A minha prenda de aniversário “Uma ultra, a primeira”

Aniversário

A minha prenda de aniversário “Uma ultra, a primeira nos 45 kms da Ultra Triho dos Reis

Uns dias antes do meu aniversário, a minha filha disse-me:

– O pai vai-te dar uma prenda que eu não sei se vais gostar, é brutal mas assustadora. E eu perguntei: Tem a ver com água? Ela apenas sorriu.

O Paulo tinha-me inscrito nos 45 kms do Ultra Triho dos Reis com quase 2500 metros de subidas, iria ser a minha 1ª ultra.

Nas duas semanas seguintes passei por varias fases, deixei de ter controlo no meu corpo, no meu pensamento… os nervos, o medo e a incerteza apoderaram-se de mim, quanto mais se aproximava a data pior dormia, ate sonhava que corria. O nosso corpo é uma maquina com vontade própria por vezes.

Ana Alves

Ultra Triho dos Reis

Partimos de véspera para Portalegre, choveu a viagem toda ou seja chovia há 5 dias e apesar de darem melhorias para domingo cada vez me sentia mais angustiada. Já não bastava toda a minha ansiedade e inexperiência ainda iria fazer uma corrida tão grande molhada e cheia de frio (sofro muito como frio).

Levantamos o dorsal, trocámos umas palavras com a organização, aproveitamos uma paragem da chuva e fomos dar uma volta pela cidade para descomprimir.

Mal dormi, os nervos e a chuva que caía fortemente despertaram o sono. Ás 6h50 levantamo-nos, era necessário tomar um pequeno almoço reforçado, ultimar pormenores e ainda fazer um curto aquecimento.

Já na rua verificámos que as nuvens se tinham afastado e apesar das previsões não estava muito frio, trocámos de roupa, verificamos o material todo e dirigimo-nos ao Mercado Municipal.

Que frenesim, dos 2 mil atletas, 600 iam fazer a ultra, era altura de cumprimentar caras conhecidas, tentar sorrir para as fotos e …dei por mim a chorar. Olho para o Paulo que se mantinha tranquilo e ele deu-me a mão e disse: é um desafio, não uma corrida, vai tranquila, estarei sempre ao teu lado.

A minha cabeça estava a mil, os nervos não me largavam e só me apetecia fugir dali. Toca o telefone , era a minha filha para nos desejar boa sorte… a hora aproxima-se, soa a buzina e lá vamos nós!

Começou a minha prenda de aniversário

A corrida começou aos cerca de 500m de altitude, nunca imaginei que essa pequena altimetria fizesse tanta diferença, nunca tinha feito um treino a essa altura. A minha Arrábida acaba nos 499 metros e ali já estava nos 500.

Comecei-me a sentir muito cansada com uma respiração demasiado ofegante para o normal, subimos em direcção á Escola Pratica da GNR e já ia com os bufes de fora… meu Deus… já só faltam 43 km disse alguém em ar de gozo!

Até aos 16 kms foi sempre a subir, trilhos lindos, alguns singletracks e alguma lama, até que chegamos há 1ª subida que ia até aos mil metros, pôs-nos a todos a fazer “vénia à rainha” como quem diz a subir de gatas… e começamos a ser ultrapassados pelos atletas dos 25 kms que tinham começado a prova mais tarde e que vieram atrapalhar ainda mais.

As caimbras nos gémeos eram brutais e comecei a temer o pior. Fui sempre seguindo as indicações do Paulo, bebe água, toma os sais, respira, põe os pés de lado para não escorregares, pisa as pedras onde estiver mais sujo, baixa as costas, respira, ajuda com o bastão, agarra os ramos das árvores… Por vezes dizia -Porcaria, … já estamos à queima, já não vamos ter tempo para descansar no abastecimento.

Nos dois primeiros abastecimentos, ou seja, em 3 horas, comi 3 pedaços de banana e água, a fome era muito pouca e o corpo não reagia bem aos alimentos, apenas pedia água, muita água.

km 30 era a descer ??

O Paulo disse para não me preocupar com o tempo pois a partir do km 30 era a descer e recuperávamos… Km 30?? Eu sei lá se ainda estou viva ao km 30… Até aqui tínhamos vindo com a Catarina Dabell de Mesquita, uma senhora mais velha que eu, mas uma jovem a correr, com muitas ultras feitas.

De volta ao trilho os nervos e o cansaço começam de novo a apoderar-se de mim, as subidas eram uma constante e sempre que o Paulo dizia “ali á frente já desce” era uma descida apenas de alguns centímetros… e aparecia mais uma e outra subida, as descidas curtas e rápidas eram pelo meio de pinheiros, pedras e uma ou outra linha de água.

Aqui apanhamos boleia da Paula Batalha e do Zé e fomos conversando das nossas experiências enquanto subíamos e descíamos… estávamos a 400 metros do 3º abastecimento quando começo a sentir-me mal, parecia que tinha falta de açúcar no sangue.

Não estou bem, estou mal disposta, sinto me esquisita, já não tenho água no cantil (e estou farta… pensei eu) eis que aparece um voluntário que diz é só mais uma voltinha antes de irem comer uma bifana… e começamos a subir outra vez.

Infelizmente as fitas levaram-nos cada vez mais longe serra acima, faltavam 2 kms, por isso seria mais 1 km a subir e depois descer para o abastecimento que tínhamos visto a meia dúzia de passos.

O caminho era próprio de cabras e sim tínhamos passado por elas, umas pedreiras de subir de joelhos onde os bombeiros estavam a dar apoio moral, uma descida com o auxilio de cordas e pumbas lá vai ela sujar a roupinha e cair de rabo no chão.

