Não é a corrida, são os trilhos! É o lema do evento

trilhos

Foto: Fotos do Zé

Não é a corrida, são os trilhos! É o lema do Mondego Ultra Trail decorre na Freguesia de Torres do Mondego e Freguesia de Ceira apresentando caraterísticas que lhe permitem incluir-se na modalidade de Skyrunning, mais concretamente os 50 quilómetros na vertente de Ultra Skymarathon, os 22 quilómetros na vertente de Skyrace e Troféu Juventude a que acrescem o Mini Trail de 10 quilómetros e a caminhada.

Para nós, a primeira prova após o dolce far niente das férias. Confesso que o nervoso miudinho/ansiedade se apoderou de mim muitos dias antes da prova. Sabia que seria uma prova dura e sabia que não tinha treinado nada e que continuava sem treinar o suficiente para uma prova destas. 22 quilómetros, 1400 de acumulado.

Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

As críticas que ouvi sobre este trail não foram as melhores das 3 edições anteriores. Mas, teimosa como sou, queria ir, criar a minha própria opinião.

Pouco mais de uma semana antes da prova, deixei uma gaveta cair em cima do dedo grande do pé. Perfeito. Ponderei não ir. Contactei a organização no sentido de já não ir. Alternativa que me foi negada na vertente de não restituição do valor da inscrição a partir de dia 1 de setembro. Azar o meu, “escolhi” dia 6 de setembro para me magoar.

O dia da prova

Toda a logística no dia deste trail foi diferente. O Pedro partiu ainda eu dormia uma vez que os autocarros para a distância que ia fazer (50 quilómetros) partiriam, pelas 6.30 horas, da Praia Fluvial de Palheiros e Zorro, local da meta para Ceira, local da partida, pelas 7.30 horas. Também o do Mini Trail e a caminhada partiram de Ceira. A minha prova partiu apenas às 9.30 horas.

Pedro Lopes – Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

Registo da prova dos 50 kms pelo Pedro

Bem….o que dizer sobre esta prova? Que me levou aos extremos? Que quase me arrumou? Que demonstrei ser um duro de roer? Que a palavra desistir não faz parte do meu vocabulário? Hum….

Em conversas sobre trails, provas, trilhos, dureza veio à conversa o MUT17 onde muitos dos meus amigos participaram e todos diziam que a prova era muito difícil e dura.

Ora bem como eu costumo dizer “isto é para homens de barba rija e mulheres de bigode” toca a agendar o MUT18 com a minha cara metade.

Setembro, fim das ferias, fim dos exageros e estragações… toca em contagem decrescente começar a tentar preparar o MUT18. Pelo que dizem vai dar-me muito que fazer.

Pedro Simões – Foto: Fotos do Zé

Assim sendo, em contra relógio, lá fui tentando preparar-me da melhor maneira possível mas tinha a perfeita noção que para aquela prova não iria nas condições consideradas normais para um desafio daqueles trilhos dos 50kms, 3000D+ e calor esperavam-me pelas encostas do Mondego.

Chegado o dia da prova. Lá saí eu de Albergaria até à Praia Fluvial de Palheiros e Zorro para levantar o dorsal e seguir de autocarro para Ceira. Confesso que não gosto muito de andar de autocarro, mas parece que está na “moda” agora. À chegada à praia encontro um praticante desta modalidade também de Albergaria. O Ricardo Pinhão que vinha com um amigo (desculpa, não sei quem era). Também vinha aventurar-se nos trilhos dos 50kms.

O relógio marcava 7.25 horas e um membro da organização fazia os últimos avisos em que, lembro-me bem (mas parece que depois durante a prova esqueci-me), um deles foi para que geríssemos bem as nossas energias, porque a prova iria ser longa e dura e que os primeiros kms iriam ser muito rolantes.

Bruno Gonçalves – Foto: Fotos do Zé

Partida para os trilhos

7.30 horas aí vamos nós por lá a baixo. Ainda troquei umas palavras com o meu conterrâneo, mas depois deixei-me ir pela descida inicial e acelerei um pouco.

Os primeiros 10 kms dos trilhos foram muito rolantes (tal como o sr. da organização avisara) só que eu não sei bem porquê deixei-me ir embalado como que se o mundo fosse acabar naquele dia (e quase que ía). Fiz os 10kms iniciais em menos de 55 minutos. Estava a ir num ritmo bom com muito ânimo e vontade mas… de repente, depois de tanta facilidade… aparece-me uma parede na vertical onde o piso eram pedras soltas (a prova iria começar agora) à qual chamam a subida do Milhafre.

