HUGO GONÇALVES A CONSISTÊNCIA DO CAMPEÃO
Foto: Cedida pelo atleta
O trail running é muito mais do que correr na montanha. É uma disciplina que exige resistência física, força mental e uma ligação profunda com a natureza. Entre trilhos técnicos, grandes desníveis e horas intermináveis de esforço, há atletas que se destacam não apenas pelos resultados, mas pela consistência e pela forma como vivem o desporto. Hugo Gonçalves é um desses nomes.
Naturalmente ligado à serra e aos trilhos desde cedo, Hugo construiu ao longo dos anos um percurso sólido no trail nacional, afirmando-se como uma das principais referências portuguesas nas distâncias mais longas. Especialista em ultra-endurance, habituou-se a enfrentar provas exigentes onde a estratégia, a gestão do esforço e a capacidade de superação fazem toda a diferença. Essa combinação de talento, trabalho e resiliência levou-o a alcançar um feito notável: tornar-se tetracampeão nacional de Trail Ultra Endurance, mantendo um nível competitivo de excelência ao longo de várias épocas consecutivas.
Mas por trás dos títulos e dos resultados está também um atleta que continua profundamente ligado às raízes do trail: a montanha, o respeito pela natureza e o gosto pelo desafio. Entre treinos exigentes, competição ao mais alto nível, vida profissional e família, Hugo tem conseguido encontrar um equilíbrio que lhe permite continuar a evoluir e a representar o trail português com ambição e orgulho.
Nesta conversa, o atleta fala sobre o seu percurso, a evolução ao longo dos anos, os desafios das ultras, o significado de representar Portugal e aquilo que a montanha lhe ensinou dentro e fora do desporto. Uma entrevista que revela não só o competidor, mas também a pessoa por detrás de um dos nomes mais consistentes do trail nacional.
Fonte: Helena Santos // OPraticante.pt
Início e percurso
Hugo, para quem ainda não te conhece bem, como é que o trail running entrou na tua vida?
O trail entrou na minha vida de forma bastante natural. Sempre tive uma ligação forte à natureza e à serra, e correr pelos trilhos acabou por surgir quase como uma extensão disso. No início era apenas uma forma de treinar e de explorar a montanha, mas rapidamente comecei a participar em provas e a perceber que tinha capacidade para competir. A partir daí o trail passou de uma paixão para algo muito mais sério.
Cresceste muito ligado à serra e aos trilhos. Achas que esse contacto com a natureza moldou o atleta que és hoje?
Sem dúvida. Crescer em contacto com a serra dá‑nos uma relação diferente com o esforço e com o ambiente onde treinamos. Aprendes desde cedo a lidar com desnível, terreno técnico e condições duras. Mas mais do que isso, ganhas respeito pela montanha. Acho que esse contacto moldou não só o atleta, mas também a forma como encaro o desporto.
Lembras‑te da primeira prova em que sentiste: ‘posso ser competitivo nisto’?
Não foi só uma prova, mas um conjunto de provas em que tive bons resultados, e percebi que conseguia lutar pelos lugares da frente e acompanhar atletas com mais experiência. Foi um momento importante porque até aí via as competições mais como desafio pessoal. Quando percebi que podia ser competitivo, a motivação aumentou e comecei a olhar para o treino de forma mais estruturada e foi quando comecei a ser treinado pelo André Rodrigues.
Evolução como atleta
O teu nome está muito associado às ultra‑distâncias. O que te fascina mais nas provas longas?
Nas ultras existe uma dimensão que vai muito além da corrida. Não se trata apenas de velocidade, mas de gestão física, mental e estratégica ao longo de muitas horas. Há momentos em que tudo corre bem e outros em que estás no limite, e é nesses momentos que tens de encontrar forma de continuar. Essa luta constante contra os teus próprios limites é o que torna as ultras tão fascinantes.
Ao longo dos anos, em que áreas sentes que mais evoluíste: físico, técnico ou mental?
Provavelmente no lado mental. Com o tempo aprendes a conhecer melhor o teu corpo, a gerir o ritmo e a lidar com momentos difíceis durante as provas. A experiência acumulada nas ultras ajuda muito nesse aspeto. Hoje sinto que consigo manter a cabeça mais fria nas situações de crise e tomar melhores decisões durante a corrida.
Há alguma vitória ou prova que guardes de forma especial na memória? Porquê?
Todas as vitórias têm um significado especial, mas algumas ficam mais marcadas pelo contexto em que aconteceram ou pela dificuldade da prova. As competições onde tens de superar momentos muito difíceis acabam por ser aquelas que mais te marcam, porque sentes que houve ali uma verdadeira superação. No entanto, a primeira vez que fui campeão nacional de endurance no Demo Trail em Vila Nova de Paiva foi um momento muito especial.
