RUI RUNNING IN DARKNESS: CORRER ALÉM DOS LIMITES DA VISÃO
Foto cedida pelo atleta
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Há caminhos que se percorrem com os pés, outros com coragem, determinação e vontade de continuar. Rui encontrou na corrida uma forma de recuperar a liberdade, a autonomia e a confiança, depois de perder a visão perto dos 30 anos.
Pai de três filhos, apaixonado por tecnologia, viagens e novos desafios, descobriu na corrida um caminho que o levou até às maratonas de Londres e Berlim. Através do projeto Rui Running in Darkness, partilha experiências, desafios e histórias que mostram que a deficiência visual não tem de definir os limites de uma pessoa.
Em entrevista ao OPraticante.pt, Rui fala sobre o seu percurso, a importância dos guias, os desafios da inclusão no desporto e os sonhos que ainda quer concretizar.
Tiktok / Youtube – @runningindarkness
QUEM É O RUI PARA ALÉM DA CORRIDA?
1. Quem é o Rui para lá da corrida? Como se descreveria e que papel ocupa o desporto na sua vida?
Sou, antes de mais, pai de três filhos. A minha família ocupa uma parte muito importante da minha vida e é provavelmente aquilo que mais me mantém ligado às coisas que realmente importam.
Sou também uma pessoa muito curiosa, ativa e com vontade de experimentar. Desde miúdo fui assim. Andava de bicicleta, corria, caminhava para todo o lado, fazia surf e bodyboard, pratiquei capoeira e joguei voleibol. Gostava de estar em movimento, de descobrir coisas e de não ficar parado.
Gosto muito de tecnologia e de perceber como as coisas funcionam. Também gosto de viajar, conhecer lugares novos e encontrar maneiras de fazer aquilo que quero, mesmo quando tenho de encontrar soluções diferentes das outras pessoas. Tenho uma personalidade bastante prática: quando alguma coisa me interessa, tento perceber como a posso fazer em vez de partir logo do princípio de que não é possível.
A perda da visão mudou naturalmente a minha vida e obrigou-me a adaptar muitas coisas. Mas não quero que isso seja aquilo que define quem sou. Sou pai, sou amigo, sou uma pessoa que gosta de tecnologia, de viajar, de experimentar, de aprender e, acima de tudo, de viver.
O desporto faz parte dessa forma de estar. Para mim, nunca foi apenas uma questão de competição ou de resultados. Representa movimento, liberdade, autonomia e a possibilidade de continuar a fazer coisas que me dão prazer. E talvez seja essa a parte mais importante: o desporto ajuda-me a não ficar parado, física e mentalmente.
A corrida acabou por ganhar um papel muito especial na minha vida, mas é apenas uma parte dela. O Rui existe muito para além dos quilómetros que corre.
2. Como começou a paixão pela corrida? Quando começou e quando percebeu que poderia ser importante?
A verdade é que a minha paixão pela corrida não começou quando era miúdo. Apesar de ter sido sempre uma pessoa muito ativa, nunca fui particularmente apaixonado por correr. Corria, andava de bicicleta, fazia surf e bodyboard, praticava capoeira, jogava voleibol e deslocava-me muito a pé, mas a corrida era apenas mais uma das coisas que fazia.
A minha relação com a corrida começou a mudar muitos anos mais tarde, depois de perder a visão. Houve uma fase muito complicada em que tive de me adaptar a uma realidade completamente diferente e em que, durante algum tempo, deixei de fazer muitas das coisas que faziam parte da minha vida.
Quando comecei a sentir que o pior dessa fase tinha passado, percebi que não queria ficar parado. Em 2024, a minha amiga Filipa Teixeira teve um papel fundamental nesse processo. Teve a disponibilidade e a paciência para me tirar do sofá e voltar a mostrar-me aquilo que o movimento podia representar: sair de casa, sentir liberdade, recuperar alguma autonomia e voltar a experimentar coisas.
Foi nesse contexto que a corrida começou a ganhar espaço. No início, não estava a pensar em maratonas, tempos ou grandes objetivos. Era simplesmente uma forma de voltar a mexer-me e de recuperar uma parte de mim que tinha ficado para trás.
