Os 338 kms de um “Gigante” Português

Sinto-me pequeno ao desaguar na imensidão do Vale de Aosta que é uma região italiana, que está localizado no meio dos Alpes, cercado por quatro “ GIGANTES ”, quatro das mais altas montanhas em toda a Itália e Europa (Monte Branco, Cervino, Monte Rosa e o Maciço do Grande Paraíso).

Esta região também é presenteada pelos seus grandes vales, o Colle del Piccolo San Bernardo e o Colle del Gran San Bernardo, que é o mesmo nome do túnel da região. Também podemos encontrar a sul do território o Parque Nacional Gran Paradiso, criado em 1922 para proteger determinadas espécies de flora e fauna em perigo de extinção, como cabras, camurças, marmotas e arminhos.

Objectivo gigante “Ser Finisher”

A dois dias de iniciar a minha maior aventura, vou sendo contemplado com paisagens soberbas, capazes de me engolirem com a sua beleza e dimensão, estar aqui é estar a realizar um dos meus grandes sonhos, pois desde que me comecei a aventurar-me no mundo do Trail, fui criando metas e objectivos bem definidos, estava no Trail para me desafiar constantemente, queria ser finisher em todas as grandes provas míticas, pois para mim terminar qualquer prova já é uma grande vitória, independentemente da minha classificação.

Torre dos Gigantes ou Tor des Geants

Para 2016 tinha definido que estaria presente nas duas grandes provas da Europa Ronda dels Cims e o Tor des Geants, a primeira conclui com sucesso, agora estava a dias de voltar a estar na linha de partida para a “ Torre dos Gigantes ”.

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Os ambientes destas grandes provas são únicos, vive-se, respira-se, compartilha-se festa, alegria, companheirismo, estes rituais deixam-me comovido, e entrego-me completamente.

O início da aventura na Torre dos Gigantes

Espero ansiosamente a entrega dos dorsais vou cumprimentando algumas pessoas conhecidas, alguns amigos meus do Facebook e vou comentando – “são sempre os suspeitos do costume” (pois como acontece em provas nacionais, os atletas já se conhecem e são quase sempre os mesmos), os “loucos” reúnem-se sempre nos mesmos sítios.

Uma pequena ansiedade ia tomando conta dos meus pensamentos, enquanto esperava na fila para levantar o meu dorsal e apresentar o material obrigatório, estava aqui para fazer 338 km, distância esta que para mim e para os médicos (neuro-cirurgiões que me operaram após estar em coma 1 mês) há cinco anos atrás era impensável.

Acreditar é conseguir

Estava nesta fila após uma longa batalha contra as dependências, contra a apatia, a inércia , a falta de ânimo e a pouca vontade de viver, estava aqui depois de ter vencido duras batalhas, depois de ter ultrapassado desilusões, estava no “Tor des Geants” porque o meu crer é superior a qualquer outra adversidade, porque enquanto eu acreditar eu consigo, estava aqui porque existem pessoas que acreditam em mim e me ajudaram, estava aqui ás portas de um sonho, e para mim não basta apenas sonhar, temos que viver o nosso sonho, este é um princípio que vou cultivando e alimentando, pois permite-me sempre pensar mais à frente e tornar real aquilo que vou idealizando como metas e objectivos “ACREDITAR É CONSEGUIR”.

Vivia-se um autêntico corrupio em Courmayeur, atletas, acompanhantes coloriam as ruas desta pequena vila, uma mescla de idiomas, etnias, nacionalidades fundiam-se por toda a vila vivia-se um ambiente de festa e euforia, anualmente este Ultra Trail traz atletas dos quatro cantos do mundo, todas as lojas exibem com orgulho o cartaz da prova, era um entrar e sair de pessoas das lojas de artigos de desportos, de aventura e montanha, enquanto isso os proprietários das lojas pediam orgulhosamente aos atletas para autografarem os seus cartazes.

O pórtico de partida já se erguera no centro da vila, onde muitos aproveitavam para tirarem fotografias, que rapidamente invadiam as redes sociais a anunciarem a próxima aventura.

A aventura a 1 dia e algumas horas

Daqui a 1 dia e algumas horas, eu e mais de sete centenas de pessoas, estaríamos debaixo deste pórtico, prontos para começar a nossa aventura épica, tinha pela frente 338 km (distância do Porto a Lisboa) para percorrer todo a região de Aosta, com um limite máximo de 150 horas, com um acumulado positivo de 24.000 m (subir 12 X ao ponto mais alto de Portugal continental – Serra da estrela).

