Estrela… É a nossa Estrela!
Bem-vindos à 3ª edição do Estrela Grande Trail, que nos dias 19, 20 e 21 de maio em que a nossa estação de embarque e terminal foi em Manteigas.
Neste evento que contou com 4 provas de trail running distintas e competitivas, sendo a prova de endurance com 109 km, Estrela Grande Trail, a rainha. Havendo ainda a ultra, Estrela Orion Belt, de 49 km. O trail longo, Estrela Tauros com 26 km e o trail curto de 15 km, Estrela Ursa Minor.
A organização deste evento foi a cargo de Armando Teixeira Outdoor Events e Trilhos & Lagoas – Living Nature.

Com o Rali de Portugal a decorrer os cerca de 1000 atletas não quiserem ficar atrás dos automóveis e lá foram levantar pó para os magníficos trilhos da Serra da Estrela.
Manteigas
No coração da Serra da Estrela, Manteigas, com cerca de 3500 habitantes vê todos os dias beijar a seus pés, o ainda bebé rio Zêzere. Estamos uns degraus abaixo do vale glaciar do Zêzere. É por esta vila que se transformou neste fim-de-semana na estação para acolher um lindo carrossel, passeio trailista pelo parque natural da Serra da Estrela.
Envolvida por lindíssimas paisagens, esta vila portuguesa do distrito da Guarda, vive em grande parte do artesanato e do turismo. A estação de esqui artificial, única em Portugal, é um exemplo dum ponto turístico. Soberba nos sabores culinários e tradicionais da região envolvente da Serra da Estrela, a feijoca de Manteigas é o prato mais conhecido e típico desta vila.

Vamos à prova…
Tic-tac, tic-tac, pouco mais falta de 1 hora para o início da partida do nosso comboio, ao qual damos o nome de Alfa Estrela Grande Trail 109 km.
Hoje vamos ser um céu em que iremos entregar o nosso coração à estrela, para relaxar e motivar pelo caminho entre o local de repouso até à partida, ouvimos Coldplay – “Sky Full Of Stars”. Alguns minutos para as 6 horas da matina e antes de entrar para a carruagem, o Revisor (organização) verifica os nossos dorsais – check-in.

Há grande entusiasmo, nervoso miudinho, rostos fechados, caras alegres para esta longa viagem. Fala-nos o Revisor que de Manteigas até à primeira paragem na estação do Vale do Rossim será “Da subida ao Fragão do Corvo, atravessando o bosque, abre-se a vista a este incrível Vale do Rossim. Ventoso e calmo. Gelado e quente. Lago de muitos amores. Dos nossos. O Estrela Grande Trail atravessa-o… depois de 8.48 quilómetros, vencidos 830 metros de subidas, a 1435 metros de altitude.”
Sempre a escalar, abandonamos a zona rural de Manteigas e entramos num bosque, apertamos o botão play nature, não há auscultadores artificiais mas sim naturais, damos ouvidos, por entre os nossos passos escutamos a sinfonia da natureza… Ainda não são 7 horas, e acordamos ao som dos pássaros que cantam no seu banho matinal, é assim até ao Vale do Rossim… e à medida que vamos distanciando da vila, debruçamos sobre a janela da nossa carruagem e assistimos à beleza do vale de Manteigas. A poucos metros do Vale do Rossim, bate-nos nas costas o sol, para dar luz a maravilha deste local. Não me apetece correr nem andar, fico confuso e apenas com uma certeza, por ali quero estar…

Resta-nos passar devagar, para não perturbar o silêncio
Partimos do Vale do Rossim em direcção a Loriga, atendemos novamente o Revisor “Do Vale do Rossim, atravessando a Nave da Mestra, atinge-se o alto deste Vale Glaciar de Loriga.
Abrem-se ali as portas de um dos mais preciosos museus naturais do mundo. A biodiversidade é imensa. Aqui, o glaciar arrastou-se cravando à passagem a vida há mais de 20 mil anos. Ao lado, mesmo ali à vista, o planalto da Torre, por onde vamos mais tarde regressar. Por agora seguimos a linha d’água da ribeira de Loriga, feitos 20.38 quilómetros do Estrela Grande Trail a 1756 metros de altitude. Atravessamos a Lagoa Serrano, o Covão do Boeiro, a Lagoa do Covão do Meio. Somos pequenos nesta Garganta de Loriga que nos engole. Resta-nos passar devagar, para não perturbar o silêncio.”
Com o escutar do Revisor, passamos a apreciar e sentir a nave mestra. Sentimos uma formiga a invadir um pavimento enorme, um planalto de grandeza. Local que de inverno se veste de manto branco para no verão se despir na sua pele natural aonde se funde monstruosos blocos granítico com a verdura e vegetação rastejante.
Visão ao longe e atingimos a Torre, é ali que queremos chegar, mas mais tarde. Encolhemos a barriga e ombros e descemos a fenda da nave mestra, um rochedo enorme que dá abertura à casa do Dr. Juiz… Mais uns longos metros e por fim chegamos à garganta de Loriga, a nossa segunda estação.
Matamos a sede, e não queremos perder tempo, subimos a escadaria e temos um patamar para deliciar as águas da Lagoa do Covão do Meio. São águas limpas e pálidas à luz do sol que irradia a minha silhueta, é como o fotógrafo que me retrata.