Depois aconteceu algo que eu próprio não estava à espera: comecei a gostar. Vieram os treinos, as primeiras provas, os desafios cada vez maiores e a vontade de perceber até onde conseguia chegar.
A certa altura percebi que a corrida já não era apenas exercício. Tinha-se tornado uma ferramenta para recuperar confiança, criar objetivos e voltar a sentir que havia muitas coisas que ainda podia fazer.
E foi aí que percebi que podia ser realmente importante para mim. Não porque correr tivesse passado a ser fácil ou porque a minha vida tivesse deixado de ter obstáculos, mas porque a corrida me mostrou que ainda havia muito caminho para percorrer — literalmente e não só.
CORRER SEM VER: CONFIANÇA, ADAPTAÇÃO E SUPERAÇÃO
3. Ser cego e correr exige adaptação, confiança e logística. Como chegou à corrida regular e quais foram os primeiros desafios?
Um dos maiores desafios foi, desde logo, encontrar pessoas disponíveis para correr comigo. Para uma pessoa que vê, calçar os ténis e sair para correr pode ser uma decisão bastante simples. Para mim, essa decisão envolve outra pessoa. Preciso de um guia, de alguém com disponibilidade, vontade e confiança para partilhar aquele momento comigo.
E encontrar guias regularmente nem sempre foi fácil. Não basta encontrar alguém que corra. É preciso criar uma relação de confiança, aprender a comunicar durante a corrida e perceber o ritmo e a forma de correr de cada pessoa. Com o tempo, isso torna-se muito natural, mas no início exige alguma adaptação dos dois lados.
Ao mesmo tempo, havia outro desafio: recuperar a minha condição física. Eu tinha passado bastante tempo parado e precisava de reconstruir a minha resistência e a minha confiança física de forma progressiva. Não bastava simplesmente querer correr; o corpo também tinha de voltar a estar preparado.
Por isso, os primeiros tempos foram muito feitos de pequenos passos. Começar, parar, voltar a tentar, ganhar resistência e perceber até onde conseguia ir. E, paralelamente, ir encontrando pessoas com quem pudesse correr.
A confiança foi crescendo com a experiência. Quanto mais corria, mais natural se tornava a comunicação com os guias e mais confiança ganhava nas minhas próprias capacidades.
Hoje, quando olho para trás, percebo que correr sendo cego não é apenas uma questão de adaptação individual. É também criar uma rede de pessoas que tornam possível essa experiência. E foi precisamente essa rede que me permitiu passar de alguém que queria voltar a mexer-se para alguém que hoje consegue treinar regularmente e participar em provas de longa distância.
4. A corrida é associada à visão. Como é que vive a corrida enquanto atleta cego? Que sentidos, estratégias e recursos são importantes?
Para mim, correr sem visão é uma combinação de várias coisas. Não existe um único sentido ou uma estratégia que substitua a visão. Aprendi a correr utilizando aquilo que tenho disponível e, sobretudo, aprendendo a interpretar diferentes referências ao mesmo tempo.
A comunicação com o guia é fundamental. A voz dele permite-me saber o que está a acontecer à minha volta, antecipar mudanças de direção, obstáculos, curvas, subidas ou descidas e perceber como está a decorrer a corrida. Mas existe também uma ligação física entre nós que me permite acompanhar o movimento e o ritmo.
Ao mesmo tempo, utilizo muito a audição para perceber o ambiente à minha volta. Os sons das pessoas, do trânsito, do próprio percurso e até as características acústicas de determinados espaços dão-me informação. Também existe uma perceção muito grande através do corpo: o piso, as mudanças de inclinação, o ritmo dos passos e a forma como o corpo se movimenta.
Com o tempo, tudo isto começa a funcionar quase em conjunto. Não estou constantemente a pensar “agora vou usar a audição” ou “agora vou usar o contacto com o guia”. São informações que vou recebendo e interpretando naturalmente.
