta vez, as temperaturas negativas seria o desafio inicial. Paisagem matinal, branca, vidro da viatura congelada e tudo o que estes dias friorentos provocam.

O levantamento do dorsal tinha sido realizado no dia anterior, com um almoço entre amigos espanhóis que se deslocaram até esta prova. Um momento de convívio muito interessante, fazendo o ambiente destas provas melhorar, antes, durante e após cada desafio.
Organização de parabéns
Chegado a Santa Maria da Feira, o frio era intenso e dirijo-me para o autocarro, bem agasalhado, devido às temperaturas. A organização tem uma ideia excelente, nunca tinha encontrado numa prova, um saco de guarda-roupa, assim poderíamos ir mais quentes até há hora da partida, seria deixado o saco na partida e transportada para a meta, foi bastante útil.

Após o transporte de autocarro e a chegada há zona de partida, a animação já estava presente com os trajes medievais e a música típica… pequenas fogueiras por várias zonas… fazendo os atletas regressar no tempo. Música dentro do pavilhão em que estávamos abrigados, tornando assim um ambiente caloroso de convívio e de espera. Após o café e a respetiva nata, lá tínhamos de enfrentar o frio… a hora da partida estava próxima!!!

Contagem decrescente e siga a correr pelo manto branco matinal, uma voltinha ao lago, passagem na zona de partida e serra acima fomos seguindo. Eu estava bastante equipado com luvas, t-shirt térmicas, corta-vento… mas logo após 2 km, já bufava e fui retirando os excessos. Começava a sentir a temperatura corporal a subir e o frio exterior já não afetava tanto.

Tudo o que sobe também desce
Logo após o pico mais alto da primeira subida, porque tudo o que sobe também desce, lá iniciamos um single-track e modo acelerado devido há descida, cerca dos 3 km, encontro uma colega de trail sentada no chão, questiono se está tudo ok e não estava, tinha torcido o pé, com dores no tornozelo… começa por confessar-me que está mal disposta, como se fosse desmaiar…
Entretanto um outro atleta, também ajuda colocando um spray para aliviar a dor… bom… os meus conhecimentos de primeiros socorros são básicos ou nulos… mas sou incapaz de seguir em frente… dou dicas e ajudo dentro do possível. Só faltava levar a companheira ao colo… mas ela, foi tentando caminhar e saímos do single-track, chegando a uma estrada mais larga.
Pouco tempo depois, uma pessoa da organização já tinha subido a encosta, pois a informação de uma pessoa magoada já tinha fluido até lá abaixo. Pergunto se ela ficaria bem… estava entregue há organização e bem melhor aquando da minha primeira abordagem… desejo-lhe as melhoras e sigo o meu trilho…

Isto é trail
Podia pensar que teria perdido uns quantos minutos, mas sinceramente ganhei. Para mim, isto é trail, a união e a entreajuda é o mais importante nestas “loucuras”.
Vou passando em abastecimentos e a admirar, pois achava bastante completos e diversificados. Pequenos rios com água, lama… ora as sapatilhas ficam em água gelada… ora passam por zonas de lama até ao tornozelo… basicamente… trail… estes Km’s iniciais um sobe e desce constante…
Ao chegar ao km 18, mais ou menos, um túnel… com água corrente… limpa… e crioterapia habitual… boa para os músculos, nesta fase, até soube bem e a primeira conversa mental que tive… foi… porreiro para lavar as sapatilhas… assim que termina o túnel… pimba… lama com fartura, nem sabíamos se corríamos direito ou quando íamos escorrer naquele lamaçal… e continuando…

Perdido um pouco nos km’s, pois não sei precisar onde apareceu a pedreira, com as subidas bastante acentuadas e uma zona de 3 cordas para o pessoal “trepar”. Seguia monte acima e cada vez a sentir mais o empeno, quase a chegar a meio da prova… pois como penso de abastecimento a abastecimento… queria chegar ao km22, seria o abastecimento onde eu sabia que iria ter uma canjinha… ou desconfiava que lá estaria a minha amiga que a sabe fazer tão bem!!!

A bela canja
Km22, a bela canja, soube mesmo bem… quentinha… para aquecer a alma e acalmar o estomago… agradeço há cozinheira… um beijo e sigo viagem pelos trilhos… caminhando e trotando… pois queria que a sopa fosse digerida… os abastecimentos os achei desde início muito completos e as bebidas quentes, como exemplo o chá, também marcavam presença, porque mesmo sendo já meio-dia existiam zonas que parecia que estávamos a passar numa zona de congelação…sentíamos o frio no ar…
Km28, encontro um colega, sentado no meio da estrada… as câimbrias tinham “atacado” e ele nem se conseguia movimentar, mais uma vez parei para ajudar… fornecer um pouco de sal… ajudar a esticar a parte muscular… poucos minutos depois, ele já estava de pé e lá foi caminhando… e continuo a minha prova…… mais minutos na alma… é assim que quero estar nestes desafios pessoais… claro que tinha o meu tempo de conclusão na cabeça… que queria me superar… mas nestas alturas… isso já não importa!!!!

