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Coluna Dto
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Coluna Esq
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Duarte Gil corre 221 km por causa solidária

48 anos de idade, enfermeiro de profissão, Duarte Gil Ribeiro Barbosa, a correr como individual, abraçou mais uma aventura, uma causa solidária.

Duarte Gil percorreu à volta do Hospital S. João, no Porto 120 voltas, e OPraticante.pt esteve com ele para saber um pouco mais sobre a sua história, e o que o leva a abraçar estes projetos.

Duarte Gil

Como te iniciaste na prática desportiva Duarte Gil?

Eu sempre gostei de fazer exercício físico e sempre fui bom aluno a educação física. E portanto, desde muito cedo comecei a praticar desporto.

Na escola secundária, pelos meus 16 anos, participei nos campeonatos regionais de atletismo obtendo bons resultados.

Cheguei a ser convidado para vários clubes, mas nunca aceitei.

Gostava de correr apenas pelo prazer de correr e nunca me levei muito a sério. O que importava era fazer atividade física e tirar prazer nisso.

Apesar de ter praticado outras modalidades, como o futsal e até participado em torneios, a minha primeira paixão foi sempre a corrida.

E essa paixão foi crescendo até chegar aos dias de hoje.

Qual o momento mais relevante que viveste no desporto?

É difícil de descrever um momento único. Não sou profissional, a não ser como enfermeiro, mas sou muito competitivo e todos sabemos que quando nos esforçamos, conseguimos resultados que não esperamos.

Estávamos em 1990, tinha eu 18 anos, quando no dia 25 de Abril participei numa prova de 5 mil metros, no concelho de Paredes.

Lembro-me que fiquei muito feliz por ter alcançado o 1ºlugar. Foi um marco para mim e foi nessa altura que eu percebi que afinal seria fácil para mim correr e ser compensado pela paixão.

Mais recentemente, em 2016, no 24 Horas Portugal, numa prova de resistência, em circuito, onde estariam os melhores, fiz 204 kms, tendo ficado em 2º lugar da geral com os mesmos kms que o primeiro classificado.

Este também foi um dos momentos mais relevantes, porque marcou o início dos meus desafios solidários.

És um homem de causas solidárias, Duarte Gil o que te leva a abraçá-las?

Eu sempre gostei de ajudar pessoas. E não é por acaso que sou enfermeiro há 24 anos. Toda a minha vida pauta-se por ajudar pessoas. E isso, só por si, dá-me imenso prazer.

As causas solidárias através de um desafio solidário só surgiram em 2016.

Eu tenho um primo que nasceu com paralisia cerebral, sei das dificuldades que os pais passam para cuidar dessa criança e os custos que têm que suportar em todo o tipo de tratamentos.

Então, senti a necessidade de os ajudar de alguma maneira.

Então pensei que se eu participasse numa prova, em que eu pudesse fazer muitos kms e doasse 1 euro/km à família, talvez fosse uma boa ideia e uma forma de os ajudar.

Os pais da criança acataram a ideia, mas entenderam que eu deveria apoiar não a eles directamente, mas uma instituições que os tinha ajudado muito.

Foi então que decidi apoiar a APPC, Associação do Porto de Paralisia Cerebral.

Primeira causa solidária de Duarte Gil

Eu já tinha feito muitas provas longas, nomeadamente em provas de trail com mais de 100 kms, mas nunca tinha participado numa prova de 24 horas, muito menos em circuito.

Tive conhecimento duma prova em Vale de Cambra, o 24 Horas Portugal, em que os atletas teriam que correr durante 24 horas, num circuito de 2 kms, sendo o vencedor aquele que conseguisse fazer o maior número de kms possível.

Essa era a prova perfeita para se conseguir o maior número de euros. Estabeleci como objectivo fazer 200 Kms nas 24 horas.

A ideia de anunciar publicamente, fazer um desafio solidário, com um grau de dificuldade grande, era arrastar comigo outras pessoas, que através do meu exemplo pudessem contribuir para a associação.

E assim foi, consegui fazer 204 kms e angariar 2 mil euros.

O impacto e o prazer que me deu foi tal que a partir daí nunca mais parei, todos anos faço um evento solidário apoiando uma causa em que acredite.

O que sentes cada vez que te superas em novo desafio?

É indiscritível. Uma sensação de dever cumprido. Uma sensação de que valeu a pena todo o projecto, toda a preparação para o seu sucesso.

Um prazer enorme em ver os outros felizes. Ter conseguido juntar muita gente em torno do meu evento solidário e em torno de algo em que acreditam.

Indescritivel a sensação da superação e de ter concretizado mais um objectivo.

No fundo, nós andamos cá no mundo para quê?

Para sermos felizes e fazermos os outros felizes. Então, é com esse propósito que me dedico tanto aos outros.

Como consegues conciliar a tua profissão e estes desafios?

Difícil. Tenho uma profissão muito desgastante, trabalho por turnos, que me ocupa imenso tempo. Só mesmo com muito amor e dedicação é que se consegue.