Estava aqui para vencer

As horas iam passando e ia ficando um pouco mais apreensivo, ocorriam-me ao pensamento várias questões, e ia estabelecendo comigo um diálogo interno – “Teria feito uma boa preparação para esta prova?” – “estaria à altura deste desafio?” Mas rapidamente deixava esses pensamentos de lado e focava-me mais nas minhas capacidades mentais, psicológicas, na minha resiliência e na minha força de vontade, “EU estava aqui porque acreditava em mim e em todas as minhas capacidades. Estava aqui para vencer”.

As horas iam passando a um ritmo frenético, e rapidamente fui catapultado para a pasta party, onde o convívio ia-se multiplicando, a organização, esta correspondia com todo o profissionalismo e simpatia, ao mesmo tempo que nos era servido um autêntico banquete de pasta e queijos, num grande ecrã passavam imagens com paisagens soberbas e com atletas em prova de edições anteriores, ao mesmo tempo assistíamos a um pequeno briefing.

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Tinha tudo pronto, pensado ao pormenor, não deixando escapar nada, pois falta de algum material poderia colocar em risco a minha prova. Preparei o meu saco que me ia acompanhar durante todo o percurso, saltando de base de vida em base de vida

O dia “D”

O dia D chegou, o meu sonho estava a materializar-se, mais sete centenas de corajosos iam-se juntando à volta do pórtico, as saudações iam-se multiplicando à medida que ia encontrando caras conhecidas, uma troca de olhares, um encolher de ombros, uns sorrisos desmultiplicavam-se, em uns tantos abraços e uns simples apertar de mãos, “BOA SORTE” é a palavra mais ouvida em todas as ruas, ruelas e raças desta pequena vila, que se tornara gigante por esta altura do ano.

Estávamos aqui todos com um único objetivo, acabar esta prova com sucesso, embora alguns atletas colocassem os seus objetivos num patamar mais elevado, o que os iria levar aos lugares mais altos do pódio.

Lentamente fomo-nos aproximando da entrada para área de partida enquanto validavam os nossos dorsais e chips onde verificavam os localizadores de GPS, tiravam-se umas selfies, umas fotos para posteridade, trocavam-se os últimos beijos antes da partida, os meus olhos brilhavam de felicidade, este sentimento difundia-se em quase todos os que aguardavam ansiosamente a hora O, este sentimento contrastava, com o olhar apreensivo, preocupado dos acompanhantes, maridos, mulheres, namoradas e amigos que ladeavam a linha de partida. Nos seus rostos espelhava-se a preocupação da distância, da dureza e do tempo de prova.

Seis portugueses corajosos “loucos”

Juntei-me ao grupo de portugueses corajosos, “loucos” que tiveram a ousadia e a sorte (sim sorte, pois estavam aqui aqueles que foram contemplados após um sorteio que envolvia muitas centenas de atletas em que a cota atribuída a Portugal era de 6 participantes) de estarem presentes neste evento um dos únicos de ultra distância a realizar-se no velho continente. Uma conversa curta, uma troca breve de cumprimentos e alguns gracejos sobre a forma como estávamos envolvidos nesta “loucura”, enquanto isto, o Speaker ia fazendo uma contagem decrescente, ao mesmo tempo que um grupo de dançarinas vestidas com trajes regionais fazia a delicia dos participantes e do público restante. DEZ, NOVE, OITO, SETE, SEIS CINCO, QUARTO, TRÊS, DOIS, UM, estava dada a partida.

Estava a viver um “sonho

Enquanto percorria as estreitas e históricas ruas desta bela vila, pelo meio de um corredor formado pelos apoiantes, admiradores, acompanhantes e gentes locais, enquanto estes efusivamente apoiavam todos os gigantes participantes, com palavras de incentivo, com os ruidosos chocalhos que acaloravam a festa, corria emocionado pelo meio desta multidão, segurava as lágrimas com algum custo, enquanto os meus olhos iam ficando aguados com tanta emoção que ia tomando conta de mim, à medida que corria ia cumprimentando as pessoas com uns toques nas mãos que se estendiam ao longo deste percurso, essa massa humana que se foi estendendo ao longo dos primeiros kms de prova, “ESTAVA A VIVER UM SONHO”.