A Suíça Portuguesa – Loriga
Continuamos pelo vale da Garganta de Loriga, e deparamos com um cenário de tapete verde por entre duas paredes graníticas enormes, somos pequenos.
Mais à frente, somos servidos por uma varanda com uma vista sobre Loriga e arredores, é uma imagem que retemos deslumbrante. Por entre trilho técnico, damos um mergulho, com cerca de 1400 metros de desnível negativo, até à vila de Loriga. Pois o calor começa a apertar na chegada a Loriga, a nossa suíça portuguesa e a terceira estação. Aumenta o volume, e ora ouçamos o Revisor “Cruzado o primeiro Vale Glaciar, abre-se à vista Loriga, a quem pertence. Somaram-se 29,55 quilómetros deste Estrela Grande Trail, desceram-se 1462 metros que o corpo já sente bem. Esta Suíça portuguesa, couraça dos montes Hermínios, oferece água fresca para refrescar, banhar e deleitar. Custa não ficar.”
Por entre a calçada, cavalgamos pelo centro da vila, dá para perceber que estamos num lugar encantador e com história. Não há tempo a perder, e rapidamente entramos num trilho, e que trilho!? Na sombra de trilho serrado, de arvoredo robusto me espreita o sol… No seu seio acalma atmosfera quente, é o nosso ar condicionado natural. Adiante, e até à freguesia de cabeça, de braços dados, acompanha-nos uma levada, dá para acalmar a temperatura do nosso radiador antes duma longa subida até à nossa quarta estação, Fontão.

O Estrela é assim. Estas paisagens. Esta gente. Esta incrível dureza. E estão feitas as apresentações
Continuamos em direcção ao Alvoco da Serra, escutamos o Revisor “Para quem resistiu à ânsia e ao cansaço, começa aqui o derradeiro desafio.
Vivem ali pouco mais de 400 habitantes, tímidos, hospitaleiros, habituados já a essa gente estranha que nestes tempos se esgueira na Serra montanha acima até à Torre. Estranha forma de passar o tempo. Levassem ao invés as cabras lá a cima ao trilho. Mas não, é isto.
Agora é galgar para quem tem ou não tem pernas o quilómetro vertical desta Serra. Do Alvoco à Torre esperam 1232 metros em 6,25 quilómetros, e já o Estrela Grande Trail soma 52,43.
O Estrela é assim. Estas paisagens. Esta gente. Esta incrível dureza. E estão feitas as apresentações.”

Daqui, vejo os quatro cantos deste rectangular em que vivemos
Controla o fôlego, respira e aspira, paramos por breves segundos e sentamos de costas para a Torre. É momento de deliciar o vale sobre o Alvoco da Serra e toda a cadeia montanhosa em redor, e que cenário! A Torre que se sente, não precisa de esperar por mim de pé. Mais uns minutos e comenta o Revisor “Até aqui chegar, a cabeça ia baixa em penitência. Os olhos no chão, sem horizonte. E o respirar a cumprir compasso, sem parar. Quando as torres se erguem ao longe, são como um altar.
O Estrela Grande Trail trouxe-nos até aqui num trilho que é só seu. Levámos 58,68 quilómetros, subimos 3970 metros. Estamos a 1993 de altitude. Rodámos o olhar. Deslumbramos-nos, abençoados. E agradecemos.
Estamos no ponto mais alto da serra mais alta de Portugal continental. Entre vales encaixados de xisto e granito de Manteigas, Covilhã e Seia, chega-se ao mar com o olhar.” Por fim, atingimos a Torre, daqui vemos as lágrimas de suor que escorreram por nossos corpos. São como as águas que escorrem pelas encostas da serra. Daqui, vejo os quatro cantos deste rectangular em que vivemos. Aqui, vejo que até agora as horas de treino me trouxeram até momentos únicos…

