A VIDA “A CORRER” DA ULTRAMARATONISTA ANALICE

Analice e Cristina Guerreiro

Analice Fernandes da Silva, ultramaratonista, nascida no Brasil mas de coração bem português…

Sempre disse que iria correr até que Deus deixasse e assim foi…

Foi em finais de 1986 que Analice, quase com 43 anos, chegou a Portugal. Para trás deixa no Brasil uma vida de amarguras e dificuldades, desde uma família na qual nunca conheceu o amor, um casamento que não resultou e uma fuga de Esperança (vila onde nasceu) para o Rio de Janeiro onde também só encontrou pobreza e muito trabalho.

Mas nem tudo no Brasil foi mau para Analice… Foi lá que descobriu a sua grande paixão: a corrida…

Aos 37 anos, na noite da passagem do ano de 1980 para 1981, decidiu deixar de fumar e começar a correr, por impulso, como quase tudo na sua vida… Tinha lido num jornal que os pulmões de um fumador precisam de dez anos para recuperar. Logo ali, no calçadão de Copacabana, fez, nessa mesma noite, 16 km…

Tomou-lhe o gosto, nos dias seguintes e durante todo o mês de Janeiro, voltou ao calçadão e correu, correu, correu…

Passado pouco tempo, inicia-se nas corridas organizadas, num circuito de corrida feminino no Rio de Janeiro, promovido pela Avon para celebrar os 25 anos da marca no Brasil, seguem-se depois outras provas onde Analice consolida a sua vocação.

Primeira Ultra com record sul-americano

A primeira prova de 100 Km que faz é entre Uberlândia e Uberaba, no estado de Minas Gerais, onde vence com o tempo de 11h42m estabelecendo um novo recorde sul-americano.

Passados poucos anos, chega o momento de realizar a sua 5º prova de 100 km a qual Analice pretendia que fosse assinalada de forma especial, queria participar numa prova Internacional.

E é isso que a traz à Europa, uma prova de 100 km em Santander, Espanha, que acaba por vencer.

Depois de sentir o cheirinho do velho continente já não volta ao Brasil. E como de Espanha a Portugal é um “pulinho”, chega ao nosso país ajudada pelo embaixador brasileiro em Madrid.

Mas a vida em Portugal também não é fácil, para sobreviver e ter um lugar onde dormir Analice faz o mesmo género de trabalho que fazia no Brasil, limpar, engomar, cozinhar, tudo sem ser paga.

Para se manter em forma, nos seus dias de folga corre no estádio do Inatel, nunca menos de 50km, faz Cais do Sodré – Cascais ou Setúbal – Arrábida – Sesimbra.

A realização de um sonho

Analice e Orlando Duarte

As corridas de longa distância foram o que sempre lhe deu ânimo e começa a ser conhecida pela sua participação nessas provas. Em provas diretas (sem etapas) participou, por exemplo, nas 24H Portugal, no Parque Urbano de Vale de Cambra (onde correu 151 km), nos Caminhos do Tejo (146 km), nas Maratonas de Nova Iorque e de Boston e, em provas por etapas, na Volta ao Minho (385 km) e no deserto do Sahara (250 km). Esta última a concretização de um dos seus sonhos: em 2013, no ano em que completa 70 anos, apadrinhada pelo ultramaratonista Carlos Sá, conclui a Maratona dos Sables, no deserto do Sahara, em Marrocos, prova de 243 Km, onde se sagra vencedora na sua categoria (veteranas F70) com um tempo de 46h 41m 16s, em 669º da geral, em 970 classificados, e 70ª mulher em 143 classificadas, sendo ela a mais velha.