Os primeiros kms foram sempre a subir, com paisagens deslumbrantes. O GIGANTE – Monte Branco estava a mostrar a sua beleza, e o brilhar das suas neves, ao longo desta grande jornada, ia-me cruzando com caminheiros, que calorosamente me iam incentivando, tinha estampado no rosto sempre um enorme sorriso, que só era quebrado de vez em quando, com o respirar ofegante que as subidas me imponham.

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Estou aqui e vou cumprir o meu sonho

O primeiro cume acima dos 2.500 m (Col Arp) foi rapidamente alcançado, este era um dos muitos “ gigantes , coragem, força de vontade e empenho não me faltavam, tinha entrado nesta grande aventura para realizar o meu Sonho. Ao longo destes kms iniciais, sorria, cantarolava, sempre com os sentimentos ao rubro, com vontade de gritar para o Mundo, estou aqui e vou cumprir o meu sonho.

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Algumas horas depois encontrei o meu primeiro abastecimento a minha Trailer Assistant – Esmeralda estava aqui no “Tor des Geants” para me incentivar, para me ajudar, para me apoiar nesta árdua tarefa (companhia que foi preciosa durante estes 338 kms), nesta fase inicial como estava “fresco” fui impondo um ritmo mais forte, queria rapidamente chegar à primeira base de vida ao km 50 (Valgrisenche), mas tinha-me esquecido que para atingir esta base tinha pela frente dois grandes picos, o Passo Alto – 2.857 m e o Col Crosatie – 2.829 m, e como ainda continuava com a “força toda” fui pensando que poderia fazer estes 338 km em apenas 6 dias, ou seja menos 1 dia do que o tempo limite, esta ânsia toda quase que deitou por terra o meu sonho de acabar a prova.

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Acreditar na “loucura” dos 6 dias

Fui sempre a acreditar na “loucura” dos 6 dias e como não estava cansado e não tinha sono fui sempre mantendo uma cadência alta, passei pela primeira Base de Vida, e aproveitei só para tratar de algum equipamento e apesar de nesta altura a “Trailer Assistant” me dizer para descansar, decidi continuar, sabia que a próxima Base seria só daqui a 56 km (Cogne), e tinha pela frente três grandes picos, dois deles acima dos 3.000 metros altitude Col Entrelor (3.002) e a subida ao ponto mais alto Col Lason (3.299), nesta altura sentia-me confortável quanto ás horas de corte (locais onde tens que passar até determinada hora e que se chegares lá depois serás desclassificado), e estava a controlar o meu ritmo (ilusoriamente).

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Os 56 kms de uma Base à outra foram feitos, de forma mais calma, pois o terreno a partir daqui começou a tornar-se bastante técnico e acidentado, embora a parte que fiz de noite não me mostrasse realmente o desnível brutal, nem os precipícios por onde passei, nestas partes fui sempre me mantendo bastante focado e concentrado, pois qualquer acidente aqui teria consequências bastante graves.

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Nesta altura da prova comecei a sentir-me com alguma sonolência e de cada vez que subia acima dos 3.000 m os meus olhos teimavam em querer fechar e dei por mim em algumas situações a encostar-me e a deitar-me em cima de algumas rochas, estava a começar a levar o meu corpo ao limite e é nestas alturas que estamos a começar a caminhar na linha vermelha, estava a precisar de descansar e dormir um pouco, estava à espera de chegar a Donnas – km 151, e descansar um pouco.

Em “Donnas” o descanso do guerreiro

Em Donnas, a Esmeralda tomou uma posição que eu acatei “precisas de descansar mesmo que sejam só 30 minutos”, nesse momento decidi dormitar um pouco, descansei pouco, mas nestes poucos minutos, consegui restabelecer as energias e o sono, e voltei a partir, eram 54 kms até Gressonney (km 205), seguia com uma ideia na cabeça, com base numa conversa que ouvi – “esta parte é mais calma e menos técnica”, parti com esta ideia que mais tarde vim a verificar que era errada, pois embora não fosse a grande altitude o percurso era agreste e duro.

Cheguei ao Refugio Coda com um grande sorriso, estava a meio da prova, tinha chegado ao km 169, “BOM METADE JÁ ESTÁ FEITO”, e a partir daqui começo a aplicar um dos meus mecanismos de coping, todos os kms que for fazendo são em contagem decrescente, e penso que em vez de estar a acrescentar kms, (o que acontecia até aqui) estou a tirar, há medida que avanço cada vez mais vou-me aproximando da meta.

