Viúvas do trail, a quanto obriga o trail
Os desportos de longa distância ocupam também longas horas aos seus praticantes. Não é estranho, por isso, ouvir falar sobre as viúvas do ciclismo, da corrida, ou do triatlo.
No meu caso, é gritante a diferença…
Perdeu o marido, sobrou-lhe a roupa.
Como recordação do que eu era antes de começar a correr na montanha sobram camisas que, quando estendidas a secar, têm tamanho suficiente para serem utilizadas como velas de navio.
Acresce ainda que não fui só eu que fui reduzindo, foi também o tipo de roupa que utilizo, por isso, a Sra. Ribeiro sabe que tem de ter cuidado e não deixar sem guarda uns quaisquer calções de ginástica, que eu posso querer apropriar-me deles, principalmente se forem côr-de-rosa!
De qualquer forma, o conceito está aí, e é verdade.
O desporto de longa distância deixa viúvas… Mas serão todas iguais?
Nem pensar!
Existem pelo menos três tipos de viúvas diferentes
Existem pelo menos três tipos de viúvas diferentes, a viúva negra, a viúva alegre e a viúva do além.
A viúva negra é a mais temida de todas as viúvas!
A viúva negra, simplesmente, não aceita a morte da sua cara metade… O trail não existe.
A viúva negra não pode sequer ouvir falar numa montanha, ou numa corrida.
Toda a preparação de alguém que tenha deixado uma viúva negra tem de ser feita em segredo absoluto, calções lavados à mão, às duas da manhã, treinos pela madrugada fora, para a verdadeira corrida ser quando acaba o treino, quase a queimar a hora de ir buscar os filhos e pô-los na natação…
Sempre que se diz em casa de uma viúva negra, que vai haver mais uma prova, o que se segue é um silêncio sepulcral, desconfortável, seguido de uma abrupta mudança de assunto, pela própria viúva “Sabias que a Marta deixou por completo o gluten e emagreceu imenso?”
A viúva negra, não gosta, não se orgulha, e não quer saber do trail.
A montanha roubou-lhe o marido, e não se fala mais nisso.
Do lado oposto da viúva negra está a viúva alegre.
É como aquela mulher que deu o golpe do baú e, efetivamente, o seu velhote rico quina logo depois de passar tudo para o nome dela!
Que sorte, impecável!
“Ah! O trail! Aquela maravilha que me permite ter fins de semana tranquilos”
“Ok, de manhã vais treinar, mas então à tarde ficas com os miúdos e eu vou sair com as minhas amigas, gin tónico, copos que parecem balões, cheios de salada de pepino!”
“Querida, vou ter uma prova de dois dias na montanha!”, ela pensa logo, que sorte, dois dias, sem os miúdos num spa, na montanha…
Mais gin tónico, mas, desta vez, o pepino fica às rodelas nos olhos, rodeados de um creme de argila que ocupa o resto da cara.
Acho que o problema das viúvas alegres não é a montanha, mas o gin…
E, por fim, existem as viúvas do além.
Estas não acreditam que o marido se perdeu para sempre. Acreditam que passou para o lado de lá. E elas querem ir com ele.
Usam as provas como ligação ao lado de lá. Participam, não participando. Vão ficando nos abastecimentos, contactando com o mundo dos mortos, à espera de encontrar o seu próprio fantasminha.
Preparam as provas com o cuidado, o rigor, a seriedade e solenidade de uma sessão espírita…
Desde as coisas com cheiro estranho que têm de ser utilizadas para invocar os seres do outro mundo, aos presentes para dar aos outros mortos-vivos com quem se possam cruzar enquanto não chega o contacto desejado com o seu amado.
O organizador da prova assume a função da médium! Ele é um oráculo! Sabe tudo! Consegue sempre dizer-me onde e quando vou encontrar o meu amado…
Mas é sempre tão fogaz, esse encontro, as mãos roçam-se e ele segue, fica o sentimento, e às vezes o cheiro, quando o encontro é feito no abastecimento da muda de roupa e é a viúva que leva o saco para o carro.
O pensamento da viúva do além costuma ser, “ele foi tão cedo… Tinha tanto para lhe dizer… Nem lhe cheguei a encher os bidons…”
Tudo é ligação à nova qualidade do seu amado, uma medalha, um colete, uma fotografia…
Fora de brincadeiras
Fora de brincadeiras, se há pessoas a quem estarei sempre agradecido, são os seguidores das provas. Maridos, mulheres, amigos, o que for.
A sua preocupação acaba por nunca ser apenas com a pessoa que seguiam e cedo vai-se transferindo para os restantes participantes.
Acreditem que fazem a diferença. Ter alguém que sabe o que estamos a passar e a pensar e que puxa por nós é fantástico.
Mesmo que seja só um “olá”, dito de fora, e durante um segundo saímos da prova e daquele lugar escuro onde a nossa cabeça nos levava.
Outra coisa que vos digo, é que à segunda passagem num abastecimento em que se cruzem com um corredor, já o podem tratar como se o conhecessem de toda a vida.
Ele saberá quem vocês são e terá essa sensação, ainda que não saiba o vosso nome, ou sequer, por quem ali estão, saberá que são aquela pessoa impecável, sozinha, plantada ao frio, à espera de alguém, que ainda assim se deu ao trabalho de rir.
“Já liguei para casa e disse que chegava tarde”
Tenho o maior respeito e admiração por todos os que seguem provas.
Em determinados segmentos, sei que demoramos mais do que prometemos.
Quando, finalmente, aparecemos, sei que nem sempre vos respondemos como vocês merecem.
Sei que vos deixamos preocupados quando estamos com a cara de dor, e mais preocupados ainda quando percebemos que vocês repararam e tentamos fazer uma cara boa…
Este fim-de-semana, no Estrela Grande Trail, quando, ao km 70, decidi concluir a prova, em vez de desistir como andava a planear até então, liguei para a Sra. Ribeiro que me esperava na meta a dizer que ia demorar mais do que tinha inicialmente previsto, mas estava bem e ia chegar.
Depois, levantei-me e disse “Já liguei para casa e disse que chegava tarde”.
Fiquei a pensar nisto… É piroso, mas é como os americanos dizem, a casa é onde está o coração e o nosso fica sempre convosco.
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Texto: Sr. Ribeiro
Fotos: Miguel David



