AFONSO EULÁLIO DE ROSA CONTRA TODAS AS PREVISÕES
Foto: Sprint Cycling
Havia qualquer coisa no sorriso de Afonso Eulálio à partida de Viareggio que parecia uma despedida anunciada. O português acenava aos adeptos com a serenidade de quem já tinha feito história. Como se dissesse, sem palavras: “Foi bonito enquanto durou.”
Mas o Giro decidiu escrever outro capítulo.
Contra todas as previsões, contra a lógica do contrarrelógio e até contra aquilo que o próprio acreditava ser possível, Afonso Eulálio saiu da 10ª etapa ainda vestido de rosa. E isso, nesta altura da corrida, vale quase tanto como uma vitória.
Porque o cenário era claro, 42 quilómetros planos, desenhados à medida de Jonas Vingegaard. O dinamarquês da Visma tinha tudo para esmagar diferenças e recuperar a liderança da geral. Do outro lado estava um português em modo sobrevivência, a tentar limitar danos num terreno que nunca seria o seu habitat natural.
Eulálio sabia-o. Toda a gente sabia.
Fonte: Helena Santos
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Nos pontos intermédios, os números confirmavam o esperado. Primeiro, cerca de 50 segundos perdidos. Depois, quase dois minutos. A camisola rosa parecia escorregar a cada quilómetro.
Só que o Giro raramente se resume a cálculos.
Vingegaard não encontrou o contrarrelógio perfeito que precisava. Longe do seu nível habitual, o dinamarquês foi apenas 13.º classificado, a três minutos de um imperial Filippo Ganna, senhor absoluto do esforço individual. E, do outro lado, Eulálio fez exatamente aquilo que um líder improvável precisa de fazer numa grande volta: resistir.
Sem espetáculo, sem explosão… sem entrar em pânico.
Resistir.
O português da Bahrain Victorious cortou a meta exausto, depois de mais de 40 quilómetros no limite, sem sequer perceber imediatamente que continuava líder da Volta a Itália. A reação no final disse tudo.
“Não”, respondeu, seco e sincero, quando lhe perguntaram se acreditava durante a etapa que conseguiria manter a camisola rosa.
“Só quando ouvi ‘30 segundos’ é que acreditei”
Só perto do fim começou a perceber que o impossível podia acontecer.
“O carro dizia-me: ‘Estás perto, estás perto do Jonas’. Mas pensei que estava perto… não para manter a rosa. Só quando me disseram ‘30 segundos’ é que acreditei.”
E aí aconteceu aquilo que separa corredores talentosos de corredores capazes de criar momentos eternos: deu tudo o que ainda tinha.
Cada pedalada final valeu ouro.
No final do dia, a diferença ficou em 27 segundos. Apenas 27. Uma margem mínima no papel, gigantesca na história desta etapa.
Porque ninguém esperava que Afonso Eulálio sobrevivesse.
Nem os rivais, nem os adeptos… nem ele próprio.
O Giro ainda vai longe…
E talvez seja precisamente por isso que este Giro começa a ganhar contornos especiais. O português não corre com a obrigação dos favoritos. Corre com a coragem de quem já ultrapassou tudo aquilo que lhe pediam. Cada dia de rosa parecia improvável. Agora começa a parecer destino.
Claro que a montanha ainda vem aí. Claro que Vingegaard continua a ser o grande candidato. E o próprio Eulálio faz questão de manter os pés no chão.
“Vencer o Giro não está nos planos.”
Mas também não estava nos planos chegar aqui e continuar de rosa depois deste contrarrelógio.
E no ciclismo, às vezes, é exatamente aí que nascem as histórias que ninguém esquece.


