Entre o fogo, o povo e a sombra na Corrida das Fogueiras

Fogueiras

Terminou o mês de Junho! Para muitos atletas é o término da época desportiva, para outros é somente mais um mês que termina e outro que se inicia. Para fechar o mês mais preenchido do ano ficou a prova que muitos ansiavam participar, uma das provas clássicas do atletismo nacional, a corrida das Fogueiras.

A corrida das Fogueiras que este ano celebrou a sua 39ª edição aconteceu este Sábado (30) de Junho pelas 21:30horas em Peniche e foi uma organização da Câmara Municipal local, sendo o director técnico, o Professor Mário Machado. A compor o evento estava a prova que dá nome ao evento numa distância de quinze quilómetros e integrada no 38º Troféu Spiridon e ainda a 18ª corrida das Fogueirinhas numa distância de cinco quilómetros.

Uma prova tão emblemática e distinta como esta não poderia deixar de ter a equipa de Opraticante.pt presente e agora apresentamos as notas sobre a prova e veremos se correspondeu as expectativas criadas.

Percurso exigente mas embalado pelo público e pelas fogueiras

A corrida das Fogueiras apresenta um percurso de quinze quilómetros aferido e certificado pelo CNEC. A partida da prova tem lugar na Avenida do Porto de Pesca e a chegada na Marina de Peniche. O percurso da prova podemos de forma global dividi-lo em três segmentos.

Os primeiros cinco quilómetros de prova são os mais acessíveis de todo o percurso, sendo quase todos eles planos levam os atletas a passarem por várias ruas do centro de Peniche com destaque para as passagens no Largo do Município e da Avenida do Mar onde os atletas levam o primeiro banho de multidão. Para o incentivo popular aos atletas havia de tudo um pouco, aplausos, gritos de apoio, crianças a querem hi5`s na beira da estrada, testos de panelas a baterem, assobios, música, tudo valia para apoiar para os atletas.

Impulsionados pelo grande apoio popular, os atletas entravam na parte mais trabalhosa da prova que era entre o quilómetro cinco e dez com as subidas a aparecerem na ascensão ao Cabo Carvoeiro. Nesta fase da prova surgiu também uma chuva leve que juntamente com algum vento característico da zona ia provocando algum desgaste.

A magia da prova

Nesta parte do percurso, surge a magia da prova e que a torna tão peculiar, as fogueiras. Espaçadas no percurso sombrio junto ao Atlântico, as fogueiras vão dando através da sua cor viva e do seu calor o alento para os atletas prosseguirem o seu caminho. Por entre o crepitar da madeira a queimar, eis que vão surgindo alguns gritos de incentivo por quem mantém as fogueiras acesas. Nesta parte não há frio que tolhe o entusiasmo e os dez quilómetros junto ao cabo Carvoeiro estão logo ali e marcam nova viragem na prova.

Os últimos cinco quilómetros de prova são os mais enganadores do percurso. Para quem não conhecia o percurso e se baseou nas notas dadas pelo croqui fornecido pela organização e que pensava que o percurso seria em descida até à meta, enganou-se bem. Até quase ao quilómetro treze, o percurso apresenta-se num sobe e desce constante que vai fazendo o seu estrago. Nesta fase e até à entrada da cidade, as fogueiras dominam a paisagem e depois os atletas só se têm de deixar levar para o último esforço já dentro da cidade e aí serem brindados com os aplausos finais e de agradecimento das gentes locais por terem vindo correr a Peniche.

Vencedores

António Silva vence a 39ª corrida das Fogueiras

O grande vencedor da corrida das Fogueiras foi o atleta do Sporting Clube de Portugal, António Silva. O atleta do clube de Alvalade terminou a prova de forma isolada com um tempo final de 48:47minutos. Na segunda posição ficou Marco Miguel do C. Praças Armada com 49:05minutos e na terceira posição ficou Artur Rodrigues do GDC Guilhovai com 49:42minutos.