3º PA – Algumas desistências

3º PA, 24 kms 05h00 de prova: Engulo dois cubos de marmelada e finalmente sento-me ao sol… bebo uma coca-cola e como uma deliciosa bifana, talvez a melhor que alguma vez comi…ou era a fome que era muita??

Ali houve umas quantas desistências, inclusive um atleta com hipotermia… e o Paulo apressa-me que está a ficar curto. Pergunto aos moços da organização se esta parte vai ser difícil ao que eles respondem: um bocadinho. Sabíamos que dos seis kms ate ao próximo abastecimento, dois deles seriam em subida quase vertical…

Saímos a correr para recuperar algum tempo… o corpo começou a reagir melhor pois estava alimentado, mas o cansaço era cada vez maior… estava no meu limite…nunca tinha corrido mais que 27km e muito menos com esta altimetria… mais umas ribeiras e uns trilhos espectaculares e avistamos do outro lado da serra a subida que nos esperava… era até as ventoinhas. Malditas ventoinhas?

Quem inventou ventoinhas no cimo de serras muito altas?

Quem inventou ventoinhas no cimo de serras muito altas? Dois kms quase verticais e a organização ainda colocou umas plaquinhas sarcásticas a encorajar “Acredita”!

O Paulo olha para mim dá-me o segundo bastão e diz-me baixa as costas, respira e anda é já ali e la em cima tem o controle… As dores musculares eram imensas, nos gémeos, nas canelas, nos adutores, as unhas dos dedos dos pés, até o peito ( . )( . ) me doía!

Mas porque é que eu me meto nisto?? A meio da subida olho para trás e baixo um pouco o corpo para relaxar vejo aonde já tinha estado, do outro lado da serra e parece que ganho forças para subir o que falta.

Subida concluída e mais uma corridinha de 500 metros até um belo café delta e uma boleima. Sentei-me meio minuto. Aqui havia a primeira barreira horária e saímos 5 minutos antes do limite.

4º PA – 31 kms estavam percorridos

4º PA, 31 kms 06h55 de prova: Tínhamos agora 1h20 para fazer apenas 8 km, o Paulo apesar de dizer que era curto dizia que chegava, era sempre a descer até ao 5º PA.

Saímos em passo de corrida e durante 2.5km foi rápido até chegarmos as ribeiras… e se até aqui tinha havido alguma dificuldade com as pedras, a lama, subidas e pinheiros caídos, daqui para a frente tudo piorou.

O que seria a parte mais fácil revelou-se a parte mais difícil, começava a parte técnica da prova, o Paulo estava desolado não contava com esta maldade, sabia que ia dificultar a minha progressão.

Um sobe e desce constante por pedras, morros, cordas, rochas que não conseguia subir sem me apoiar nos joelhos, um ziguezaguear da esquerda para a direita na ribeira, mais cordas, arvores caídas… mais cordas, pedras, ribeiras e começamos a ver goradas as hipóteses de chegar dentro do limite apesar de irmos a ultrapassar alguns atletas.

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5º PA – Seguir por nossa conta e risco

5º PA 39 kms 08h25 de prova: Finalmente chegamos e fomos informados que a barreira tinha fechado há dez minutos. Éramos os primeiros atletas a ser barrados.

Foi desolador, por mais que já esperássemos, nunca pensámos que a parte mais facil deitasse tudo a perder, tinha sido inglório. Disseram-nos para aguardar pelo autocarro para nos levar de volta a Portalegre… Olhamos um para o outro e o Paulo disse – vais terminar a tua 1º ultra a bem ou a mal!!

Anoitecia rapidamente e o frio fez se sentir de forma agreste… mas bolas, fomos para fazer 45 km, prometi á minha filha que iria tentar não desistir.Tínhamos o track, tínhamos frontal e seguimos por nossa conta e risco.

Dei por mim a correr ainda com mais força, faltavam agora menos de 6 km, demos as mãos e lá fomos em direção ao Mercado Municipal pela noite ja marcada.

Atravessei o Portal da chegada para a foto da praxe, tinha conseguido, embora não fosse oficial, pois falhei por menos de meia hora, mas as minhas pernas marcavam 45.600km. A sensação de dever cumprido, as lagrimas de alegria e emoção, o abraço emocionado ao Paulo.

Ao atravessar o Portal tudo ficou para trás

Paulo e Ana Alves

Ao atravessar aquele Portal tudo ficou para trás, as dores, o frio, tinha conseguido fazer 45 km. Não cabia em mim de emoção. Se vale a pena pormo-nos á prova? Testar os nossos limites? Ahhh sim claro que sim… para que serve tanto sofrimento? Para mostrar que estamos vivos, que somos capazes, que nos sentimos vivos!

Quando cheguei ao balneario contei a Paula a minha história que apenas tinha feito dois treinos de não mais de 18km na Arrabida e da minha “inveja” pelas mulheres do Trail, disse-lhe admiro-vos muito, adorei de coração a experiencia, mas isto não é para mim… e a Paula Riu-se… Na terça feira disse ao Paulo: quando houver uma ultra assim para o mais fácil inscreve-me, preciso de me desforrar…

Porque corremos? Para quê passar por momentos tão duros? Para que chegar aos limites? Isso não se explica, sente-se! Apenas e só!

Crónicas de uma esposa / assistente / enfermeira / massagista / motorista / mentora

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Texto: Ana Alves
Fotos: Paulo Alves

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