Foto: Fotos do Zé

Bem, e que subida! Eu dava dois passos para a frente ou melhor dizendo para cima e um para trás. Meu Deus, que subida estupidamente difícil! Parecia que não saia do mesmo sitio. Demorei cerca de 20 minutos a fazer esse km. Só que para ajudar à festa demorei mais 20, 22 e 19 minutos para fazer os 3kms seguintes. Que brutalidade! Bem que tinha sido avisado, mas agora já não podia fazer nada. Aqueles 3 kms deram cabo de mim.

Perdi algumas posições, perdi alguma confiança e nem a travessia do rio me ajudou a recuperar o fôlego porque depois daqueles 3 kms àquele ritmo fiquei desnorteado. Fiquei mesmo a perceber todos aqueles comentários e avisos dos meus colegas que já tinham feito esta prova.

Foto: Fotos do Zé

Puro sacrifício

Nos kms seguintes ainda consegui impor algum ritmo para vencer alguns kms mas não consegui aguentar muito mais.
Subidas e mais subidas e depois dessas vinham mais umas subidas. Deram-me uma coça que não me lembro de alguma vez levar. Fizeram-me caminhar kms e kms seguidos pelos trilhos com vontade de desistir. Estava um calor infernal e a vontade de correr não era nenhuma, estava em puro sacrifício.

No abastecimento dos 32kms, antes do abastecimento com a barreira horária (que era aos 37 km) encontrei alguns atletas que se queixavam das mesmas subidas que me arrebentaram e também do calor e como iam a caminhar decidi acompanhá-los. Estava desmoralizado, sem vontade nenhuma e ainda por cima com vontade de parar com aquele martírio que estava a sentir.

A certa altura reparei que se continuássemos naquele ritmo devido ao atraso que já levávamos não iríamos conseguir chegar ao próximo abastecimento dentro da barreira horária. Foi então que depois de algum tempo de conversa decidi arrancar pois, lembro-me de ter trocado umas palavras com um atleta que fazia parte do grupo onde eu estava incluído que se não chegássemos a tempo da barreira horária… continuariam na mesma o resto do percurso.

Emanuel Machado – Foto: Fotos do Zé

Barreira horária… 

Ora bem… aquilo deixou-me a pensar. Continuar o percurso, mas sem contar para nada? Que interesse tem? Nunca desisti de nada, não vai ser hoje! Foi então que decidi deixar o grupo e dar corda ao sapatos, neste caso às sapatilhas, arranjei dois “bastões” naturais e lá fui eu numa corrida contra o tempo e contra mais subidas que estavam à minha frente.

Depois de muito esforço e sacrifício, volto a dizer sacrifício consegui chegar ao km 37, 10 minutos antes do tempo limite! Caramba, consegui! Já só faltam 14 kms! Nunca me tinha acontecido quase ficar barrado numa barreira horária.

Romeu Fernandes – Foto: Fotos do Zé

Lembro-me de ter ajudado uma senhora que participava na prova dos 22km. Ela queixava-se dos dois joelhos. Deixei-lhe um restinho de um balsamo que faz milagres para as pessoas acima dos 39 anos. Aquele abastecimento fazia-me lembrar o muro das lamentações pois todos se queixavam da dificuldade do percurso e do calor.

Ora abastecido e já um pouco mais moralizado voltei a pegar nas minhas duas bengalas (sem elas não tinha conseguido, isso é certo) e continuei a subir e subir e mais subir, ainda consegui apanhar alguns atletas que me tinham passado kms atrás. A faltarem 8 kms para a meta já se via a ponte lá em baixo onde atravessávamos o rio para a praia fluvial….

Estava confiante que iria conseguir terminar esta prova só que o tempo final iria ser o meu pior registo de sempre, mas aqui o importante era ter vencido aquela vontade enorme de desistir. O facto de ter agarrado em dois paus e ter começado a correr por aquelas subidas íngremes deixa-me orgulhoso. Aquela prova era dura de roer, mas provei-lhe que eu também era!

Foto: Fotos do Zé

Meta à vista… só que não!

Bem, voltando aos trilhos, aos 8 kms finais e com a praia à vista, começámos a descer (finalmente) e descer bem… durante alguns kms.

