A procura do Corredor de Montanha

A procura é uma coisa normal no corredor de montanha, tal como da maioria dos praticantes dos outros desportos de natureza.

Procura-se montanhas mais altas, provas mais longas, desafios inimagináveis para uns, que outros concretizam como parte normal de mais um Sábado.

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Eu não sou diferente…

No entanto, posso assegurar que nunca procurei a “dureza”, como um fim. Aliás, a quem procura dureza aconselho a ir de cabeça contra a parede, certamente não ficará desiludido.

As corridas e as restantes saídas de Montanha têm aparecido sempre como um caminho natural, onde qualquer dificuldade ou superação, são parte do percurso, mas nunca o seu fim último.
Adoro a Montanha, e as montanhas, gosto de tudo nelas, principalmente, talvez, do silêncio gritante que o eco do vento tem numa parede massiva, cuja sombra se curva sobre nós, como a de um gigante que nos vai segurar ao colo.

Foi por isso que escolhi Marrocos.
É a prova mais remota que conheço, mesmo sendo já aqui ao lado. Quando decidi inscrever-me na prova, não fazia ideia sequer do desnível, tinha uma noção que seria bastante, nem das outras dificuldades, isso veio depois.
Escolhi o Toubkal, na Procura.

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As montanhas do Atlas são o último bastião que separara os povos mediterrânicos do impiedoso Saara. De um lado, o verde, o basílico, a hortelã e as fontes refrescantes, com água a jorrar de pedras brancas banhadas pelo sol confortável, do outro o castanho, a areia que voa em remoinho e fere a pele, a imagem do horizonte torcida.
É a terra do verdadeiro povo livre, os berberes, povo tribal com origens que remontam ao ano 5000 A.C., dominada pela sua joia, o Jbel Toubkal, o monte que olha a terra de cima, dos 4100 metros.

Ir ao UTAT é entrar numa prova de mais de 100kms, com outros tantos participantes. Deixar-me ir pelas montanhas, quase sempre sozinho. Arrancamos de noite, para poder assistir ao nascer do sol, aos 2500 metros de altitude, para, no fim desse dia nos despedirmos acima dos 3000 metros, onde passarei uma das noites mais mágicas da minha vida, vou-me sentir a um tapete de distância de voar pela via láctea, de dizer adeus às estrelas e dar nome a novas constelações.

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Vou pela montanha e não pela prova. Não vou pelo tempo, mas pela progressão, pelas aldeias que se visita, pelos vales verdejantes, encastrados na montanha castanha, como esmeraldas nos cabos dos punhais de latão dos guerreiros berbere, que fizeram a história do próprio vale, em batalhas que imagino.

Tudo o resto é apenas aquilo que eu tenho de ultrapassar para poder viver estes dias. Todas as condicionantes, os 6000 metros de desnível, a falta de abastecimentos, são apenas 3 durante a prova, a famigerada descida dos 89kms, onde passaremos dos 3500 metros de altitude para os 1400, em 4kms sobre pedra solta, tudo isto serão apenas pequenos episódios na aventura.

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O que quero mesmo é estar lá! A sentir as famosas pedras por baixo dos sapatos, a controlar a respiração enquanto subo e a tentar trotar a descer. Quero passar pelos burros carregados, que sobem com uma agilidade de invejar, pelos garotos com fardos maiores que eles às costas e um raminho comprido na mão que imita o cajado que vêm, desde sempre, o seu pai levar, pelas velhotas sorridentes, desdentadas, lindas, que dizem adeus a estes estranhos que passam com roupas esquisitas.

O UTAT é de deslumbrar e já está marcada para 2017, de 5 a 9 de outubro.

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