Talvez seja essa uma das coisas mais interessantes na experiência de correr sem visão: percebes que correr não depende exclusivamente daquilo que os olhos conseguem ver. Depende de comunicação, confiança, atenção e da capacidade de interpretar o que está a acontecer à tua volta.
E, acima de tudo, depende de confiança. Confiança no guia, no teu corpo e na tua capacidade de responder ao que vais encontrando pelo caminho.
5. Qual é o papel dos guias? Existe uma relação especial de confiança?
O papel dos guias é absolutamente fundamental. Quando corro, entrego a outra pessoa uma parte importante da minha segurança, por isso a relação tem necessariamente de assentar em confiança.
A minha principal referência é a Achilles International, à qual pertenço e onde encontrei muitas das pessoas que me ajudaram a desenvolver esta relação com a corrida. Mas também encontrei guias através de outras organizações e, curiosamente, algumas pessoas que começaram por me acompanhar como guias acabaram por estar ligadas às duas.
Um guia não é simplesmente alguém que corre ao meu lado. É alguém que tem de aprender a comunicar comigo, perceber o meu ritmo, antecipar determinadas situações e transmitir-me informação de uma forma que eu consiga interpretar rapidamente. E eu também tenho de aprender a confiar nessa pessoa e a perceber a sua forma de comunicar e de correr.
Com o tempo, essa comunicação torna-se quase automática. Muitas vezes basta uma palavra, um pequeno movimento ou uma indicação muito simples para eu perceber o que está a acontecer.
E há uma dimensão humana que para mim é talvez ainda mais importante. Quando partilhamos quilómetros, treinos, provas, viagens e momentos difíceis, cria-se uma ligação que vai muito além da corrida. São pessoas que passam a fazer parte da minha vida e da minha história.
Tenho muita gratidão por todos os guias que já correram comigo. Cada um deixou uma marca diferente no meu percurso e ajudou-me, de alguma forma, a chegar ao corredor que sou hoje.
6. Quais foram as maiores dificuldades para além da corrida e o que o fez continuar?
As maiores dificuldades foram, na realidade, muito para além da corrida. Perder a visão perto dos 30 anos obrigou-me a reconstruir praticamente toda a minha relação com o mundo e com a minha própria autonomia.
Houve dificuldades muito concretas no dia a dia: deslocar-me, orientar-me em lugares que antes conhecia, tratar de coisas que anteriormente fazia sem pensar, adaptar-me profissionalmente e aprender a fazer determinadas tarefas de uma maneira completamente diferente. Também existe a parte menos visível: lidar com a mudança de identidade, com a frustração, com a dependência de outras pessoas em determinadas situações e, por vezes, com a falta de compreensão ou com o preconceito.
É fácil olhar para uma pessoa cega e pensar apenas naquilo que ela não consegue fazer. O mais difícil, muitas vezes, é lidar com uma sociedade que nem sempre está preparada para que uma pessoa com deficiência faça as coisas de forma diferente. Há obstáculos físicos, tecnológicos, sociais e até burocráticos que podem tornar uma tarefa simples numa coisa desnecessariamente complicada.
Também houve momentos em que tive de reconstruir relações, confiança e a própria ideia de futuro. Quando uma parte tão importante da tua vida muda, não basta aprender a fazer as coisas de outra maneira. Tens também de voltar a acreditar que vale a pena fazer planos.
O que me fez continuar foi uma combinação de tudo aquilo que é importante para mim: a minha família, os meus filhos, as pessoas que estiveram ao meu lado, a vontade de recuperar a minha autonomia e a curiosidade de perceber o que ainda era capaz de fazer.
Nunca quis que a perda da visão fosse o ponto final da minha história. Houve coisas que ficaram mais difíceis, algumas que passaram a exigir ajuda e outras que tive de aprender de novo. Mas também percebi que continuar a viver, experimentar, viajar, trabalhar, praticar desporto e procurar novos desafios era uma forma de recuperar aquilo que não queria perder: a minha liberdade de escolher o que fazer com a minha vida.