Cassino Ultra Race, uma “pedra no sapato”

Já em 2015 descobre a Cassino Ultra Race, prova de 230km que liga a Barra do Chuí, no Extremo Sul do Brasil, à Praia do Cassino (Porto Alegre). Mais uma vez, com a ajuda financeira de amigos, entre os quais o “grande amigoOrlando Duarte, consegue concretizar mais este sonho. Infelizmente, não consegue terminar a prova, pois devido ao El Niño (designação dada a um fenómeno climatérico que por vezes assume proporções particularmente violentas, e caracteriza-se por fortes chuvas e inundações associadas a um acentuado aquecimento das águas oceânicas) a mesma é cancelada ao fim de 26 horas e quando ela atingia os 126 km. Mas, o facto de não ter conseguido terminar a prova, foi sempre uma “pedra no sapato” de Analice e um dos seus desejos sempre foi voltar a participar nesta corrida e conseguir terminá-la.

Eduardo-Santos e Analice

 

Nos últimos anos da sua vida de corredora, envergava a camisola da Associação Mundo da Corrida o que lhe proporcionava participar em várias provas. Já no início deste ano de 2017, a Associação decide que a Meia da Areia da Costa da Caparica teria para sempre o seu nome e passaria a chamar-se ” Meia Maratona na Areia Analice Silva“.

Ficou maravilhada e os seus olhinhos até brilharam…

Todos os anos, Analice, realizava esta prova juntamente com a sua grande amiga Cristina Guerreiro. Descalças percorriam o areal entre a Fonte da Telha e a Costa da Caparica. Quando Analice soube da intenção do Clube em de dar o seu nome à prova “…ficou maravilhada e os seus olhinhos até brilharam…” afirma Cristina Guerreiro, mentora desta ideia.

Leonor Duarte, Analice, e Cristina Guerreiro

Nesta altura já Analice tinha sido diagnosticada com cancro no pâncreas e restava-lhe pouco tempo de vida. Nos últimos 4 meses de 2016, Analice já vivia entre a sua casa em Odivelas, a casa de Orlando Duarte e a casa de Cristina Guerreiro. Foi difícil para Analice deixar a sua casa e os seus gatos, Kikas e Princesa, mas “a sua saúde já não permitia que morasse sozinha sem uma atenção mais próxima”, esclarece Cristina Guerreiro.

A última prova em que Analice Silva participou foi a São Silvestre de Almada, a 17 de Dezembro de 2016. Depois desse dia ficou definitivamente com Cristina Guerreiro e, após vários exames e análises, o diagnóstico chegou no primeiro dia do ano de 2017.

Passado é passado. A vida é o presente e esperar por um futuro melhor

Numa luta contra o tempo, Cristina Guerreiro, sugere a Analice juntar os amigos mais próximos num almoço, e com a ajuda do Orlando Duarte e do Mundo da Corrida, conseguem reunir cerca de 50 pessoas, “foi como uma despedida, para que ela pudesse ver as pessoas de que mais gostava uma última vez” acrescenta Cristina.

A Esperança não queria voltar. «Passado é passado. A vida é o presente e esperar por um futuro melhor», dizia Analice.

Analice e Fernando Andrade

Homenagem a Analice em São João das Lampas

No passado mês de Fevereiro, Fernando Andrade, Cristina Guerreiro e Orlando Duarte organizam um treino em São João das Lampas para recolha de fundos que ajudassem nas despesas dos tratamentos que Analice estaria a realizar. Na altura da realização deste treino, por infelicidade, Analice tinha falecido à três dias e transformou-se este treino numa homenagem à mesma, cujo artigo pode ser visualizado aqui.

Fernando deu a novidade de que a partir de agora em diante, no dia de Carnaval passará a existir uma prova em São João das Lampas com o nome da Analice, que teve como resposta do público uma enorme e calorosa salva de palmas.

O treino homenagem

Portugal era o seu país, era a sua casa. Em Portugal tinha os seus alicerces”, sublinha Cristina.

A 23 de Fevereiro deste ano, no Hospital de Santa Maria, Analice é levada de vencida pela doença e acaba por falecer…

Não queria enterros nem campas…

Não queria que chorassem por ela: “Não quero nada dessas nove horas…”, replicava várias vezes.

Analice foi cremada e colocada onde desejava passar a sua eternidade…

Mulher guerreira de sorriso enorme será para sempre lembrada por todos nós.

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Texto: Sílvia Maria António
Fotos: Orlando Duarte / Cristina Guerreiro

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