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Elite Trail Serra da Freita

Elite Trail Serra da Freita 2016 a estreia

O ano passado, depois de me estrear com 65 km na Freita, prometi a mim mesmo iniciar as aventuras nas provas ”maiores” de “trail running” no Elite Trail Serra da Freita 2016. Não faltei ao destino e no dia 25 de Junho, às 7:00 em ponto, estava prontinho para arrancar como estreante nisto das provas centenárias. Podia estimar, pela experiência do trilho mais curto no ano anterior, o elevado grau das dificuldades que o José Moutinho tinha estado a cozer na preparação da versão Elite deste ano. Os números já eram conhecidos: 100 Km de distância e quase 6200 metros de ascensão acumulada! Assim frios e crus exigiam respeito aos novatos nestas distâncias. Mas a história por detrás dos números e dos gráficos de altimetria é, muitas vezes, inesperadamente traiçoeira, até para os mais experientes…

Serra-paisagem

Comece o Trail Serra da Freita

Pois às sete, mais minuto, menos minuto, partimos com destino ao primeiro posto de abastecimento, quase 10 km depois. Apesar de ser quase sempre a subir, este primeiro troço, comum a todas as provas do evento, é relativamente rolante, sem dificuldades de maior.

A neblina matinal escondia Arouca

Estava bom tempo para correr. Mais fresco que no ano anterior. No topo da primeira longa subida é altura para um abastecimento ligeiro e para as primeiras fotografias. Os atletas sorriam posando em frente ao vale onde a neblina matinal escondia Arouca, escoltados pelas esguias colunas das ventoinhas eólicas. É por ali que começa a verdadeira beleza desta prova.
Até ao próximo posto de abastecimento vão pouco mais duma dúzia de quilómetros rápidos. Primeiro em trilhos antigos no planalto, alguns em calçada romana, com declives pouco acentuados, e depois numa descida rápida até Tebilhão, pouco técnica, própria para alguns exageros. Até ali tudo parece acontecer num instante e sem dramas. O calor aumenta. A ansiedade da partida amolece ao longo dos primeiros vinte e tal quilómetros, já conhecidos da edição do ano passado.

A separação

Pouco depois do segundo abastecimento é feita a separação dos trilhos das duas provas: os da prova Ultra para um lado e nós para outro… E é aqui que as hostilidades se abrem, logo na viajem até ao rio, lá em baixo, numa longa descida num trilho irregular em pedra. Uma zona técnica, a prometer músculos doridos. Estavamos a conquistar o interior da serra, entalado entre encostas agrestes dum verde luxuriante. E a contenda era esgrimida rio Paivô acima, ora na margem direita, ora na margem esquerda. Avançava-se muito devagar. Passo a passo, pés e mãos a trabalhar o equilíbrio precário, rocha grande, rocha pequena, pedra seca, pedra molhada, água pelo tornozelo, água pela cintura. Aqui e ali algum ponto de perigosidade evitável, ainda que sem exageros. Depois de não sei bem quantos quilómetros, poucos com certeza, e não sei bem quantos minutos, muitos com certeza, lá chegamos ao terceiro abastecimento de Covelo de Paivô.
O rio já tinha feito as suas vítimas: tinha as pernas muito cansadas. Mas o ânimo ainda era enorme. Toda a beleza selvagem das suas margens e a água fresca e cristalina do seu leito hipnotizam-nos. Sentimo-nos guerreiros.

Depois dum terceiro abastecimento feito com mais tempo, segui caminho de espírito elevado. Mesmo quando, pouco depois, apanhamos a primeira grande “parede” com mais de 600 metros de declive, o ânimo manteve-se. E calor aumentou. E as subidas fizeram-se. Devagar. E as descidas também, sempre a correr.