Foi esse conjunto de coisas que me fez continuar. Não houve um momento mágico em que tudo ficou bem. Foi um processo, feito de pequenos avanços, algumas quedas e muita vontade de continuar a construir uma vida que fosse minha.
7. Como se prepara para as provas, desde os treinos aos percursos e à logística?
A preparação começa muito antes do dia da prova. Tenho uma rotina de treino regular, que combina corrida com trabalho de força e preparação física. Procuro perceber o que o meu corpo precisa em cada fase e ajustar a carga de acordo com os objetivos que tenho.
Mas, no meu caso, preparar uma prova não é apenas preparar o corpo. Existe também toda uma componente logística que é particularmente importante por eu ser cego.
Tenho de perceber antecipadamente como vou chegar ao local, onde vou ficar, como será a deslocação até à partida e, sobretudo, garantir que tenho um guia ou uma equipa de guias disponível. Quanto maior for a prova e mais complexa a logística, mais cedo começo a tratar dessas questões.
Também procuro conhecer o percurso da melhor forma possível. Não consigo estudá-lo visualmente como a maioria dos corredores, por isso recorro à informação disponível sobre o percurso e às indicações dos guias. Saber antecipadamente onde existem subidas, descidas, curvas, zonas mais estreitas ou outras características relevantes ajuda-me a preparar mentalmente aquilo que vou encontrar.
Depois há toda a preparação do equipamento e da alimentação. Tenho de pensar no que vou usar, no que vou levar comigo e, em provas mais longas, em como vou gerir a hidratação e a nutrição ao longo do percurso.
No dia da prova, tento que o máximo possível esteja já resolvido. Quanto melhor preparada estiver a parte logística, mais posso concentrar-me naquilo que realmente quero fazer: correr.
No fundo, a minha preparação tem duas dimensões. Há a preparação física, que é comum a qualquer corredor, e há uma preparação logística adicional que resulta da minha deficiência visual. As duas são igualmente importantes para conseguir chegar à partida tranquilo e preparado para desfrutar da prova.
DE LONDRES AOS GRANDES SONHOS
8. Porque escolheu a maratona e o que sentiu depois de completar os primeiros 42,195 km?
A maratona acabou por surgir como um desafio natural à medida que fui percebendo até onde conseguia levar a minha corrida. Quando comecei, nunca pensei que um dia iria correr 42,195 quilómetros. Primeiro queria simplesmente voltar a correr. Depois vieram as provas, as meias-maratonas e, progressivamente, comecei a pensar: “E se tentasse uma maratona?”
Londres surgiu de uma forma quase inesperada: a minha inscrição foi selecionada no sorteio. Foi uma oportunidade que agarrei e que acabou por me levar à minha primeira maratona.
Mas chegar à partida esteve muito longe de ser garantido. Durante a preparação tive uma lesão e houve uma fase em que não sabia sequer se conseguiria participar. De repente, todo o trabalho, todos os treinos e toda a expectativa estavam em causa.
Por isso, quando finalmente consegui chegar ao dia da prova e completar os 42,195 quilómetros, senti uma mistura enorme de emoções: orgulho, alívio, felicidade, emoção e também alguma incredulidade. Não estava apenas a terminar a minha primeira maratona. Estava a terminar uma maratona que, algumas semanas antes, nem tinha a certeza de poder começar.
Foi também um momento em que pensei em todo o caminho que tinha feito até ali. Desde a fase em que estive parado e tive de reconstruir a minha vida depois de perder a visão, até voltar a correr, encontrar guias, recuperar a condição física e chegar à partida de uma das maratonas mais importantes do mundo.
A meta representou, por isso, muito mais do que 42,195 quilómetros. Foi uma confirmação de que era possível continuar a construir novos objetivos, mesmo depois de a vida ter mudado completamente.
9. Qual foi a prova mais significativa e porquê?
Sem dúvida, Londres.
Foi a minha primeira maratona, o que por si só já faria dela uma prova muito especial. Mas Londres representa muito mais do que os 42,195 quilómetros.