Passar na meta e ter mais 14 kms
Foquei-me a chegar há meta dos 30km, como se a minha prova terminasse lá, uma das alterações realizadas este ano referente aos percursos, fazia com que a meta da prova dos Trilhos da Conquista e a barreira horária do ultra fossem coincidentes… confesso que estava curioso para saber como a minha mente iria reagir ao facto de passar na meta e ter de somar mais 14 km…

Com cerca de 4h de prova, passo no posto de controlo… sorrio e penso para mim… até daqui a 14k… segui determinado, sabia que a parte mais dura da prova estava realizada e apesar de “pequenas” subidas… a maior dificuldade seria ter de correr, esta parte seria muito rolante e não é o tipo de prova que gosto… mas tinha-me desafiado para os 44 km e tinham de ser feitos… a distância entre abastecimentos passou a ser menor, neste últimos km’s, uma estratégia bem pensada por parte da organização.

A animação por toda a prova, com pessoas trajadas ao tema da prova, sempre animadas e a motivar, bombos… grupos de pessoas a incentivar quem lá passava… outros trajados de forma diferente brincando com os atletas…

Do mais rápido ao mais lento
Estava a ver que este ano não aparecias “Conchita”…ahahahah… em resumo, uma verdadeira festa medieval. Estes voluntários, sou grato e sempre compreendo o esforço que têm de fazer até passar o último atleta, acompanhado com o “Vassoura” da prova, após a sua passagem podem levantar ferros, mas dura horas a permanência nos locais, desde o mais rápido, até ao mais lento…

A cerca de 4km do fim, encontro o meu ritmo certo e com vontade de terminar, pouco tempo depois onde somos parabenizados pela conclusão, na “Quinta Padre Lobo”, por figuras medievais muito simpáticas, com palavras motivacionais… só falta 10% da prova… casualmente, uma companheira chega ao último abastecimento e ainda estou a comer algo, partimos juntos e quase sem nada dizer, decidimos terminar juntos, fui motivando para correr nas descidas e fazendo com que a caminhada existisse apenas nas subidas, confessou-me que a estava a ajudar para não parar, eu auto motivava-me para manter um ritmo constante.

Seguimos os dois, com troca de pequenas conversas, fazendo contas aos metros que faltavam… sim, aos metros. Já só queríamos terminar a prova e eu, pessoalmente, só queria ver o castelo pela segunda vez… em pouco tempo estávamos na descida do castelo e no final, seria a tão desejada meta… quem diria que finalmente estávamos no fim!!! Após 44,7Km, passei a meta com 06h07min09, posição na geral 82 e 32º no meu escalão!! A 7 minutos do objetivo… mas missão cumprida!!!

Os campeões:

Trilho da Tormentas – 110 participantes
Sara Silva – Atletismo Clube da Tocha – 5h18m12s, segundo lugar Mónica Barbosa – Individual – 5h19m50s e encerrando o pódio Maria Loureiro – Associação desportiva de Cabroelo – 5h34m07s.
Marcelo Araújo – FocoTeam24 – 4h06m13s, em segundo Tozé Amorim – Fiães Sport Clube – 4h10m01s e em terceiro Daniel Batata – Atletismo Clube da Tocha com o tempo 4h10m26s.

Trilho da Conquista – 272 participantes
Márcio Castro – ADRAP – 2h32m38s, segundo lugar Paulo Pinto – AZTrail/Mercentro – 2h34m56s e em terceiro Paulo Conde – Individual – 2h36m32s.
Belen Langa – Individual – 3h28m33s, segundo lugar para Lúcia Costa – Juventude Cortegacense – 3h31m31s e em terceiro Catarina Alves – Coimbra Trail Running – 3h38m12s.

Trilho do Guerreiro – 705 participantes
Sandra Araújo – individual – 1h31m39s, seguida de Carla Araújo – Pupilos do Zé Tó – 1h34m03s e de Joana Rodrigues – NAST – 1h34m32s que completaram o pódio.
Diogo Fernandes – Sim Summit – 1h08m53s, segundo lugar Carlos Ferreira – Sim Summit – 1h11m33s, terceiro lugar André Silva – Sporting Clube de Espinho/António Leitão – 1h13m36s.

Pontos a melhorar
Algumas situações a ajustar na prova, segundo comentários que pude escutar, uma falha na prova de 15km, por falta de comunicação, talvez entre a organização e alguns proprietários de terrenos. Penso que a primeira barreira horária fosse um pouco justa, deveria de ser ponderada e ajustada, para não existir tantos barramentos.
No entanto, uma nota máxima para os abastecimentos, para as marcações, muitos voluntários em diferentes pontos da prova, assistência médica rápida, na situação que ajudei e rapidamente chega uma pessoa da organização, logo seguido de assistência médica e banhos quentes!!! Começa a ser raro existir água quente em grande parte dos trails e após algumas horas de frio, sabe bem aquecer o corpo! E ainda massagens… UAU!!!

Continuo a achar uma excelente prova, com melhorias significativas ano após ano, com nota máxima, sempre vão existir situações a melhorar, pois a logística para organizar um evento desta dimensão é muito elevado, sendo esta a terceira edição, estão no bom caminho e recomendo!!!!
Visualize mais fotos em álbuns de cada um dos autores abaixo referidos, belas fotos retratam o evento.

Até breve… com mais aventuras!!!
[dividir ícone = “círculo” width = “médio”]
Texto: Manuel Carlos Martins
Fotos: Cedidas por Bruno Costa Photography / Cristina Moreira Photography / Objectiva em Movimento / UTM – Ultra Trail Medieval