Saímos da Torre, mais uma estação que fica para trás e procuramos o Revisor, “Silêncio. Olhos atentos, levantados, a avisar da surpresa do terreno. As pedras que se confundem com o trilho, a vegetação rasteira que rasga a pele. Baixa-se o ritmo da descida. Segura-se o corpo. À direita tudo é precipício. Guarda-se espaço de quem segue à frente, se o há. E faz-se por demorar um pouco mais. Fotografa-se na memória esta paisagem. Levam-se 60 quilómetros e 4 mil metros de subida de trilhos deste Estrela Grande Trail, mas só o do Major é assim. Por aqui, tudo é espanto.”
Oh Trilho! Por onde me levas…
As sapatilhas continuam a beijar pedra e terra, por aqui, tudo é encanto… Deleitamos sobre o trilho técnico que nos conduz a termos uma paisagem sobre a nave de Santo António. Ali, rapidamente chegamos para rebolar sobre a sua alcatifa verde, desligamos o ar condicionado natural, já o calor fora embora, e abrimos a janela da nossa carruagem para sentir a brisa do final da tarde. Para meu contentamento, me empurra a brisa por esse trilho… Oh Trilho! Por onde me levas… Para onde me levais!?
Aconchegamos à maternidade do rio Zêzere, descemos o vale glaciar e assistimos à primeira sopa do Zêzere, dois dentinhos já nascera. Corremos e corre o tempo, e adiante já o Zêzere dá os seus primeiros passos, já anda… é altura de subir em direcção à próxima estação, a casa de abrigo do poço de inferno. Lá do alto, enche os nossos olhos sobre o vale glaciar que deixamos para trás, e velozmente estamos na próxima estação.

Está quase…
Cai a noite e no interruptor ligamos as estrelas, de igual forma o frontal, fiel amigo que me guia na escuridão.
Descemos rápido, há urgência em chegar a Vale de Amoreira, e por entre trilho técnico beijamos as pedras, contornamos os rochedos, saltamos e pulamos os penedos e andamos em volta do poço do inferno. É noite, não o vemos mas com as suas águas sentimos a sua força e o rugir… Rolamos a grande velocidade, é hora do “redline” por entre trilho junto ao Zêzere, antepenúltima estação à vista.
E depois, temos pela frente uma longa subida, e sobe o balão, sobe que sobe, sobe o balão, é até à torre de vigia. Tomba a ânsia, gera-se as emoções, descarrega-se o cansaço, e sentimos as pernas ainda com fôlego, não há melhor ânimo, vamos! Está quase… Atravessamos a penúltima estação, não há tempo a perder, e continua o balão a subir, sobe e vai a subir, e deixamos de ver o balão, haja alegria em rosto de criança, É só descer até Manteigas!
Invade os nossos olhos pela escuridão dentre dum bosque que não nos engana, é encantador… É só descer até Manteigas!
Batemos à porta da vila, silencio, os ponteiros já largos minutos atravessaram as 4 horas da manhã. Encontramos as ruelas despidas, as janelas silenciosas, as paredes não falam, apenas escutam o galgar dos meus passos, até que por fim a calçada da meta ferve, está ali… e cruzamos a nossa Estrela.
Sentamos no tapete verde da meta, junto à Estrela e de costas para o cenário, somos sós. Não temos a presença da família, amigos nem equipa, mas estão comigo. Sinto o coração preenchido, três dígitos atingido, e cai as lagrimas, entre mim, são lagrimas de felicidade e vida…
Missão cumprida!
E os verdadeiros gladiadores foram.
Estrela Grande Trail

O primeiro lugar foi para João Rodrigues a representar os Amigos da Montanha, que cortou a meta após 14h03m47s de prova. Pouco depois chegava o francês Gregóire Curmer da Salomon França, para arrecadar o 2º lugar com 14h23m48s. O pódio ficou fechado com Gabriel Meira – EDV-Viana Trail que terminou a prova após 14h55m28s. João Rodrigues referiu que “Consegui cumprir o meu principal objetivo: terminar. O segundo objetivo são as classificações, mas o mais importante de tudo é ter conseguido terminar uma prova de superação como esta que encontramos na Serra da Estrela”.

