Pisão Extreme

Foto: Daniel Matias

O desafio do ano, foi em S. Pedro do Sul, pelo segundo ano propus-me a ultrapassar os meus limites e tentar concluir o Pisão Extreme – Train Hard Race Harder, em representação de OPraticante.pt, tentando superar a distância de 27Km, a qual no ano anterior (2018), tinha sido barrado.

Pisão Extreme – Train Hard Race Harder organizado pela SpotCriativo e a equipa Viseu Running Team em colaboração com o Município de S. Pedro do Sul, com o apoio das entidade locais (Junta de Freguesia de Carvalhais e Candal, ATASA, Bio parque do Pisão).

Pisão Extreme – Train Hard Race Harder

Com 4 opções disponíveis para se desafiarem em diversas distâncias, percursos circulares a prova rainha é o Pisão Extreme – 65 Km – 6500 d+, teve uma adesão de 130 inscrições. As restantes provas são Pisão SkyRunning – 35 Km – 3500 d+, com 255 inscritos, Pisão Adventure – 24 Km – 2000 d+, 250 inscritos e Pisão Mini – 12 Km – 1000 d+, com 120 inscrições, perfazendo um total de 755 corajosos.

Em qualquer das distâncias seria um teste de superação pessoal, no dia, fomos surpreendidos com um clima agreste, dificultando o desenrolar da prova.

Pisão Extreme
Foto: Augusto Teixeira

Madrugando para o desafio…

Mais uma prova, desta vez eu e o Fernando, madrugamos para chegar ao destino, pois a hora da partida seria às 6:00. Eu sabia a dificuldade a que me propunha, no ano anterior a prova não tinha sido concluída e tinha percebido que não estava preparado para este tipo de provas, este ano estava com a esperança de ultrapassar a barreira horária das 8h.

Mas em determinados momentos, pensava que não conseguiria manter um bom ritmo para ultrapassar outros atletas, noutros momentos pensava que seria possível. Mas a incerteza era constante, esperançoso de me superar em relação à primeira edição.

Uma prova, na minha opinião, a nível nacional das mais difíceis, mas possivelmente também a nível europeu. Uma viagem tranquila mas algum nervosismo, um pouco ansioso, o normal de uma prova.

Pisão Extreme
Foto: Goodfellas Wiseguys

As rotinas da pré-prova…

Chegamos ao local (Carvalhais), cerca das cinco da manhã. Levantar dorsais, recolher o tracker, equipar, fazer os últimos preparativos e rapidamente estávamos na linha de partida para iniciar o desafio.

O Convívio com um casal fantástico do Porto (Carla e Henrique Bruno), que se propunham a fazer este desafio. O tempo de espera foi longo, algum atraso, com a ansiedade de todos os atletas. Não partimos às 6:00 da manhã, mas as 6:20, mais ou menos.

Contagem decrescente e aí vamos nós, em poucos minutos estávamos a subir a primeira serra, com chuva e a cada passo, o frio ia aumentando, pelos trilhos a água marcava a sua presença, era impossível não molhar os pés, no início de uma prova de Trail, confesso que não é muito agradável. Pouco depois, já os bastões estavam a marcar presença e a caminhada era já uma realidade.

Pisão Extreme
Foto: RFF

O desafio… do Pisão Extreme

Olhar para o relógio, logo no início de um desafio, são indícios menos bons, não é muito motivante começar a contar os minutos, os Km, abreviando, a primeira dificuldade surge na subida a um dos picos mais altos da prova, em direcção às eólicas, km 5 e estávamos no ponto mais alto, a chuva aparece, o vento estava forte e a brisa era muito fria, desde o início que as luvas faziam parte do equipamento a ser utilizado.

Logo que chego ao ponto mais alto, depois de ter concluído a primeira grande subida, tento manter um ritmo para aquecer e evitar a hipotermia, começo a ficar convencido que seria uma luta constante até ao final da prova. No alto da montanha apercebo-me de um atleta, que ia ao meu lado a soprar para as mãos, ou quase com vontade de as colocar dentro da boca para as aquecer, as pontas dos dedos gelam e temos de fazer algo para contornar isso.

Depois iniciamos uma descida intensa, começava o “parte pernas”, subidas intensas e descidas demasiado técnicas, mas nesta fase sentia-me bem. Para não nos esquecermos da dificuldade da prova, ainda tínhamos de enfrentar as passagens de água com cordas, uma corrente de água muito intensa, a organização tinha colocado alguém naquele ponto para auxiliar a passagem, mas era impossível passar, sem a água nos molhar acima da cintura, vários atletas ficaram completamente molhados, via as pernas vermelhas do frio, mas não sentia o frio…

Pisão Extreme
Foto: Manuel Martins

Primeiro Abastecimento…

Em cerca de 1:30, tinha feito os primeiros 7 km e estava no primeiro abastecimento (Gourim), um abastecimento bem recheado, cheio de coisas boas, desde presunto, ovos, batatas fritas, coca-cola, etc. Nada faltava, das poucas provas que somos brindados com abastecimento completos.