A surpresa de uma sopa “light”

Por volta do quilómetro 45 a organização brindou-nos com uma surpresa, uma pequena refeição quente: uma sopa à lavrador “light”. Depois de aconchegar o estômago partimos para a subida ao Portal do Inferno (com direito a abastecimento no meio), um dos ex-líbris deste evento, o mais antigo evento de trail running em Portugal. A vista no topo da encosta para o vale do Portal do Inferno é de cortar a respiração. Mas o inferno dos atletas ainda estava a começar…

Começa o Inferno da Serra da Freita

Serra-1Daqui em diante, os sentidos turvam-se um pouco e o que se conta nunca é bem o que se viu, ouviu, cheirou ou sentiu. A extrema dureza do trajeto que passa pela Póvoa das Leiras, onde os famosos três pinheiros fazem guarda quase no final duma subida de grande dificuldade, é dissolvida na magia dum percurso que passa por lugares recônditos duma serra fantasma, de aldeias abandonadas e fontes de água fresca. O silêncio absoluto quase permite ouvir os passos e a respiração de atletas a centenas de metros de distância…

Quando cheguei ao abastecimento dos 60 km precisei de descansar muito. Vinte minutos que ajudaram não só a recuperar fisicamente, mas também a restaurar parte dos sentidos e o foco da aventura. Enfim, colocar as coisas em perspetiva. O apoio dos familiares e amigos foi de extrema importância. Ajudaram-me a acreditar ser possível terminar.

Fiz-me à “Besta”…

Fiz-me à “Besta”… 400 Metros de quase escalada numa floresta nascida por entre rochas. Nesta altura, os trilhos da prova de Elite e da prova de Ultra encontram-se para evoluírem juntos até ao final.

Assim que cheguei a Manhouce o dia começava a morrer. Teria de fazer quase trinta quilómetros já de noite. E de Manhouce à Lomba, afinal, mais surpresas. Primeiro uma subida nova, depois uma descida maior e, por fim, uma subida diabólica de quase meio quilómetro vertical em escadório muito antigo, irregular e muito húmido. Uma escalada em trilho apertadinho, à luz de frontal, bom para se pensar na vida… Malvadez com requinte senhor Moutinho!? Adorável. Obrigadinho.

Na Lomba mais uma sopa. Desta vez sopinha de massa. Mais a fruta e a marmelada e uma bebida com gás e cafeína de que não me lembro o nome. O corpo já a dar as últimas. Um beijo na mulher e na filha e a promessa de que era até ao fim…

Um ambiente místico único

Na noite cerrada, a subida da Lomba ao Merujal perde a dimensão da sua beleza visual mas ganha um ambiente místico único. Seguimos sozinhos numa serpente de pequenas luzinhas trémulas. Sabemos ao que andamos, cansados, um pouco loucos, a rir para dentro e a sofrer para fora. Finalmente chega-se ao último abastecimento, no parque de campismo do Merujal. Sei que ainda me esperavam quase três quilómetros de subida e a interminável descida até à meta. Já não consigo comer. Bebo um pouco. Mais uns incentivos e parte-se para a última dúzia de quilómetros sabendo que seriam os mais complicados. Mas era impossível não acabar. Tinha de ser “finisher”!

Três horas mais tarde, pouco antes das quatro da manhã, cheguei finalmente à meta. Sei que a última dezena de quilómetros foram feitos a pisar ovos, com muitos cumprimentos a quem por mim passava ainda a correr, aproveitando o embalo da descida. Eu, muito devagarinho, parecia afinal estar ainda dentro do rio Paivô.

Tinha de ser “finisher” da Ultra Serra da Freita!

Quase vinte e uma horas depois de ter saído com um grande sorriso, cheguei com todos os centímetros do corpo dorido, mas com um sorriso ainda maior. Da centena e meia de sobreviventes desta prova mítica, eu era um deles, o suficiente para aparecer nas estatísticas: 20h.50m, 83º da geral e 34º do escalão M40.

À organização, nada a apontar de relevante. Felizmente, a equipa do José Moutinho e da Flor Madureira tem uma sabedoria feita de anos de experiência e uma vontade hercúlea e ainda jovem para nos conseguir montar esta festa do trail nacional. Uma prova menos comercial mas muito marcante, onde a importância é dada às coisas importantes!

Texto: Bruno Dias
Fotografias: Sandra Dias
O Praticante/LetsRun.pt/Ultra Trail Vilar de Perdizes

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