Um autêntico carrossel

A prova entrava num autêntico carrossel, com subidas e descidas verticais, em que o terreno se tinha tornado agreste, impiedoso, eu começava a sentir cada vez mais o sono, o cansaço ia-se acumulando, e é nestas alturas que começamos a cometer mais erros, erros esses que podem ser fatais, depois de tentar dormir um pouco em cima de uma rocha fui acordado por um atleta que me alertava que estava quase encostado a um glaciar e poderia ser perigoso, depois de seguir mais alguns kms decidi fazer uma pequena paragem e aproveitei um refúgio de montanha para dormir cerca de 1 hora, que foi decisiva e me permitiu seguir com mais segurança e empenho até ao km 205.

Cheguei a Gressonney, aqui o meu rosto estava marcado por um desgaste intenso, e fisicamente estava muito cansado, foi aqui que (pedido de muitas famílias) decidi dormir 2 horas (o tempo máximo seguido que estive a dormir em 145 horas), quando acordei estava “como novo” e decidido fazer mais 34 km até Valtournenche km 239 – Base de Vida, volto a seguir com entusiasmo, pois tinha já quebrado a barreira do 200km e ia fazendo as contas de quanto faltava para o fim.

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Mais dois grandes picos

Mais dois grandes picos Col Pinter (2.776 m) e Refugi Grand Tourmolin (2.770 m) e uma barreira horária espreitava por entre a chuva que começara a marcar presença, ia tornar-me a vida mais complicada, pois a progressão ia ser mais morosa e difícil, eu sei que não iria passar frio, nem me molhar, pois para esta prova tinha tido a preocupação de vir com um bom equipamento (com boas camadas térmicas e impermeáveis), isto era bastante positivo pois permitia sentir-me mais confortável e seco.

Estava empenhado em manter sempre um bom tempo de avanço, relativamente ás barreiras horárias, e embora as distâncias que separavam as Bases de Vida iam diminuindo, o tempo para percorrer essas distâncias ia aumentando.

Momentos únicos

De uma Base à outra vou sempre vivendo momentos únicos, vou desfrutando as paisagens deslumbrantes, espectaculares e únicas por onde vou passando durante o dia, à noite vou tentando manter-me sempre o mais desperto possível, e vou tentando correr sempre com alguém ou com algum grupo, mas isso muitas vezes torna-se mais complicado pois todos temos ritmos diferentes e eu muitas vezes vou optando por seguir sozinho, enquanto isso para me “entreter” vou inventando algumas canções, algumas rimas, (canções e rimas loucas) nas partes mais complicadas vou soltando alguns palavrões, no meio deste turbilhão de paisagens e pensamentos loucos chego a Valtournenche – km 239km.

Aqui tudo está pronto à minha espera, tinha já na mesa uma refeição quente, alimentei-me bem, fiz uma massagem e volto a dormir mais uma hora, estou de volta ao trilho, 48 kms separavam-me de Ollomont – km 287, até aqui tinha que voltar a enfrentar três grandes picos acima dos 2.500 metros altitude e duas super descidas (que se iam tornando cada vez mais dolorosas) e uma barreira horária.

Lutar até ao fim

Tinha chegado até aqui e estava disposto a lutar até ao fim, segundo alguns relatos que tinha lido, esta era uma parte complicada, mas ficava esperançoso pois os mesmos relatos também diziam que quem conseguisse ultrapassar esta etapa estava quase com um pé na chegada e eu “agarrava-me” com todas as minhas forças a esta ideia, a ideia de ser FINISHER, foram 48 km extremamente complicados, foram “sacados a ferros”, mas estava ciente que cada vez mais me aproximava das três dezenas de kms, e a linha de meta estava a caminhar na minha direção , ia-se aproximando lentamente enquanto eu permanecia com um grande espírito de luta, sacrifício e resiliência.

Uma hora de descanso

Chego ao km 287 a acusar cada vez mais o cansaço e sono, mas não desarmo, e volto a dormir mais uma hora, coisa que já vinha acontecendo há algum tempo, era quando me sentia a desfalecer, procurava sempre um lugar para dormir, embora em muitas situações mais complicadas quando não encontrava nenhum poiso, ainda ia espreitando em casas abandonadas e em estábulos, sítios onde pudesse descansar um pouco, mas conseguia sempre arrastar-me até a um refúgio, um sitio mais seguro, nestes refúgios, estávamos autorizados para dormir apenas uma hora, e esta hora era extremamente respeitada pelos seus responsáveis, pois quando passava o tempo estipulado éramos logo “convidados” a continuar.

