À Conversa com… Ana Silva, concretização de um sonho

Ana Silva

Quem è a Ana Silva, a sua doença, e uma infância feliz, que tem agora um progressão feliz na companhia da Isabel Caetano.

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À Conversa com… Isabel Caetano, uma Campeã

Texto: José Morais – Noticias do Pedal
Fotos: Ana Silva e Isabel Caetano
Parceria: Notícias do Pedal – O Praticante.pt

Quem é Ana Silva

Nascida em 1996 na Maia, Ana Silva aos 18 anos teve uma notícia a nível de saúde nada animadora, um diagnostico tardio de cataratas congénitas.

Para quem não sabe, basicamente tinha nascido cega, e após várias cirurgias conseguiram remover as cataratas, e lhe possibilitaram recuperar a visão.

Ao longo da sua infância e adolescência, sempre teve problemas de visão, mas algo que, um par de óculos não resolvesse, e até brincava às vezes e dizia que, teve direito a todos os problemas oculares possíveis e imaginários.

Com uma infância feliz no campo, rodeada de animais e natureza, adorava andar de bicicleta, e relembra as sua mazelas nos joelhos, das quedas, mas nada a impedia de pedalar.

Na sua adolescência devido a descolamento da retina e do glaucoma, foi submetida a várias operações ao olho direito, infelizmente sem sucesso, e esse olho acabou por fundir.

Mas em 2017 entra em contato com a ACAPO, tentando assim reabilitar a visão, só que meses antes, começou a ter pequenas perdas de visão.

Iniciou assim a sua reabilitação em janeiro de 2018, sendo o ano de grandes mudanças na sua vida, o recomeço da aprendizagem, mas nada era como antes.

Ana Silva

As forças continuavam na esperança de Ana Silva

Com acompanhamento psicológico aprendeu a andar de bengala, e aprendeu Braille, como a todo o mundo de acessibilidades que a podem ajudar no dia-a-dia.

Mas a partir de abril de 20198, o glaucoma originava a perda de visão, que se agravava de dia para dia.

Tudo foi tentado para evitar mais uma cirurgia, considerada muito arriscada pelos médicos, mas seria inevitável, num “tudo ou nada“.

Felizmente conseguiu manter a pouca visão que atualmente possui, mas em 2018 foi sem dúvida o ano das grandes mudanças na sua vida.

Novas aprendizagens, novas descobertas, e como em tudo nas diversas fases da vida, existem coisas menos boas, mas também surge o lado positivo, e nessa nova aprendizagem, surge uma nova descoberta, foi o desporto em especial o Goalball.

Ana Silva

O gosto pelo desporto

Não sendo amante do desporto, na ACAPO Porto, no seu processo de reabilitação teve o contato e a oportunidade de experimentar o Goalball.

Uma modalidade dura e exigente, foi sem dúvida fundamental na sua vida, já que a modalidade lhe deu as ferramentas que a auxiliaram no seu processo de reabilitação, e mais importante em aceitar a sua deficiência.

Surge o verão de 2020, e em plena pandemia sentiu saudade de algo que tanto adorava, andar de bicicleta.

O que mais gostava na sua infância, um dos seus passatempos adorados, o qual foi ficando esquecido com o seu crescimento, motivado pelos problemas de visão que sempre a acompanharam.

Um projeto em tempo de pandemia

Em plena pandemia, e em conversa com alguns amigos, surgia a ideia de alugar umas bicicletas de dois lugares (tandem) para dar uns passeios, porem essa ideia não avançou.

Mas as mudanças na sua vida deram-lhe força a não desistir, e depois de várias pesquisas e alguns contatos, teve uma surpresa ao descobrir que em Portugal não existia Paraciclismo Feminino em Tandem.

Esse facto não desmotivou a Ana Silva, que não desistiu, entrou então em contato com a Federação Portuguesa de Ciclismo, acabando por falar com o Selecionador Nacional de Paraciclismo José Marques.

Na sequência deste diálogo, existiu imediatamente abertura e muita vontade de levar o projeto em diante, e o selecionador apresenta a Ana Silva a Isabel Caetano, formando assim a primeira dupla de Tandem de Paraciclismo.

Inicialmente a Federação cedeu uma bicicleta para darem umas voltas e experimentarem, e desde o início, que existiu muita empatia e a amizade entre as duas, que foi crescendo com o tempo e o gosto pelo Tandem também.

Este projeto que começou quase por brincadeira, foi rapidamente ultrapassado, tudo o que a Ana Silva tinha imaginado, se concretizava.

Em pouco mais de quatro meses, a evolução foi imensa, fruto de todo o trabalho desenvolvido, o que as fez ter novos sonhos, ambicionando muito mais, para concretizar este projeto enquanto dupla a pedalar em Tandem de Paraciclismo.

Ana Silva

Ana Silva comenta

Este nosso percurso no Paraciclismo tem sido muito feliz, onde me sinto muito concretizada.

Quero trabalhar mais e evoluir para podermos alcançar os objetivos e os sonhos que ambas temos.

Sou uma jovem com deficiência visual, mas que descobriu no Paraciclismo uma das suas paixões, tornando assim tudo mais feliz na minha vida.

Vejo agora o desporto de outra forma, e é fundamental para mim agora a sua prática, já que me faz sentir integrada na sociedade.

Ajudou-me no meu desenvolvimento pessoal, criando novas ferramentas de trabalho, conseguindo alcançar objetivos que qualquer pessoa sem deficiência consegue alcançar”.

Uma dupla a descobrir destreza

Uma, está a concretizar um sonho e tem imensa força e vontade de lutar, a outra, é a voz da experiência, regressa ao ciclismo de forma inesperada.