É uma cidade que considero quase uma segunda casa. É um lugar onde me sinto feliz, onde tenho muitas memórias e onde gosto de estar. Por isso, ter a oportunidade de fazer a minha primeira maratona precisamente ali tornou tudo ainda mais especial.
E houve ainda toda a história por trás dessa prova. A inscrição saiu-me no sorteio, comecei a preparar-me com enorme entusiasmo e, depois, uma lesão quase pôs tudo em causa. Houve um período em que não sabia se conseguiria sequer estar na linha de partida.
Por isso, quando finalmente estive lá e consegui terminar, senti que estava a fechar um capítulo que tinha começado muito antes daquela manhã.
Londres juntou várias coisas que são importantes para mim: uma cidade de que gosto profundamente, a minha primeira maratona, as pessoas que estiveram comigo, a superação de uma fase complicada da preparação e a sensação de concretizar algo que, durante algum tempo, esteve em risco.
É uma prova que vou guardar sempre de uma forma muito especial.
10. Já teve vontade de desistir a meio de uma prova? O que lhe passa pela cabeça nesses momentos?
Curiosamente, acho que nunca tive verdadeiramente vontade de desistir durante uma prova.
Já tive, naturalmente, momentos em que pensei que gostava muito que aquilo acabasse mais depressa. Há alturas em que o corpo começa a pesar, o esforço aumenta e pensamos: “Quando é que isto acaba?” Mas isso é muito diferente de querer desistir.
Quando estou numa prova, a minha cabeça está muito mais focada em continuar do que em parar. Tento concentrar-me no que tenho pela frente, gerir o esforço e dividir a distância em objetivos mais pequenos.
Talvez seja também uma questão de mentalidade. Se cheguei à linha de partida, é porque me preparei e porque quero estar ali. Posso ter um dia melhor ou pior, posso sofrer mais do que estava à espera e posso ter de adaptar o ritmo, mas a ideia de desistir nunca foi uma opção que me tenha passado verdadeiramente pela cabeça.
A vontade de chegar mais depressa, essa sim, já apareceu muitas vezes. Mas entre pensar “quero que isto acabe” e pensar “vou desistir” existe uma diferença enorme.
Até agora, a minha resposta tem sido sempre a mesma: continuar.
11. Como equilibra família, trabalho e treinos?
Não é sempre fácil e, na realidade, exige bastante organização e alguma capacidade de encaixar as coisas onde é possível.
A família vem primeiro. Tenho três filhos e a vida profissional também tem as suas exigências, por isso não posso simplesmente organizar a semana toda à volta da corrida. Tenho de encontrar os espaços disponíveis e aproveitar esses momentos.
Os treinos mais longos, por exemplo, faço normalmente ao domingo de manhã, quando ainda está tudo a dormir. É uma forma de conseguir fazer um treino mais demorado sem retirar demasiado tempo à família.
À quarta-feira costumo treinar na pista do S.C. Salgueiros e aos sábados no Parque da Cidade. Esses são alguns dos momentos mais fáceis de manter na rotina porque já estão mais definidos. Os restantes treinos tenho de tentar encaixar entre o trabalho, a família e tudo o resto que acontece durante a semana.
Nem sempre consigo cumprir tudo exatamente como estava planeado. E aprendi a aceitar isso. O importante é conseguir manter uma rotina consistente sem deixar que o treino ocupe o espaço que pertence à família ou às outras responsabilidades.
No fundo, é uma questão de prioridades, organização e flexibilidade. Quero continuar a evoluir como corredor, mas não quero que isso aconteça à custa de ser pai ou de viver o resto da minha vida. A corrida tem de fazer parte da minha vida, não substituir a minha vida.
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12. Que mensagem deixaria a quem sente que não consegue, que tem medo ou que se sente limitado?
Diria para não esperar pelo momento perfeito nem por sentir que está completamente preparado. Começar é muitas vezes a parte mais difícil.
Eu próprio comecei sem saber onde a corrida me iria levar. Não comecei a pensar em maratonas, em grandes provas ou em objetivos ambiciosos. Comecei simplesmente por voltar a mexer-me e por tentar recuperar uma parte da minha autonomia.