Encontro o Fernando, dois dedos de conversa e partimos para a prova, quase em simultâneo, o importante era abastecer e preencher o estômago para a fome não nos “apanhar”… Pela frente iria surgir mais um desafio, digamos que seria mais uma “parede”, o que não faltava aqui era “paredes” pois todas as subidas eram ingremes.

Foto: Manuel Martins

Segunda passagem molhada…

Após uma descida acentuada, um trilho perigoso, não só devido à sua inclinação, mas à mistura de pedras de xisto e quartzo, a água estava presente por vários locais e tornava as pedras ainda mais escorregadias, impunha um ritmo mais acelerado procurando os melhores locais para colocar os pés, no entanto, este facilitismo ou loucura, como pretenderem chamar, originou uma queda e uma boa dor de cotovelo, uns dias depois após a prova ainda doía.

Rapidamente continuo em prova, até chegar a uma passagem do rio, sem cordas e sem alguém da organização, penso que aqui, poderia ser reforçada a segurança. A entre ajuda dos participantes que esticavam os bastões para a passagem foi essencial, porém, consegui visualizar um atleta, que se aventurou a passar numa outra zona e a ser logo arrastado pela força da água, conseguiu sair um pouco mais há frente, não deve ter ganho para o susto, mas quem lá estava, nada podia fazer…

Foto: Goodfellas Wiseguys

Em direcção a Regoufe…

Neste troço seriamos testados ao limite, não só por enfrentar o frio, a chuva, a dificuldade da própria montanha, a subida, a descida, o próprio trilho repleto de pedra solta, afiada, laminada, de tudo um pouco. Mas SkyRunning é tentar enfrentar a natureza no seu estado puro, mesmo assim, alguns trilhos estavam mais limpos, pelo trabalho efectuado pela organização.

Sentir a vegetação a bater nas pernas era constante, já tinha perdido a sensação de onde ardia e onde me tinha magoado, já doía por dentro e por fora. Enfrentávamos a subida ao segundo pico mais alto da prova, ainda numa fase inicial, voltamos a enfrentar o frio do lado esquerdo, adormecia os membros, cerca do Km 12, novamente as eólicas “assobiavam”, mais uma luta, para nos mantermos em prova e a chuva fria, misturando água e granizo, que doía ao bater na cara.

Pouco depois, vamos tentar acelerar na descida, mas desta vez foi curta e não deu para aquecer como pretendia, mais uma subida. Só pensava em manter um passo de cada vez e tentar enfrentar aquela subida.

Pisão Extreme
Foto: Goodfellas Wiseguys

Segundo abastecimento…

Após a superação das eólicas, sigo a bom ritmo e já um pouco motivado, porque sabia onde me localizava, o rio seria a próxima passagem, visualizava do alto a força da corrente que circulava em torno da serra, uma imagem excelente. Ao chegar à passagem do rio, mais uma pessoa da organização, com cordas e dentro de água a auxiliar a passagem, coloco os pés dentro de água, rapidamente o nível de água sobe acima da cintura.

Ao chegar à outra margem, brinco com o bombeiro que estava presente no local, pois já nem sabia se era homem ou se tinha deixado algo no rio… Ahahahah… A última subida antes do abastecimento dos 19 km, um pequeno abastecimento, mas variado. Nesta fase, a luta mental era constante, o corpo pedia para desistir, mas a mente não permite tal palavra, tinha de ser um passo de cada vez…

Pisão Extreme
Foto: Manuel Martins

Drave…

Sabia que a próxima aldeia seria a aldeia mágica, Drave, após passar a aldeia, surgiu um belo desafio, era só mais um, isto porque essa montanha ficou gravada na minha memória, pela dificuldade, mas também tinha consciência que depois dessa subida, existe outra, mais alta e mais íngreme. Ao passar a Aldeia olho para o topo da montanha e sei que teria de a superar, tinha de chegar ao topo, não seria fácil.

Durante a ascensão, olho para trás para apreciar a paisagem, este ano escura, dificultando a prova. Na descida, sou inundado de imagens mentais, que me passavam pela cabeça, saboreava a descida, acentuada, começando a chorar, faz parte das loucuras, uma espécie de meditação e libertação, “Lobo Solitário” nos trilhos, porque ia mesmo sozinho já fazia algum tempo.

Momentaneamente motivado, não sentia frio, aqui estava mais agradável, impunha algum ritmo. Começam a surgir algumas dores nos joelhos, mas a motivação estava em alta, mais uma passagem por um rio, mais pequeno e todo o cuidado é pouco. A minha vista conseguia visualizar uma montanha, alta e com mais uma subida íngreme. A última dificuldade antes do abastecimento…

Foto: RFF

A barreira horária… no Pisão Extreme

Já tinha aumentado a rotina de olhar para o relógio e controlar o tempo, estava com cerca de 23 km e com menos de 7h de prova, confiante que iria passar a barreira horária, olhava para trás e não conseguia visualizar ninguém atrás de mim, com os bastões na mão fazia literalmente uma escalada, tentando manter um ritmo constante na subida, sem muitas paragens, consigo chegar ao topo, agora seria acelerar.