Ou seja, a Ana Silva e a Isabel Caetano, são as primeiras mulheres a competir na categoria B de Paraciclismo de Tandem em Portugal, na categoria de atletas de deficiência visual.

Isabel Caetano, sou os olhos da Ana

Após regressar ao ciclismo, Isabel Caetano não compete sozinha, faz dupla com Ana, já que a visão impede de a mesma pedalar sozinha, este é um trabalho coletivo.

A Isabel Caetano é os olhos da Ana Silva, é a pessoa que vai à frente da bicicleta e a informa do caminho, tudo o que vão encontrar pela frente, as descidas, as subidas, os planos, as rotundas, e os andamentos que devem colocar.

Ana Silva

Não me sinto como um guia

Isabel Caetano diz que quando está em cima da bicicleta com a Ana, sente a mesma como uma colega, não se sentindo como guia, já que não vai sozinha a pedalar, vão as duas a fazê-lo, é um trabalho em equipa, pedalam, falam, e Isabel limita-se a transmitir, e a Ana a colaborar, onde participa imenso.

Sonhos no Paraciclismo e resultados

Com um projeto muito recente (pouco mais de seis meses), a relação delas com o Paraciclismo está a dar frutos nos seus primeiros passos.

Já se estrearam em diversas provas, a primeira foi na Taça de Portugal, onde alcançaram o 1º lugar na sua categoria, participaram no Campeonato Nacional.

Cumpriram alguns dos seus objetivos, e entre os mesmos, estava o de irem ao estrageiro competir com outras duplas em Tandem, observando e aprenderem muito mais.

Porém, a sua participação além fronteira que as levou até Espanha por duas vezes, uma em abril na 1ª Copa em Badajoz, onde alcançaram um 2º lugar, e regressaram em junho na 2ª Copa, onde conquistaram a Camisola da Copa com um merecido 1º Lugar.

Ana Silva

Mas o caminho efetuado está a abrir-lhes portas, e foram convocadas para a Seleção Nacional, para vestir as cores nacionais, e participarem no Campeonato Mundial de Paraciclismo realizado no Estoril, com 15 duplas de Tandem mundiais.

Conseguiram uns modestos 13º e 14 lugares, mas que foi uma grande honra vestir as corres de Portugal, tendo ambas ganho uma grande experiência, uma maior maturidade para o desenvolvimento do seu projeto.

Conseguiram novo feito em Castelo Branco nos Campeonatos Nacionais de Paraciclismo, onde ganharam o título de Campeãs Nacionais de contrarrelógio e estrada classe B, e fecharam em grande a época de Paraciclismo oficial em Torres Vedras, com a conquista do prémio Descobre Destreza Associação Desportiva.

Ana Silva e Isabel Caetano única Dupla Feminina Tandem Portugal

Sonhar muitas vezes é fácil, concretizar muitas vezes torna-se difícil, mas para Ana Silva juntamente com Isabel Caetano, o sonho tornou-se uma realidade, o projeto tem sido muito positivo.

Se a Ana Silva tivesse dito aqui às uns três anos atrás, que iria andar novamente de bicicleta, rir-se-iam de si, e diziam que brincava, mas afinal tudo é possível, e a prova aqui está quando se quer muito algo e se luta por isso, consegue-se.

Ao fim de seis meses de trabalho, a dupla em Tandem com a Isabel Caetano é perfeita, e Ana Silva vai ficar sempre muito grata tanto a ela, como ao José Marques da Federação Portuguesa de Ciclismo.

Ambos ajudaram-na a concretizar o seu sonho, deixando-lhes a eles em especial e a todos os que contribuíram, que a apoiam e apostaram em si, uym muito grande obrigado

Mas, para Isabel Caetano, que sai de um panorama de atleta para o de guia, que encara com a sua companheira de pedaladas, uma experiência gratificante e nova, sempre foi e continuará a ser uma atleta, sempre andou de bicicleta sozinha sem a partilhar.

Agora tudo é diferente, estando a gostar e a aprender, já que o caminho é longo, e existem projetos para o futuro de continuarem como uma dupla, uma equipa em Tandem Paraciclismo.

O Paraciclismo não pode ser o parente pobre do ciclismo

Aqui fica uma história de vida, um projeto, e muita força de viver e vencer, quando existe vontade e apoios, os projetos podem concretizar-se.

Não podemos ver passar ao lado esta modalidade, o “Paraciclismo não pode ser o parente pobre do ciclismo”, como refere numa frase o Paraciclista Luís Costa, teremos de apoiar, incentivar, e acima de tudo divulgar, e dar-lhe destaque.

Luís Costa
Luís Costa

Esta dupla Feminina em Tandem é de louvar o seu trabalho, realizado em tão pouco tempo, e pelos resultados já conseguidos.

Temos de ver estes/as atletas com outros olhos, não como ainda muitos infelizmente os veem como os coitadinhos, mas sim, teremos de os ver como seres normais, que se integram na sociedade como pessoas na sua total capacidade fisica.

Conseguem grandes objetivos, não só no Paraciclismo, mas também noutras modalidades, trazem resultados positivos para Portugal, mas a maioria desses feitos passa ao lado da comunicação social, e pouco ou nada se fala.

Parabéns, Ana Sila e Isabel Caetano pelo vosso trabalho e esforço, força de viver e vontade de vencer, a primeira dupla Feminina no Paraciclismo português em Tandem, que demostra que quando se quer, se pode vencer.

Parabéns do Noticias do Pedal e de OPraticante.pt dois meios de comunicação que continuarão a acompanhar o desporto no geral, até breve.

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