Nunca foi por mim Paulo são as memórias, histórias…dela
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Agora sei, isto nunca foi por mim Paulo….são as memórias, as histórias e as amizades…dela.
Fico encantado a ouvi-la, ela fica eufórica, fico cansado, ela fica eléctrica, sinto me fraco, ela fica radiosa!!

Estrela Grande Trail
Manteigas 08h da manha de sábado, clima magnifico para os quase 400 atletas que se propunham a atravessar os 49kms do Parque Natural da Serra da Estrela. Estávamos a 800 metros de altitude e apesar de no papel não se verificar a brutal altimetria a que iríamos estar sujeitos, sabíamos todos que iria ser uma prova dura.
Os primeiros 6 kms foram sempre a subir por uma estrada aos esses pelo meio da imensa mancha verde que felizmente ainda ali existe, ate aos 1500 metros de altitude. Não havia frio, não havia vento, não havia receio.
A chegada a Vale Rossim fez se por uma ligeira descida por entre coutos de arbustos escondidos pelas suas próprias sombras que escondiam um enorme perigo e ali estava o 1º abastecimento aos 8kms. A organização tinha avisado para sairmos daqui abastecidos de líquidos suficientes para a travessia do PN da Serra, iríamos enfrentar agora 15kms e mais 600 metros até á Torre por enormes manchas de neve.
Esta seria a parte mais difícil do percurso, mas para mim a mais agradável quer pela paisagem, pela neve e porque aqui sinto me confortável, a agua abunda, nascentes, lagos, poças, a agua o bem mais precioso que temos.
A travessia foi fácil excepto nas subidas pela neve, as sapatilhas teimavam em querer patinar e deslizar, o truque é muito fácil, há que colocar o pé com firmeza para ele prender na neve.

Espaço em que algumas pessoas muito fortes não têm como passar
Prosseguimos ate à garganta de Loriga e à Nave Mestra, enormes blocos de granito ideal para escaladas mas no nosso caso para atravessa-los num espaço em que algumas pessoas muito fortes não têm como passar devido a ser muito estreito.
Continuamos em direcção á Torre vamos com 3 horas, estamos atrasados e sou obrigado a comer meia barra, vou esganado de fome, a ultima vez que comi foi há 6 horas, partilho a barra com o Paulo Silva mas ele também não gostou muito dela, era de um buda qualquer… Chegados à Torre agarrei me a uma bolonhesa que um voluntário teimava em manter quente, devorei como nunca e ainda comi um pouco de canja, coloquei uns pensos nos calcanhares que estavam a dar sinal de queixa e estava pronto a partir.

O Paulo, esse estava com mais dificuldades tinha torcido o pé e teve necessidade de colocar uma ligadura para estabilizar, metade da prova estava feita e só me sentia ansioso para terminar, não pela prova mas porque precisava urgentemente de ir á minha massagista tratar de uma factura de stress no pe que me acompanhava ha 4 semanas e que teimosamente fui adiando, provocando um desconforto constante que não me deixava treinar a 100% nem poisar correctamente o pé no chão.
Das manchas de neve e o frio, para um sol radioso
Parti a correr, já íamos muito atrasados, mais de uma hora do que aquilo que queria. Teríamos agora 8 kms a descer ate ao Vale Glaciar, fomos deixando para trás as manchas de neve e o frio, o tempo estava a mudar, passou de um sol radioso para nuvens escuras e começei a tremer queria sair rapidamente da cota dos 2 mil metros.
As enormes subidas têm aspectos bons e maus, se por um lado depois desces muito mais que o normal por outro lado não tens onde treinar essas descidas e inevitavelmente aparece o cansaço muscular nas pernas. Ultrapasso muitos atletas que ja vêm a andar, cada um tem o seu timing mas muitos também com dificuldades fisicas, o corpo não é de ferro.