Também acho importante perceber que praticar desporto não significa necessariamente competir ou atingir grandes resultados. Pode ser caminhar, correr, andar de bicicleta, nadar, ir ao ginásio ou simplesmente encontrar uma atividade de que se goste. O importante é encontrar alguma coisa que nos faça querer sair do sofá.
E, se houver uma limitação, seja ela qual for, não significa necessariamente que não seja possível. Pode significar apenas que temos de encontrar outra maneira de fazer as coisas. Às vezes precisamos de ajuda, de adaptação ou de mais tempo, e não há nada de errado nisso.
A minha experiência ensinou-me que não devemos definir aquilo que somos capazes de fazer apenas pelas dificuldades que temos à nossa frente.
Por isso, a minha mensagem seria simples: experimentem. Comecem pequeno, procurem ajuda se precisarem e descubram até onde conseguem chegar. Talvez o resultado seja muito maior do que aquilo que imaginavam.
13. O que pensa das pessoas que encontram desculpas para não praticar desporto? Os maiores obstáculos estão na cabeça?
Acho que é fácil dizer que as pessoas arranjam desculpas, mas também não gosto de simplificar demasiado. Nem todas as pessoas partem do mesmo lugar e existem obstáculos reais: falta de tempo, dificuldades económicas, problemas de acessibilidade, limitações físicas ou simplesmente falta de oportunidades.
Mas também acredito que, muitas vezes, existe uma barreira que construímos antes sequer de tentar. Pensamos que não conseguimos, que não temos capacidade, que não somos suficientemente bons ou que determinada atividade não é para nós. E, quando acreditamos nisso antecipadamente, podemos nem chegar a descobrir aquilo que seríamos capazes de fazer.
No meu caso, se tivesse pensado apenas naquilo que a perda da visão me impedia de fazer, provavelmente não teria voltado a correr. Muito menos teria imaginado correr maratonas.
Por isso, não diria que os maiores obstáculos estão sempre na cabeça. Diria antes que, quando existe um obstáculo real, vale a pena tentar perceber se existe outra maneira de o ultrapassar. E, quando o obstáculo é apenas o medo de não conseguir, a única forma de descobrir é tentar.
Não é preciso começar com grandes objetivos. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente sair de casa e experimentar.
E talvez seja essa a maior diferença: não partir do princípio de que não somos capazes antes de termos sequer tentado.
14. Que desafio lançaria a quem está constantemente a adiar a prática de atividade física?
Eu lançaria um desafio muito simples: parem de adiar e experimentem.
Não estou a dizer que têm de começar a correr, fazer uma maratona ou transformar completamente a vossa vida. Estou a dizer para escolherem uma atividade e fazerem-na. Hoje. Nem que sejam 20 minutos.
Porque muitas vezes esperamos pelo momento certo: quando tivermos mais tempo, quando estivermos em melhor forma, quando tivermos mais motivação ou quando a vida estiver mais tranquila. O problema é que esse momento perfeito raramente aparece.
Eu próprio aprendi isso da pior maneira. Houve uma altura em que a minha vida mudou completamente e em que deixei de fazer muitas das coisas que fazia antes. Quando comecei a recuperar, não sabia onde a corrida me iria levar. Só sabia que não queria continuar parado.
Por isso, o desafio que deixaria a quem está sempre a adiar é este: durante um mês, encontrem pelo menos duas ou três vezes por semana um momento para se mexerem. Não pensem demasiado. Façam.
Depois desse mês, parem e perguntem a vocês próprios se estão melhor ou pior do que estavam antes.
Talvez descubram que afinal gostam. Talvez descubram que conseguem mais do que pensavam. E talvez aquilo que começou com 20 minutos de caminhada acabe por se transformar numa coisa que nunca imaginaram.
Mas isso só vão descobrir se derem o primeiro passo.
O meu desafio é simples: menos desculpas, menos “amanhã” e mais ação. Comecem.
15. Como reagem as pessoas quando percebem que é cego e participa em provas e maratonas? Sente que ainda existe falta de conhecimento?