É necessário abdicar de muitas horas de lazer e descanso para me preparar fisicamente e para preparar todo um projecto solidário e tudo o que ele envolve, e que se pretende que tenha sucesso.

E isto só se consegue com muito amor à causa. Dar tudo de nós implica muito esforço, empenho e dedicação.

Duarte Gil como foi a escolha desta associação e não outra?

Eu este ano queria fazer um desafio solidário, que pudesse estar relacionado com a pandemia que atravessamos.

Por outro lado, as pessoas em situação de sem abrigo sempre me despertaram a curiosidade de conhecer essa realidade, por serem pessoas que estão em situações limite de sobrevivência.

Se é verdade que com esta pandemia muita gente ficou sem o seu emprego, muitos outros ficaram a viver pior, não é menos verdade, que as pessoas em situação de sem abrigo sofreram ainda mais com esta pandemia.

Este ano, eu teria que apoiar uma associação que fizesse um excelente trabalho com estas pessoas.

Duarte Gil

Existem várias associações na cidade do Porto que dão apoio aos sem abrigo, e portanto, eu teria pela frente uma dificuldade em escolher qual apoiar.

Até que me lembrei de um amigo, Dr. Gustavo Carona, médico anestesista, que tem feito um excelente trabalho em missões em Africa e que conhece bem o Porto e a sua realidade.

Talvez ele me pudesse ajudar a tomar a decisão certa.

Sugeriu-me a Associação Saber Compreender, uma associação fundada por dois ex sem abrigo.

Fui conhecer a associação, tornei-me voluntário e gostei tanto do trabalho deles, que estava tomada a decisão de os apoiar.

Como correram as 120 voltas?

Correram bem. Eu tinha como objectivo fazer as 120 voltas em 26 horas.

Fazer-se 221 kms, num circuito de 1840 metros, à volta do Hospital de S. João, não é tarefa nada fácil e não é para qualquer um.

Eu teria que colocar a fasquia muito alta, mas também sabia que, apesar de muito difícil, não era impossível para mim.

Sou muito focado e determinado, só uma lesão é que me poderia impedir de o concretizar.

Superei a minha expectativa inicial, consegui concluir o desafio em 24 horas e 44 minutos, ou seja, menos 1 hora e 16 minutos que o inicialmente projectado.

Eu devo referir que tive uma lesão grave na anca 2 meses antes, que poderia ter deitado por terra todo o desafio.
Mas eu acreditei até ao último momento que seria possível.

Só tenho a agradecer à equipa fantástica de médicos e fisioterapeutas, que me permitiram concluir com sucesso, superando as minhas expectativas.

A lesão ainda não está resolvida mas está no bom caminho.

Duarte Gil qual foi a tua maior dificuldade no seu decorrer?

Este tipo de desafio de resistência já não é novidade para mim.

Eu sabia que a partir de determinada altura eu iria sofrer, porque nenhum corpo está preparado para correr tantas horas seguidas.

Nos 4 meses anteriores à prova tentei preparar-me o melhor possível para minimizar as dificuldades que iria passar.
Não conseguimos controlar todas as variáveis, mas tentamos controlar as possíveis.

A dor faz parte deste tipo de prova. É necessário ter também uma grande preparação psicológica para a conseguir controlar sem pensar em algum momento em desistir.

Duarte Gil

A partir das 8 horas de corrida, comecei a sentir dores no dorso do pé esquerdo e a seguir no joelho esquerdo.

Estas dores foram aumentando ao longo do tempo. Apliquei kinésio e gelo e as dores melhoraram ligeiramente. Andei com essas dores, por vezes muito fortes, até ao final do desafio.

Mas desistir não estava previsto no meu horizonte.

Estava focado e forte mentalmente para poder concluir o desafio com dor. Naquela altura, não pensei sequer que poderia a estar a agravar uma lesão.

Teria, à posteriori, os melhores comigo para me puderem ajudar. E foi isso que fiz, controlo mental da dor e concluir com sucesso.

Duarte Gil

Tiveste bastante apoio durante a tua prestação?

Tive sim. Este foi um evento que teve a presença de 22 equipas e mais de 500 pessoas a participar.

O meu sucesso também se deve a toda esta gente envolvida.

Nada se consegue sozinho e o facto de ter sempre atletas a acompanhar-me foi uma ajuda preciosa e extremamente importante para o sucesso de todo o evento.

Duarte Gil

Duarte Gil prova concluída, desafio superado, qual será o próximo?

Bom, eu não gostaria de falar muito no meu próximo desafio, até porque a sua concretização vai depender da evolução da pandemia em Portugal.

Todo o evento que envolva a proximidade com pessoas pode não ser possível se não tivermos esse problema resolvido.
Contudo, posso adiantar que o meu próximo desafio não envolverá corrida.

Como sabem, eu sou enfermeiro, há determinadas áreas que gosto e desafio poderá passar por um trabalho de investigação exploratório, em que o produto final será a edição de um livro, em que parte da receita de venda reverterá a favor de uma instituição.

O que vos posso garantir é que será, com certeza, mais um grande projecto solidário.

Texto: Henrique Dias – OPraticante.pt
Fotos cedidas pelo atleta

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