Tetracampeão Nacional
Tornaste‑te tetracampeão nacional de Trail Ultra Endurance de forma consecutiva. O que representa para ti manter esse nível durante várias épocas seguidas?
Manter consistência ao longo de vários anos é algo de que me orgulho bastante. Ganhar uma vez pode acontecer num dia em que tudo corre bem, mas repetir esse nível ao longo de várias épocas exige muito trabalho, disciplina e capacidade de adaptação. Nas ultras há sempre muitos fatores em jogo, por isso essa consistência acaba por ser um reflexo de todo o trabalho que está por trás.
É mais difícil conquistar o primeiro título ou defender os seguintes?
O primeiro título é especial porque é a confirmação de que todo o trabalho valeu a pena. Mas defender títulos também traz um desafio diferente, porque já partes com um estatuto e todos querem ganhar ao campeão. Isso obriga‑te a continuar a evoluir e a manter um nível muito alto.
Quando partes para uma prova sabendo que és o campeão em título, sentes mais pressão ou mais motivação?
Sinto sobretudo motivação. É claro que existe sempre alguma responsabilidade acrescida, mas tento encarar isso de forma positiva. No fundo é um sinal de que o trabalho feito anteriormente foi bem conseguido.
Experiência que se transforma em força
O que mudou no Hugo entre o primeiro e o quarto título consecutivo — como atleta e como pessoa?
Com o tempo ganhei mais experiência e maturidade na forma como encaro o treino e a competição. Hoje tenho uma visão mais equilibrada do desporto e consigo gerir melhor os diferentes aspetos da preparação. Como pessoa, o trail também me ensinou muito sobre disciplina, paciência e resiliência.
Houve algum desses campeonatos que tenha sido particularmente duro ou emocionalmente marcante?
Nas ultras há sempre momentos muito duros, tanto físicos como mentais. Há provas em que tudo parece correr bem e outras em que tens de lutar até ao fim para conseguir alcançar o objetivo. Esses momentos acabam por marcar mais porque exigem uma grande capacidade de superação. No entanto, o Campeonato de Portalegre, o UTSM cheguei à meta com o Carlos Ferreira, foi uma prova muito disputada e difícil.
A consistência é a tua maior arma nas ultras?
A consistência é muito importante nas ultras. Saber gerir o ritmo, manter uma estratégia e evitar grandes quebras pode fazer muita diferença numa prova longa. Muitas vezes não ganha quem começa mais rápido, mas quem consegue manter um nível elevado durante mais tempo.
Depois de quatro títulos seguidos, onde vais buscar a fome para continuar a ganhar?
A motivação vem sobretudo do gosto pelo desafio e pela vontade de continuar a evoluir. No desporto de alto nível nunca estás verdadeiramente satisfeito, porque sabes que há sempre margem para melhorar.
Treino e preparação
Como é um dia típico de treino para o Hugo Gonçalves?
O meu treino é sempre orientado por um plano individual definido pelo meu treinador, que é adaptado em função da prova que estou a preparar em cada fase da época. Normalmente os treinos passam por sessões de corrida em estrada, trabalho específico na montanha e também bicicleta, que utilizo bastante como complemento. Essa variedade ajuda a desenvolver diferentes capacidades físicas e a preparar melhor o corpo para as exigências das provas de trail, especialmente nas distâncias mais longas
Misturas muito estrada com montanha ou és mais específico no trail?
Apesar de o foco ser claramente a montanha, também utilizo estrada em alguns treinos, sobretudo para trabalhar ritmo e eficiência. A combinação dos dois acaba por ser importante para construir uma base sólida.
Numa ultra, o corpo é importante, mas a cabeça é decisiva. Como trabalhas o lado mental?
O lado mental trabalha‑se muito através da experiência e do próprio treino. As sessões longas ajudam a preparar a mente para lidar com o cansaço e com momentos difíceis. Ao longo dos anos aprendes a reconhecer esses momentos e a saber como reagir. Quando estou a preparar uma prova de endurance, passo muitas horas sozinho a treinar na montanha.
Que importância têm a recuperação, a alimentação e o descanso no teu rendimento?
São absolutamente fundamentais. No trail de longa distância, a capacidade de recuperar bem entre treinos e provas pode fazer toda a diferença. Alimentação adequada, descanso e recuperação fazem parte integrante do processo de preparação.
Vida pessoal e equilíbrio
Além de atleta, tens uma vida profissional exigente. Como consegues conciliar trabalho, treinos e família?
Não é fácil e exige muita organização. Tento planear bem os treinos e aproveitar ao máximo o tempo disponível com as minhas filhas, que também me dão muita força para continuar, pois sou um exemplo para elas.
Já tiveste momentos em que pensaste em abrandar ou até desistir? O que te fez continuar?