As reações são muito variadas, mas há uma coisa que me acontece com bastante frequência: as pessoas nem sequer percebem que sou cego.
Quando estou a correr com um guia, muitas vezes pensam simplesmente que somos duas pessoas a correr de mão dada. Nem reparam na fita que nos liga. Só quando percebem que não estou a olhar para o percurso ou quando alguém lhes explica é que se apercebem de que existe ali uma relação de guia e atleta.
Isso diz muito sobre o desconhecimento que ainda existe. Não é necessariamente má vontade ou preconceito. Muitas vezes é simplesmente falta de informação. As pessoas não sabem como corre uma pessoa cega, como funciona a ligação com o guia ou quais são as adaptações necessárias.
Quando descobrem, as reações costumam ser muito positivas. Há curiosidade, surpresa e muitas vezes admiração. As pessoas fazem perguntas e querem perceber como funciona.
Mas também acho importante que esta realidade deixe de ser vista como algo extraordinário ou exótico. Um atleta com deficiência visual continua a ser um atleta. Treina, prepara provas, tem dias bons e maus, sofre, melhora e estabelece objetivos, tal como qualquer outro corredor. A diferença está, muitas vezes, na forma como tem de organizar e executar algumas coisas.
Por isso, sim, ainda existe falta de conhecimento. E é precisamente por isso que acho importante falar sobre estas experiências. Quanto mais as pessoas conhecerem a realidade dos atletas com deficiência visual, mais natural será vê-los a treinar, a competir e simplesmente a fazer aquilo que gostam.
Se alguém olha para mim a correr e nem percebe que sou cego, talvez isso também seja um sinal de que estamos a chegar a um ponto em que a deficiência deixa de ser aquilo que define a pessoa e passa a ser apenas uma das características que fazem parte dela.
16. O que falta fazer para tornar a corrida e o atletismo mais acessíveis e inclusivos para pessoas com deficiência visual?
Acho que ainda há várias coisas que podem ser melhoradas, mas começaria por uma muito simples: criar mais oportunidades para as pessoas com deficiência visual começarem.
Para mim, uma das maiores dificuldades é encontrar guias disponíveis. Não basta existir uma prova aberta a atletas com deficiência visual se, na prática, a pessoa não consegue encontrar alguém com quem possa treinar e competir regularmente.
Também é importante que mais clubes e grupos de corrida estejam preparados para receber atletas com deficiência. Não é preciso que toda a gente seja especialista. Muitas vezes, é suficiente existir abertura para aprender, adaptar algumas coisas e perceber que um atleta cego pode treinar juntamente com os restantes atletas.
As próprias provas podem também melhorar a informação e a acessibilidade. É importante que as organizações saibam antecipadamente que existem atletas com deficiência visual, percebam as suas necessidades e tenham processos simples para facilitar a participação, desde a inscrição até à chegada à partida e à meta.
Mas acredito que a mudança mais importante é cultural. É preciso deixar de partir do princípio de que uma pessoa com deficiência não vai conseguir fazer determinada coisa. Em vez de perguntar primeiro “isso é possível?”, podemos começar por perguntar “o que é preciso adaptar para que seja possível?”.
Tenho tido a sorte de encontrar pessoas e organizações que me abriram portas. A Achilles International teve um papel muito importante no meu percurso e, este ano, também encontrei no S.C. Salgueiros um clube que me acolheu e me deu uma casa no atletismo.
É esse tipo de abertura que gostava de ver cada vez mais: clubes, organizações, provas, atletas e pessoas dispostas a experimentar e a encontrar soluções.
Porque inclusão não é criar um mundo completamente separado para pessoas com deficiência. É criar condições para que possamos estar no mesmo mundo, participar e competir, com as adaptações necessárias para que todos tenham essa oportunidade.
CADA META É UM NOVO PONTO DE PARTIDA
17. O que significa, para si, cruzar a linha de chegada?
Para mim, cruzar a linha de chegada significa muito mais do que terminar uma prova.
Naquele momento, estão ali todos os quilómetros que fiz antes, todos os treinos, as dificuldades, as dúvidas, as pessoas que me acompanharam e todas as vezes em que tive de adaptar alguma coisa para conseguir continuar.