Natércia Silvestre obtém o pleno. Na prova feminina não houve muitas oscilações de posições e, desde o início, o pódio estava desenhado. A vitória feminina era previsível e Natércia Silvestre voltou a cortar a meta em primeiro lugar. A atleta participa na EGT desde a 1ª edição e vence a prova rainha desde então. Natércia liderou a prova do princípio ao fim e por volta da meia-noite cortou a meta, após 18h34m45s. O 2º lugar feminino foi conseguido por Mariana Ballester que chegou 4 horas depois de Natércia Silvestre. O 3º lugar foi arrecadado por Ana Cristina Miranda com 23h02m51s.
Estrela Orion Belt

Por volta da hora do almoço os primeiros atletas da Estrela Orion Belt, a prova de 49 km e 2500 m D+, começavam a chegar. Carlos Sá e Guilherme Lourenço foram os primeiros a regressar a Manteigas após 5h06m06s em prova. Os atletas cruzaram a meta lado a lado numa demonstração de fair play que tão bem caracteriza esta modalidade. Guilherme Lourenço já não era um estreante na EGT, no ano passado ficou em 2º lugar na versão mais pequena desta prova, mas Carlos Sá só este ano foi conhecedor dos trilhos marcados pelo seu amigo Armando. O atleta, visivelmente satisfeito, elogiou o traçado, a marcação da prova e os abastecimentos. André Duarte – ATR-Algarve Trail Running – 5:06:57 fechou o pódio.

Em femininos, a conhecida Lucinda Sousa, foi a vencedora com 6:26:11 – Gondomar Futsal Clube, seguida de Isabel Boavida – 6:55:21, 3ª Albertina Valada – 6:58:24.
Estrela Taurus

Miguel Reis e Silva foi o primeiro a cortar a meta da prova de 26 km com 1300 metros de desnível positivo. O atleta da Salomon Suunto Portugal regressou a Manteigas 2 horas e 13 minutos e 46 segundos depois de ter partido. Miguel, apesar de já conhecer o percurso, não tinha muitas expetativas em ganhar pois o tempo para treinar tem sido escasso. “Neste momento os meus volumes de treino são metade do que eram no ano passado e estas provas são sempre uma incógnita pois nunca sabemos como o corpo reage. Desde o início que tentei manter um ritmo certo e foi a melhor estratégia.” Mesmo assim o atleta fez-se ao caminho e bateu Pedro Ribeiro – 2:15:35 – Caracol Trail Team que ficou em 2º lugar e Nelson Graça – 2:16:01 – que fechou o pódio com 2h16m.

A primeira mulher a chegar foi a nossa Daniela Russo, da ORALKLASS – AMIGOS DO TRAIL, que fez a prova em 2:44:15, seguida de Inês Jordão – Monsanto Running Team, com mais 17 segundos – 2:44:32 e por fim a nossa Nádia Casteleiro, ORALKLASS – AMIGOS DO TRAIL com 02:53:17.
Estrela Ursa Minor
A prova mais pequena do EGT, teve Pedro Sabugueiro – 1:13:15 – Runners Clinic, como vencedor. Hugo Pereira – 1:23:07 – CMM – Escaravelhos Team e Daniel Baptista – 1:24:53 – CA Barreira, completaram o pódio
Em femininos a vitória foi para Eliana Silva Pereira – 1:51:02 – individual, seguindo-se nos restantes lugares do pódio Catarina Costa – 01:53:49 e Sónia Barros – 01:56:42, ambas a representar a equipa do Ai Nós Jamor.
ORALKLASS – AMIGOS DO TRAIL, sempre presentes e com pódios.
A nossa equipa ORALKLASS – Amigos do Trail, mais uma vez presente numa grande festa de trail com a presença das grandes atletas de pódio, a Daniela Russo e Nádia Casteleiro. Dos homens, a presença do Francisco Figueiredo, Sérgio Anunciação, Sérgio Suzano e Nuno Sousa. Participação nas três maiores distâncias, parabéns a todos, fantástico.
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Texto: Nuno Sousa
Fontes que contribuíram para a elaboração deste artigo: Inspiração do seu autor Nuno Sousa / Estrela Grande Trail – Telmo Dourado / Ana Águas – Salomon / Elisabete Rocha – Amigos da Montanha
Fotos: Miro Cerqueira | Prozis