Numa fase inicial as pernas não respondiam, começo a relembrar o ano anterior e a perceber que fisicamente estava bem melhor. Ao olhar para o relógio vejo as 8h de prova a aparecer e a desilusão, surge, um pouco esperançado que o tempo seja alargado devido ao mau tempo que passamos e mantenho a corrida.

Ao chegar ao abastecimento, sou presenteado com as palavras de que estou barrado, pelo segundo ano consecutivo, não é agradável ouvir. Por 8 minutos, mas regras, são regras, percebi que tinha sido o primeiro atleta a ser barrado.

Próximo ano será a terceira tentativa, para me tentar superar. Foi mais uma tentava de superação e perceber que tinha reduzido o tempo até este ponto em cerca de meia hora em relação a 2018, foi excelente e após a avaliação da prova, desde o início até ao fim, superei uns quantos recordes pessoais em alguns troços.

Foto: Augusto Teixeira

Avaliação da prova…

Para quem se quer desafiar, é a prova indicada, no entanto alerto que o slogan da prova não é meramente publicidade, “Train Hard, Race Harder”, porque é uma prova com um nível técnico acima das médias das provas nacionais.

A nível de abastecimentos, classificação máxima, assim como a preocupação e dedicação de todos os voluntários da prova.

A nível de assistência dos bombeiros, em vários pontos, com uma excelente eficácia. Tudo bem pensado para segurança dos atletas.

Prometo voltar no próximo ano, para tentar superar-me nesta prova. Decerto que os outros desafios desta organização são igualmente recomendados, Zela UltraMarathon e Arada Night Race.

A organização cria um prémio para quem se superar nestas 3 provas, intitulado como Iberian Wolf Trophy, terás de completar o três desafios. Poderia ser um belo desafio para o “Lobo Solitário”, mas decerto que 2020 ainda não será o ano, talvez um dia…

Foto: Manuel Martins

Resultados…

Nas diferentes provas existiu algumas desistências, devido a alguns imprevistos em todas as distâncias, para terem uma ideia da dificuldade, essa também pode ser mensurável pelo número de atletas que partiram e o número de conclusões.

Tendo isso em consideração as estatísticas são na prova Pisão Extreme, partiram 120 atletas concluíram 59 atletas (49%), na Pisão SkyRunning partiram 238 e cruzaram a meta 206 atletas (87%), Pisão Adventure os corajosos foram 228 e concluíram 182 (80%) e no Pisão Mini saíram 112 atletas e a conclusão foi de 100 atletas (89%).

Pisão Extreme
Augusto Teixeira, Bruno Silva e Paulo Teixeira

Claramente fomos felizes nesses caminhos da felicidade do Pisão Extreme

Augusto Teixeira um dos participantes deste desafio, declarou à nossa equipa de reportagem “Quanto ao evento, para mim e para o meu colega Bruno Silva foi a primeira vez que participamos. Para o meu irmão Paulo Teixeira, já tem participado em vários.

Para acrescentar “A nossa satisfação no final da prova foi a maior que pode haver. Queremos participar em todas estas provas e talvez ir aumentando o desafio.
Pelas magnificas e únicas paisagens, pelo desafio e companheirismo que se criam, estes são momentos que valem a pena. Claramente fomos felizes nesses caminhos da felicidade. Muito gratos!

Diogo tavares, Bruno Tavares, Luis Pereira e Margarida Raimundo – Foto: Goodfellas Wiseguys

Está na agenda de 2020 o regresso dos nossos atletas!

Os Goodfellas Wiseguys foram descobrir as fantásticas encostas da Serra da Arada. Luis Pereira e Bruno Tavares em modo “Extreme” viram o seu esforço compensado com o passar dos quilómetros e o cortar da meta, contando sempre com o apoio da Margarida e do Diogo, colegas de equipa que os acompanharam sempre ao longo prova, transmitindo assim o espírito de entreajuda,solidariedade e boa disposição que tão bem caracteriza toda a equipa .

Dos lados do Fujaco fica a memória de uma prova duríssima caracterízada por paisagens ímpares e trilhos tecnicamente exigentes. Está na agenda de 2020 o regresso dos nossos atletas! “Os bons rapazes vão para o céu, os Goodfellas Wiseguys vão para todo o lado”” foram as palavras dos representantes dos Goodfellas Wiseguys

Daniel Matias

Pisão Extreme, uma prova de emoções

Uma prova de emoções, com um clima extreme, só podia ser no Pisão, adorei a prova, diverti-me imenso, 2020 será um novo desafio e Pisão está na minha lista de superação, até 2020!” referiu Daniel Matias a OPraticante.pt.

Stian Angermund-Vik volta a vencer com nova marca

O grande campeão foi novamente Stian Angermund-Vik, tendo concluído este desafio em 9h54m40s, diminuindo em cerca de 4 min em relação à primeira edição. Podem consultar aqui os restantes resultados.

Próximo desafio do “Lobo Solitário” será em estrada e uma distância curta… Até breve!

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Texto: Manuel Martins
Fotos: Augusto Teixeira / Daniel Matias / Goodfellas Wiseguys 

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