NELSON OLIVEIRA, 77 MIL KM DE HISTÓRIA
Nelson Oliveira - Foto: Getty Images
A 109ª edição do Giro d’Italia ficará gravada na memória do ciclismo português por várias razões. Desde logo, pelo brilhantismo de Afonso Eulálio, que vestiu durante nove dias a camisola rosa e terminou a prova num extraordinário sexto lugar, conquistando ainda a classificação da juventude, num desempenho que marcou uma nova geração do ciclismo nacional.
Mas, em Roma, houve também espaço para homenagear a consistência, a longevidade e a resiliência de um dos nomes maiores da modalidade em Portugal.
Nelson Oliveira entrou para a história.
O corredor da Movistar concluiu a sua 23.ª Grande Volta em igual número de participações, igualando o registo do polaco Sylwester Szmyd, o único ciclista que, até agora, havia terminado todas as Grandes Voltas que iniciou sem qualquer abandono.
Fonte: Isabel Jesus // OPraticante.pt
23 Grandes Voltas, 23 finais
Uma marca construída ao longo de quase década e meia ao mais alto nível do ciclismo mundial.
Tudo começou na Volta a Espanha de 2011, quando o português se estreou em corridas de três semanas ao serviço da RadioShack, no seu primeiro ano no WorldTour.
Desde então, acumulou um percurso impressionante: dez participações na Vuelta, nove no Tour de France e quatro no Giro d’Italia.
Ao todo, números que falam por si: 480 etapas completadas e mais de 77 mil quilómetros percorridos, o equivalente a quase duas voltas ao planeta apenas em Grandes Voltas.
Pelo caminho, houve ainda espaço para um momento de glória, com a vitória na Volta a Espanha de 2015.
Um Giro longe do cenário ideal
Ainda assim, apesar do feito histórico, o Giro deste ano esteve longe de corresponder às expectativas do ciclista natural de Vilarinho do Bairro, em Anadia.
“A verdade é que, no início do Giro, sentia-me bastante bem e esperava que a coisa até corresse bem. Mas, depois, infelizmente, tive problemas respiratórios e, mais tarde, alguns problemas estomacais, o que me arrastou um bocadinho para não estar a 100%”, reconheceu à agência Lusa.
Mesmo assim, e apesar das limitações físicas, Oliveira manteve-se fiel ao papel que tantas vezes desempenhou ao longo da carreira: o de homem de equipa.
“Mesmo sem a melhor saúde, procurei ajudar a equipa o melhor possível.”
No final, o veterano português cruzou a meta em Roma na 66.ª posição da classificação geral, a 3h38m31s do vencedor, o dinamarquês Jonas Vingegaard.
Olhar para trás para perceber a dimensão do feito
Mais do que a classificação, foi a dimensão simbólica do momento que acabou por sobressair.
“Começo a ter um bocadinho dessa noção. No final, são 23 grandes Voltas e faz-nos voltar tempos atrás e recordar como foi a minha primeira grande Volta e ver as diferenças que há.”
“Realmente, o ciclismo mudou muito, mas sinto-me agradecido por ter chegado até aqui.”
Num desporto onde a exigência física e mental leva muitos atletas ao limite, a capacidade de Nelson Oliveira para atravessar gerações, adaptar-se às transformações da modalidade e manter-se competitivo ganha um significado ainda mais profundo.
“Sei que dei o meu melhor”
O próprio descreveu este Giro como uma experiência de sentimentos mistos.
“Foi um Giro agridoce. Nem bem, nem mal. Estou agradecido, porque cheguei a Roma, não nas melhores condições físicas, mas foi o que se pôde fazer.”
“Por vezes, as coisas não são como nós queremos, são como nós podemos.”
E acrescentou ainda:
“Estou contente por, pelo menos, chegar a Roma são e salvo, sem grandes contratempos.”
“Sei que dei o meu melhor, não me arrependo de nada.”
Recuperar antes de pensar no futuro
Agora, com o Tour de France à porta, Nelson Oliveira prefere, para já, olhar apenas para a recuperação.
“Vou ter um período de recuperação e veremos, depois, como o corpo estará.”
“Agora, não quero ouvir falar de mais corridas para já, porque, quer queiramos quer não, este Giro foi bastante duro, não tanto fisicamente, mas mentalmente, e temos de recuperar bem.”
O português encontra-se de reserva para a prova francesa, marcada para decorrer entre 4 e 26 de julho.
“Não sei se o farei ou não. Saberemos muito em breve.”
O olhar atento sobre a nova geração
Por outro lado, num Giro marcado pela afirmação da nova geração portuguesa, Nelson Oliveira não deixou de destacar o percurso de Afonso Eulálio, corredor que conhece bem dos tempos de treino em conjunto.
“Foi bastante bom e fico contente pelo Eulálio.”
“Acho que é um corredor que soube crescer e soube entrar no WorldTour e o resultado tem-se vindo a ver.”
“A própria equipa confiou nele e bem. Ele soube aproveitar essa oportunidade e está de parabéns.”
As palavras do experiente corredor ganham ainda mais significado quando se sabe que o próprio Eulálio já assumiu que Nelson Oliveira é uma das suas referências dentro do pelotão internacional.
Um legado construído etapa após etapa
Aos 36 anos, o ciclista português continua a escrever páginas importantes da história da modalidade nacional.
Fê-lo sem o mediatismo das grandes estrelas, mas com uma consistência cada vez mais rara no desporto de alta competição: a capacidade de estar presente, ano após ano, sempre ao mais alto nível.
Setenta e sete mil quilómetros depois, Nelson Oliveira continua a pedalar para o lugar que há muito conquistou.
O de uma das maiores referências de sempre do ciclismo português.
Porque há vitórias que se medem em segundos.
E há legados que se constroem etapa após etapa, sem nunca desistir.