Quando perdi a visão, houve uma altura em que muitas coisas que antes considerava normais deixaram de fazer parte da minha vida. Voltar a correr e, anos mais tarde, cruzar a meta de uma maratona é também uma forma de perceber o caminho que fiz desde então.
E há uma coisa de que gosto particularmente: naquele momento, não sou “o corredor cego que conseguiu terminar”. Sou simplesmente um corredor que acabou de completar uma prova.
A linha de chegada representa esforço, mas também liberdade. Representa a possibilidade de continuar a estabelecer objetivos e de descobrir que ainda há muitas coisas que posso fazer.
E, no fundo, cada chegada também é um novo ponto de partida. Porque quando cruzo uma meta, a primeira coisa que penso não é apenas no que acabei de fazer. É muitas vezes: “E agora, qual é o próximo desafio?”
18. De que conquista se orgulha mais e qual é o seu próximo grande sonho?
Tenho muito orgulho naquilo que já consegui construir desde que voltei a correr, mas se tiver de escolher uma conquista, diria que completar a minha primeira maratona foi um momento muito marcante. Não apenas pelo resultado, mas por tudo aquilo que representa no meu percurso.
Ao mesmo tempo, sinto que estou a entrar numa nova fase. Ter sido acolhido pelo S.C. Salgueiros e ter a oportunidade de representar o clube nos Campeonatos Nacionais de Atletismo Adaptado é um passo muito importante para mim. Ainda vou competir e, por isso, não sei qual será o resultado, mas estou muito orgulhoso de estar a chegar a este nível e de poder viver esta experiência.
Quanto ao futuro, o meu grande sonho desportivo é completar as seis World Marathon Majors. Já corri Londres e Berlim, por isso ainda faltam quatro. É um objetivo ambicioso, mas gosto precisamente de ter objetivos que me obriguem a continuar a evoluir.
E, para além das provas e dos resultados, quero continuar a descobrir até onde posso levar este projeto, continuar a correr, contar histórias e mostrar que uma deficiência visual não tem de definir aquilo que uma pessoa pode ou não fazer.
19. Que mensagem gostaria de deixar aos leitores d’OPraticante.pt, sobretudo àqueles que sentem que não conseguem, que têm medo ou que se sentem limitados?
Diria para não deixarem que o medo ou a ideia de que “não conseguem” decida por vocês antes de sequer tentarem.
Não significa que tudo seja possível ou que as dificuldades desapareçam simplesmente porque queremos. Eu sei isso melhor do que ninguém. Perder a visão mudou completamente a minha vida e obrigou-me a aprender a fazer muitas coisas de outra forma. Houve obstáculos reais e continuam a existir.
Mas também aprendi que existe uma diferença enorme entre não conseguir fazer alguma coisa e ainda não ter encontrado a forma de a fazer.
Foi muito dessa vontade que nasceu o meu projeto, Rui Running in Darkness. Mais do que falar sobre corrida, quero mostrar experiências reais: correr, viajar, experimentar tecnologia, enfrentar desafios, lidar com acessibilidade e simplesmente viver. Quero mostrar aquilo que acontece quando deixamos de olhar apenas para aquilo que nos limita e começamos a procurar aquilo que ainda podemos fazer.
Por isso, a minha mensagem seria: não esperem que desapareçam todas as dificuldades para começar a viver.
Comecem com aquilo que conseguem fazer hoje. Procurem ajuda quando precisarem. Adaptem o caminho. E, sobretudo, não deixem que outra pessoa — ou até vocês próprios — decidam antecipadamente aquilo de que são capazes.
Eu não sei onde este caminho me vai levar. Quando comecei a correr, também não sabia. Hoje já corri maratonas, estou a preparar novos desafios e continuo a descobrir coisas que há alguns anos nem imaginava.
No fundo, é isso que tento transmitir com o Rui Running in Darkness: não é preciso ver todo o caminho para dar o próximo passo. É preciso ter coragem para começar a caminhar.