Vera Fernandes triunfa na competição feminina

Na vertente feminina da corrida das Fogueiras 2018, a grande vencedora foi Vera Fernandes do AA Bela Vista-Lagoa com 55:42minutos. A atleta do clube do Algarve dominou a prova em toda a linha e terminou a prova com um avanço de quatro minutos para as restantes atletas do pódio. A segunda classificada foi Céu Nunes do GFD Running com 59:39minutos e a terceira classificada foi Alexandra Oliveira da Academia do Pro Peniche que terminou com um tempo final de 59:58minutos.

Vencedores por escalão

A prova teve vencedores por escalão e estes foram os seguintes:

Na vertente masculina triunfaram João Cabaça da Casa do Benfica de Torres Vedras (M19), Antonio Silva do Sporting CP (M20-34), Pedro Januário do ID Vieirense (M35-39), Artur Rodrigues do GDC Guilhovai (M40-44), Paulo Gomes do GDC Guilhovai (M45-49), António Fernandes do GDC Guilhovai (M50-54), João Maia do Falcões Selvagens (M55-59), Antonio Ferreira do CD Moitense (M60-64) e Fernando Pestana do GRCD Leião (M65).

Na vertente feminina venceram Leonor Loureiro do Falcões Selvagens (F19), Vera Fernandes do AABV-Lagoa (F20-34), Ana Maia (F35-39), Céu Nunes do GFD Running (F40-44), Fernanda Santinha (F45-49) e Cláudia Ferreira (F50)

A equipa Opraticante.pt esteve representada por Nuno Fernandes (2120º geral / 318º escalão sénior) – 01:28:23.

E Peniche foi invadida por atletas

Chegando cedo a Peniche, logo se percebeu que a cidade já se estava a preparar para a grande prova que ia acontecer no final do dia. Aos poucos, os atletas iam tomando conta da cidade. Seja em grupos ou isolados, as cores vivas das diversas camisolas e emblemas iam tomando de assalto as ruas à beira-mar e os diversos espaços de restauração.

O levantamento do dorsal acontecia num pavilhão da escola municipal local que ainda era afastado do local de partida mais de um quilómetro e ainda mais do local de chegada. O levantamento do dorsal aconteceu praticamente sem demora, os horários de entrega eram alargados e assim evitou-se confusão. Aos atletas para além do dorsal com chip, era entregue uma t-shirt técnica vermelha alusiva à prova sem mangas. Pessoalmente não gostei do estilo da t-shirt e penso que poderia ser um modelo normal e certamente agradaria a toda a gente. Os atletas recebiam ainda uma senha para no final da prova terem acesso à sardinhada.

O final

No final da prova, os atletas recebiam uma garrafa de água e ainda a medalha finisher. Para um preço de inscrição de nove euros, o que foi oferecido aos atletas foi razoável. Gostos à parte do estilo de t-shirt, faltou um abastecimento final que tivesse mais que água, para além de que uma prova emblemática como esta poderia oferecer algo mais, entregar somente uma t-shirt na mão sem um simples saco revela um pouco a forma de estar da organização.

Mencionei que o secretariado da prova era ainda muito afastado do local de chegada pois era aí que estavam os balneários para se tomar banho após a prova. Sinceramente, dadas as condições meteorológicas que se sentiam, ter que colocar os atletas a andar quase dois quilómetros para tomar banho é um pouco incompreensível.

A edição deste ano da prova fica claramente marcada pelo jogo da Selecção Nacional que aconteceu horas antes. As ruas centrais de Peniche encheram-se com as cores nacionais e foi com algum desânimo que muitos iniciaram o seu aquecimento para a prova após o término do jogo.

Ainda o aquecimento se iniciava e já a avenida do Porto de Pesca estava apinhada de atletas. Uns com mais pretensões que outros, os atletas foram se alinhando na linha de partida que estava disposta por blocos de partida conforme o tempo que os atletas tinham de certificar para entrar em determinado bloco.

A partida da prova foi dada ao som de disparos de foguetes que assim davam inicio às “festividades”.