A 51 km do SONHO

Depois de uma hora de sono, levanto-me e por algum tempo perdi a noção do “que estava aqui a fazer”, “onde estava”, pois acordei e não mostrava pressa nem empenho, ainda estava meio dormente, mas rapidamente voltei à “terra” e estava de regresso aos trilhos, estava a 51 km do SONHO – Courmayeur, e faltavam-me 2 picos Col Champillon (2.709 m) e tinha que voltar novamente quase aos 3.000 m altitude Col Malatra (2.936 m), a partir daqui um “fantasma” começava a pairar sobre mim, A HORA DE CORTE, pois seria extremamente doloroso eu chegar ao km 317 – Refugio Frassati e ser barrado, não me deixarem continuar e comecei a dar tudo o que tinha e não tinha, estava com toda a garra, com toda a força e o que eu realmente queria era ser FINISHER nem que para isso tivesse que “descer aos infernos” e “EU IA CONSEGUIR” nem que tivesse que morrer a tentar.

Só falta mais uma

Voltei a colocar um ritmo mais alto e ao atingir o penúltimo pico, enfrento uma descida vertiginosa, técnica e perigosa, aqui fui redobrando os cuidados, pois a minha destreza física já não estava nas melhores condições, e durante toda a descida só pensava – “SÓ FALTA MAIS UMA” agora só tenho que enfrentar mais uma subida longa e estou a descer para Courmayeur, este ritmo mais intenso foi-se mantendo constante e nesta fase comecei a passar por muita gente e como que num ápice chego ao Refugio Frassati, estava cheio de atletas, dormitavam por todo o lado, aproveitavam todos os cantos para se “enroscarem”.

Brindado com um Nevão

Ao entrar neste refúgio a primeira coisa que fiz, foi perguntar que horas eram, pois estava com medo de ter ultrapassado a barreira horária, quando me disseram que ainda tinha bastante tempo, fiquei FELIZ, estava a uma meia maratona – 21 km de concretizar o meu sonho. Comecei a subir para Col Malatra (2.936 m) e fui brindado por um nevão que se começou a abater sobre a região, estava eufórico, deslumbrado e aqui ia ter a oportunidade de dar uso aos meus crampons, (já os carregada desde a partida) cheguei ao último pico decidido, fiz uma rápida ascensão e pensava a partir daqui é sempre a descer até à meta, embora os meus joelhos já começassem a dar sinais eu continuava sempre a bom ritmo.

Quanto mais me aproximava de Courmayeur mais ia aumentando o ritmo, esta descida além de ser longa, foi feita praticamente toda a correr. A alguns kms da meta, a Esmeralda estava à minha espera para me dar apoio e fazer os últimos km comigo, corremos, rimos, contamos histórias um ao outro destes dias (eu ia agradecendo toda a dedicação durante estes 338 km) EU corria como se estivesse a começar agora uma prova, cheio de alegria, de garra e de força.

Courmayeur, sou finisher, sou finisher

Chego a Courmayeur e começo a saborear os últimos metros, corro pela rua mais movimentada desta vila, e começo a sentir o apoio de uma multidão que formavam um corredor até à META. Os gritos de apoio, as palmas, o barulho dos chocalhos levavam-me ao “colo”, o pórtico estava mesmo à minha frente, “SOU FINISHER, SOU FINISHER” pensava constantemente enquanto segurava a bandeira de PORTUGAL e corria até cima da linha da meta, neste momento tentava conter as lágrimas enquanto me ajoelhava perante o público em sinal de respeito pela prova e como forma de agradecimento a todos os que esperavam pelos CAMPEÕES.

Gigante, sou um gigante

SOU UM GIGANTE, SOU UM GIGANTE”, ia pensando, ia gritando, ia agradecendo a toda a gente que me ia dando os parabéns e felicitando. Enquanto ia vivendo o sonho de terminar a prova mais longa que fiz até hoje, (334km, 145horas). Agora já esperava o outro dia para a entrega do prémio DOS GIGANTES.

A entrega de prémios foi única, emotiva, extraordinária, pois fomos chamados atleta a atleta a subir ao palco das emoções – “PORTUGAL AUGUSTO OLIVEIRA” chegou a minha vez, mais uma vez de bandeira na mão passei pela multidão que formava o CORREDOR DOS GIGANTES, e mais uma vez voltava a gritar “ SOU UM GIGANTE ”.

Texto: Augusto Oliveira

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