Trambolhão, senti-me humilhado, derrotado, ferido
Deixei de ver o Paulo, ficou para trás, sempre que via alguém ao fundo com uma camisa branca pensava que era ele, mas não. Vou com 5 horas e sinto o cansaço, reduzo, abrando para fazer um xixi e …trambolhão, senti-me humilhado, derrotado, ferido. Sento me 10 segundos para respirar fundo e fazer uma avaliação do que me dói, sigo.
Mais á frente aos 32kms há um abastecimento e digo a mim que vou aguardar pelo Paulo. 10 Minutos sem ele chegar e parto, aqui nao há rede nao tenho como falar com ele, deduzo que desistiu, deve ter piorado o tornozelo. Olho para a frente e vejo aquilo que considero a ultima subida, sorrio, sorrio por pouco tempo.
O ângulo só me tinha deixado ver uma parte da subida, a mesma irá ser feita devagar, os pés começam a ressentir se da falta de treinos por ter passado muitos dias a poupar a lesão, estão massacrados, um dos dedos vai a roçar a sapatilha e já corro com ele encolhido, olho para trás vejo donde viemos e é brutal a paisagem ver o vale glaciar e por trás as enormes montanhas.
Cheguei ao cimo e pela primeira vez há um estradão em terra batida, vou conseguir aliviar os pés, tínhamos feito 33kms sempre por caminhos com pedra.

O Paulo continua em prova
O tempo muda rapidamente escurece e começa a chuviscar e o estradão não tem fim. Consigo falar com a Ana que me diz que o Paulo continua em prova, atrasado mas que não quer desistir. Esta estrada prolongar-se-á por uns 4kms ate ao ultimo abastecimento.
Recolho uma laranja e parto, estamos agora do outro lado da serra, acabaram os enormes campos cheios de pedregulhos característicos da serra e começam novamente os bosques, acabaram se as subidas, faltam 12km para o fim e apanho um trilho espectacular cheio de árvores verdes, sublimes e aproveito para rolar.

Passo agora uma estrada e em 3 metros a paisagem muda outra vez, agora corro por um trilho de cor amarelo, lindo, amarelo das folhas caídas, talvez aqui pensem que seja Outono, aos poucos o trilho vai dando lugar ás pedras e agora vejo me em terras de xisto, subimos um pouco e ops….que vejo eu?
Que subida é aquela, os atletas vão dobrados para a frente a subi-la, mas …isto donde veio isto??
Desmoralizo, respiro fundo e sigo passo a passo, uma queda aqui na serra no meio das pedras pode ser fatal ou o socorro tardio.
A subida é feita em 3 fases, tive que me sentar 2 vezes, vou há 2 horas com o dedo encolhido e por vezes mais um pontapé numa pedra e mais uma dor, nem quero imaginar como é que ele está.

A alegria deles é contagiante, vibram mais do que nós, a vitória é deles
Subida feita 44 kms, serra dobrada e Manteigas á vista, basta agora descer e estará terminada, numa das ligações ainda encontro a Ana e a família do Paulo, a alegria deles é contagiante, vibram mais do que nós, a vitória é deles, nós fazemos a parte mais fácil, nunca iremos imaginar o que eles sofrem por não saberem de nós, ouvem se muitas ambulâncias a passar, vi muitos feridos, muitos lesionados e muitos desistentes.

Ali está a meta, não foi uma prova bem conseguida, demorei mais do que gostaria, mas cada prova é um ganho de conhecimentos, disse para mim mais uma vez é a ultima.
Chega!!
Vim agora da Nádia, a minha massagista, passaram 2 dias e é verdade não chega, quero mais, sei que a Ana quer mais, tem mais historias do que eu, já conhecem a Ana a moça das botas amarelas 🙂
Sim, o Paulo chegou ao fim também, feliz, a família dele também estava feliz.
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Texto: Paulo Sérgio Alves / Diário dos meus treinos na Arrábida
Fotos: Ana Ribeiro Alves