A meta estava cada vez mais próxima. No meu relógio já marcavam 49kms a meta estava do outro lado do rio…quando de repente… pumba! Uma subida longa!!

Opa o que é isto (disse eu para mim e para quem estava naquele local)? Pois o meu tom de voz deve ter ultrapassado os valores legais permitidos!! Devem estar a brincar… continuava eu a pregar!! Isto não se faz!! Estavam a dar-nos um rebuçado (que era a meta) e depois tiram! Isso não se faz!!

Voltámos a subir e ainda por cima no sentido oposto à meta… o que me deixou mesmo irritado!! Eu já ia em sacrifício em dor e suplício apoiado nas minhas amigas muletas, já não aguentava mais!

Foto: Renata Vinagre

Mas pronto, não tive outro remédio… e depois de ter subido ainda 1,5km cheguei à descida final que iria dar à ponte em que atravessávamos para a praia fluvial onde se encontrava a meta…..e a minha super atleta…… (like always).

Resumindo futebolisticamente: praticamente entrei a ganhar no jogo pois marquei um golo muito cedo depois sofri um golo logo no início da segunda parte, ao minuto 89 sofri um penalti que foi defendido…, e num contra ataque aos 91 minutos marquei o golo que deu a vitoria. Resultado final: MUT18 1- Pedro Lopes 2

Que fique registado, voltarei para vencer, mas sem sofrer golos!

Foto: Fotos do Zé

O meu registo da prova dos 22 kms

Fui até ao local da prova com os atletas Sérgio Lourenço, Carlos Cunha, João Amândio e Bruno Casal.

Chegados lá, caminhada até à meta e secretariado para levantar os dorsais. A Praia Fluvial é de facto muito agradável e bonita.

De salientar que o controlo zero foi dos mais rigorosos que já vi tendo conhecimento de várias pessoas que foram desde logo desclassificadas por falta de material obrigatório.

Carlos Cunha, João Amândio e Bruno Casal – Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

Partimos para os trilhos e começamos desde logo a subir, cerca de 1 quilómetro e meio de estrada. Muita gente incluindo eu mesma a caminhar logo de início, quase. Segue-se descida por estrada também com muitas pedrinhas pequeninas que me apavoram sempre porque um pé mal posto e dá direito a cair e esta foi também a prova em que mais vezes caí… perdi a conta, um pouco mais a frente apanhamos um single track, nova descida e aos cerca de 3 quilómetros apanhamos trânsito, numa zona perigosa uma vez que era single track, em que no chão apenas cabiam efetivamente os pés que, mal colocados dariam origem a queda pela ravina a baixo. Lá bem em baixo, o Rio Mondego.

Silvia Gomes – Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

Conversar, apreciar a paisagem, rir, ouvir umas piadas

Estes trilhos deram para conversar, apreciar a paisagem, rir, ouvir umas piadas. Não sei se haveria alguma possibilidade mas deixo o recado à organização de pensar aqui numa medida de segurança porque de facto, este troço de percurso era perigoso. Descemos só para voltar a subir.

Aqui e antes da cereja no topo do bolo da prova tivemos uma descida com pedras de xisto que até embalava, dávamos um passo e descíamos dois metros, resvalava imenso, muita pedra solta. Só para nos preparar para exatamente o mesmo piso mas… a subir.

Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

Ainda antes dos 5 quilómetros aparece a dita, a famosa, a esperada subida do Milhafre… Começo a achar que a cada prova que faço, as subidas são piões mas esta… Oh God… sabem quando estamos a escalar, metemos um pé e resvala e voltamos dois passos atrás?

Pronto, foi isto a subida toda, as pedras estavam suspensas em nada. Foi um pedido de desculpa constante aos atletas que vinham atrás e iam levando com as pedras que iam resvalando a cada nova tentativa de dar um passo.

O percurso inteiro foi isto…subir para descer. E que subidas. Eu, pessoalmente, fui fazer uma caminhada, nunca caminhei tanto numa prova, ou melhor, nunca corri tão pouco numa prova. Valeu-me, com sempre, arranjo sempre um “anjinho da guarda” em cada prova, o senhor Rui Santos, da equipa Blackbulls / Clube De Condeixa que me deu força, me ajudou, puxou por mim, esperou por mim, conversou comigo mas também à Paula Cruz pelo exemplo que deu de garra, coragem e perseverança e ao Tiago Rocha da EDV Viana Trail.

Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

Passagem do Rio

Não posso não referir a passagem do rio que, em circunstâncias normais, me colocaria em pânico mas que aqui me soube pela vida, serviu como injeção de energia. A água estava fresquinha para contrastar com as temperaturas que não paravam de subir junto com as horas que continuavam a passar. Só os quilómetros não somavam nem a meta se via.

Aos 10 quilómetros levava 3 horas. Lembro-me de ter receio de não chegar a tempo à barreira horária: 15,5 quilómetros – 4 horas de prova. Mas felizmente, consegui.

Passámos por muitos locais onde, notoriamente, teria havido rio mas que secara. Muito sobe e desce calhaus. Muito escorregão. Muito bate cu.

Claro que, com tanta subida e com tão pouco treino, as caibras, as malditas, tinham que aparecer… aqui agradeço à atleta Ana Rodrigues da equipa C. B. Viseu Running Team que me deu uma saqueta de electrolytes da Gold Nutrition mas a todas as meninas que passando por mim se mostraram solidárias e se ofereceram para ajudar.

Ao longo da prova, dos seus trilhos vi muitas figueiras, fruto que adoro. Ainda “roubei” uma uva lá de uma vinha, então amoras foi um fartote.

O pessoal dos abastecimentos era espetacular… todos muito simpáticos e atenciosos. Sempre prontos a dar uma forcinha.

Em suma, muito dura a prova a juntar ao muito calor. Terminei a prova apos 5.20 horas o que significa que eram já quase 15 horas quando cruzei a meta, corremos no pico de maior calor e estava mesmo muito calor.

Cheguei e fui-me enfiar no rio e como eu, outros tantos atletas o fizeram. E lá me deixei estar durante bastante tempo.

Depois fui para a meta esperar o Pedro que chegou bem, felizmente.

52 km – 55 atletas a terminar a prova – duas corajosas participaram

Susana Simões – Foto: Fotos do Zé

Feminino

A vencedora foi Susana Simões – EDV – Viana Trail – 08:10:34, seguida de Sara Carvalho – ARCD Venda da Luísa – 10:39:01, duas corajosas mulheres que se superaram e enfrentaram a distância maior do MUT – Mondego Ultra Trail.

Jerôme Rodrigues – Foto: Fotos do Zé

Masculino

Jérôme Rodrigues – EDV – Viana Trail – 05:48:17 foi o primeiro, com os lugares imediatos a serem para Ricardo Silva – EDV – Viana Trail – 06:04:44 e Romeu Fernandes – Tarahumara -06:12:42.

22 km – 225 atletas a terminar a prova

Mário Elson – Foto: Fotos do Zé

Masculino

Venceu Mário Elson – Dr. Merino/4Moove – 02:31:59, seguido de Nuno Dias – Sky CA Barreira – 02:37:38 e Vitor Cordeiro – EDV – Viana Trail – 02:39:07

Goreti Correia – Foto: Fotos do Zé

Feminino

Goreti Correira – EDV – Viana Trail – 03:31:39 a vencedora, Joana Paulo – GRF Benedita – Atletismo – 03:47:57 foi segunda e Diana Elias – Sky CA Barreira – 03:59:35 completou o pódio

10 Km – 118 atletas a terminar a prova

Tuxa Negri – Foto: Fotos do Zé

Feminino

Tuxa Negri -Ginásio Qta do Valbom – Alcochete – 01:04:02 foi a vencedora, completando o pódio, Julia Legkova – Bio Team Run – 01:06:58 e Elsa Soares – Individual – 01:18:31.

Diogo Gomes – Foto: Fotos do Zé

Masculino

Diogo Gomes – Abutres Trail Running School – 00:52:33 foi o vencedor demonstrando o trabalho que vêm sendo desenvolvido por esta escola, Carlos Simões – Associação Recreativa São Miguel – 00:56:56 obteve o 2º e o 3º foi Bruno Gonçalves – GR Vilaverdense – 00:58:34.

Para concluir só dizer, relembrar para 2019 nova edição e para quem gosta de um trail durinho “QB” quanto baste, este é dos bons, é a superação de cada um dos atletas participantes, encontramo-nos lá ??

Foto: João Teixeira (KabazuK Photography)

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Texto: Silvia Gomes e Pedro LopesCATR/Correr por prazer a 2
Fotos: Fotos do Zé / João Teixeira (KabazuK) / Renata Vinagre

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