Na corrida das Fogueiras mandam os Penichenses

O local de partida da prova é bem escolhido pois é uma avenida extensa que permite escoar rapidamente todo o pelotão da prova. Os primeiros quilómetros da prova não dão uma noção do que é a corrida das Fogueiras e só quando se entra no centro da cidade é que os atletas sentem a aura desta prova ao serem engolidos pela população que inunda as bermas da estrada. Com tanto apoio, nem se sente a subida junto a Fortaleza de Peniche.

A prova teve dois abastecimentos de água ao quilómetro cinco e dez como mandam os regulamentos. Não havia local para depositar as garrafas vazias. A meu ver, o primeiro abastecimento estava mal colocado, pois ficava antes de uma descida em empedrado que estava escorregadio e com as garrafas e rolhas no chão, podiam acontecer algumas quedas.

O percurso teve em toda a sua extensão a sua quilometragem bem definida e com sinalização adequada em todos os seus pontos de viragem.

O percurso da prova a meu ver é equilibrado para o local onde decorre a prova, somente tenho a apontar algum piso degradado na parte elevada da prova que sendo em partes sem iluminação, pode provocar quedas aos menos atentos. Algo que não me agradou no final da prova foi a linha de meta com os atletas a entrarem na zona da marina de Peniche e onde não havia emoção nenhuma.

Destaco pela negativa o facto de quando os últimos atletas terem terminado a sua prova, não terem ninguém na chegada a apoiá-los. Pelo contrário, uns metros em antes, os atletas passam pela Avenida do Mar e onde há muito apoio popular. Porque não colocar a chegada nesta rua e com o escoamento dos atletas a ser feito para a zona da Marina? Fica a sugestão.

Sardinhada desorganizada

A atracção após o final da prova era uma sardinhada oferecida pela organização. Aos atletas era entregue como mencionado em cima uma senha para a entrada no local do arraial que dava direito a uma cuvete com oito sardinhas para assar, um saco de pão fatiado, prato, guardanapos e vinho servido ao copo.

Algo que vinha mencionado na senha era algo do género, proibido sair do local com os kits refeição. Na verdade, era ver as pessoas a virem embora com várias cuvetes empilhadas como se nada fosse e dentro do espaço somente alguns grupos a assarem as suas sardinhas e carnes conforme iam chegando.

A impressão que fica é que é uma “sardinhada com muita xica-espertice” e onde as pessoas ficam com a preguiça de assarem as sardinhas. Acredito que se a organização assasse as sardinhas com os seus meios e as oferecesse já assadas, isto não aconteceria.

Corrida das Fogueiras, uma prova que continua a bater recordes

A expectativa para a corrida das Fogueiras era grande. Foram vários meses a ouvir os elogios da prova e sobretudo para com o ambiente que era criado em Peniche. Pessoalmente, as expectativas não foram de todo cumpridas, principalmente a nível organizativo que a meu ver deixou em alguns aspectos algo a desejar. Agora em termos de ambiente proporcionado pelas gentes de Peniche não há volta a dar e só podemos elogiar tudo que elas nos dão na estrada. Da minha parte, um bem-haja pelo ambiente e apoio criado e por terem aguentado firmes aí mesmo estando frio e a chover.

A figura principal desta prova são os habitantes de Peniche que nos guiam para a corrida das Fogueiras que acontece rumo ao Cabo Carvoeiro e nos recebe de braços abertos depois de nos terem deixado passear no seu jardim à beira-mar mas aquecidos pelo calor das fogueiras.

A prova deste ano atingiu o seu recorde de participação com um total de 3054 finalizadores o que mostra bem a fama que a prova tem. Contudo não se pode viver em cima da fama e há que fazer o esforço para perceber onde a prova pode melhorar, sobretudo na questão logística, Já no que toca ao percurso da prova este é fantástico e a fazer jus a uma verdadeira prova clássica de atletismo. É uma prova que todos devem fazer pelo menos uma vez para sentir o espírito das gentes de Peniche.

Visualize mais fotos efectuadas pela RUN 4 FFWPU.

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Texto: Nuno Fernandes
Fotos: RUN 4 FFWPU

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