Como em qualquer percurso desportivo, há momentos mais difíceis. Mas a paixão pelo trail e o gosto pelo desafio acabam sempre por falar mais alto e dar motivação para continuar.
O apoio da família e da equipa é decisivo no teu percurso?
Sem dúvida. O apoio das pessoas mais próximas faz uma enorme diferença, especialmente num desporto que exige tanto tempo e dedicação.
Competição e estratégia
Quando partes para uma prova longa, és mais calculista ou corres muito pelo feeling?
Gosto de ter uma estratégia bem definida, mas também é importante saber adaptar‑se ao que acontece durante a prova. As ultras são muito imprevisíveis, por isso é preciso alguma flexibilidade.
Preferes controlar desde início ou atacar mais na parte final?
Depende sempre da prova e da estratégia definida para esse dia, mas normalmente gosto de correr num ritmo forte desde o início. Nas ultras é importante encontrar um equilíbrio entre velocidade e gestão de esforço, por isso procuro impor um ritmo competitivo logo nas primeiras fases, sem comprometer a capacidade de manter esse nível ao longo da prova. Muitas vezes essa abordagem permite-me posicionar-me bem na corrida e gerir depois a parte final de forma mais controlada.
O que passa pela tua cabeça quando estás muitas horas sozinho na serra?
Há momentos de concentração total na corrida, mas também espaço para refletir sobre muitas coisas. As ultras acabam por ser uma experiência bastante introspectiva.
Como lidas com momentos de dor, erro ou quebra durante uma ultra?
Tento encarar esses momentos com calma e focar‑me em resolver o problema. Nas ultras quase todos os atletas passam por fases difíceis, por isso o importante é saber gerir essas situações.
Representar Portugal
O que significa para ti vestir a camisola da seleção nacional?
Representar Portugal é sempre um grande orgulho. É uma oportunidade de levar o nosso trail além‑fronteiras e de competir ao mais alto nível.
Sentes que o trail português vive um bom momento?
Sim, Portugal tem cada vez mais atletas de grande nível e provas muito bem organizadas. Isso ajuda a elevar o nível competitivo e a dar mais visibilidade ao desporto.
O que falta ainda para Portugal afirmar‑se mais no panorama internacional?
Talvez mais apoio e estrutura para os atletas, permitindo que consigam dedicar mais tempo à preparação e competir regularmente ao mais alto nível.
O lado humano do trail
O trail é mais do que correr. O que é que a montanha te ensina como pessoa?
A montanha ensina‑nos humildade, respeito pela natureza e capacidade de superação. Mostra‑nos que somos capazes de ir muito mais longe do que imaginamos.
Tens alguma frase ou pensamento que uses quando estás no limite?
Normalmente penso que os momentos difíceis fazem parte da prova e que, tal como chegam, também passam. Quando estou numa fase menos boa tento manter a calma e lembrar-me que é apenas um período mau que pode melhorar se continuar focado. Por outro lado, quando tudo está a correr bem também procuro não relaxar demasiado, porque nas ultras a situação pode mudar rapidamente. Tento manter sempre o máximo de concentração e respeito pela prova do início ao fim.
Que conselho deixas a quem quer começar no trail running?
Começar de forma progressiva, sem abusar nas distâncias, procurar algum treinador com conhecinento da modalidade, aproveitar a natureza e acima de tudo divertir‑se. O trail deve ser antes de mais uma experiência positiva.
Sobre o futuro
Que objetivos tens para as próximas épocas?
Continuar a evoluir como atleta, competir ao mais alto nível e representar Portugal da melhor forma possível.
Há alguma prova de sonho que ainda queiras vencer?
Existem sempre provas que qualquer atleta gostaria de vencer. Mais do que um nome específico, o objetivo é continuar a competir em grandes eventos e dar o melhor em cada oportunidade.
Onde gostavas de ver o Hugo Gonçalves daqui a 5 ou 10 anos no desporto?
Gostava de continuar ligado ao trail, seja como atleta, como organizador ou de alguma forma, continuar a contribuir para o desenvolvimento da modalidade.
Para terminar
Se tivesses de definir o trail running numa palavra, qual seria?
Superação.
Que mensagem deixas a quem te acompanha, apoia e segue nas provas?
Quero deixar um agradecimento muito especial a todos os que me acompanham, seja nas provas ou nas redes sociais. O carinho e apoio que recebo, muitas vezes em locais inesperados da serra, dão-me uma motivação enorme para continuar a lutar mesmo nos momentos mais difíceis. Também não posso deixar de agradecer a todas as equipas por onde passei, que me apoiaram e ajudaram a evoluir, contribuindo de forma decisiva para me tornar no atleta que sou hoje. Esse suporte, seja público ou nos bastidores, é parte fundamental da minha jornada e da minha motivação.










