QUEM CORRE SENTE O QUE A FPA IGNORA
Foto: Eduardo Pereira
Sou atleta amador. Treino antes ou depois do trabalho, pago inscrições do meu próprio bolso e participo em provas porque gosto de correr, competir e superar-me. Como milhares de outros atletas, é nas provas fora de pista, estrada, trail, que corre o verdadeiro espírito do atletismo.
Fonte: Helena Santos
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A CORRIDA É DO POVO, NÃO DA FEDERAÇÃO
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É por isso que encaro com grande preocupação os recentes regulamentos aprovados pela Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), nomeadamente o Regulamento de Filiações de Agentes Desportivos e o Regulamento de Homologação de Provas de Atletismo Fora de Pista.
Do ponto de vista de quem está no terreno, estas medidas não parecem servir os atletas nem os organizadores.
Pelo contrário, representam mais burocracia, mais custos e mais entraves, num contexto onde o atletismo popular sobrevive graças ao esforço de clubes, associações, voluntários e organizadores independentes.
Enquanto atleta amador, questiono-me seriamente se a FPA está a ouvir quem pratica atletismo fora dos gabinetes.
As provas fora de pista são a base da modalidade em Portugal.
São elas que permitem a entrada de novos atletas, que mantêm a motivação de quem corre por paixão e que levam o atletismo a todo o país.
Colocar obstáculos administrativos excessivos é colocar em risco essa base.
Não é por acaso que a APOPA — Associação Portuguesa de Organizadores de Provas de Atletismo, decidiu avançar para a via judicial, depois de meses de diálogo que, segundo a própria associação, não produziram os esclarecimentos necessários.
Para que não restem dúvidas sobre a posição da APOPA, importa reproduzir na íntegra o comunicado divulgado pela associação.
Comunicado da APOPA
“A APOPA, Associação Portuguesa de Organizadores de Provas de Atletismo, informa os seus associados, atletas e a comunidade desportiva de que intentou uma providência cautelar com o objetivo de suspender os regulamentos recentemente aprovados pela Federação Portuguesa de Atletismo, designadamente o Regulamento de Filiações de Agentes Desportivos e o Regulamento de Homologação de Provas de Atletismo Fora de Pista.
Esta iniciativa surge na sequência de um prolongado e consistente esforço de diálogo institucional.
Ao longo dos últimos meses, a APOPA participou em diversas reuniões com a Federação, com o objetivo de clarificar regras, apresentar contributos, corrigir inconformidades identificadas e obter esclarecimentos sobre matérias que, no entendimento da APOPA, suscitam dúvidas relevantes quanto à conformidade jurídica dos regulamentos.
Não obstante essas múltiplas tentativas, subsistiram questões essenciais sem esclarecimento adequado, não tendo sido possível alcançar um entendimento que assegurasse, na perspetiva da APOPA, a necessária conformidade jurídica dos regulamentos.
Perante a iminência da produção total de efeitos desses regulamentos e a inexistência de uma solução consensual no âmbito do diálogo institucional mantido, a APOPA recorreu à via judicial com o propósito de salvaguardar os interesses legítimos dos organizadores de provas de atletismo e dos atletas, prevenindo potenciais prejuízos de difícil reparação.
A APOPA continuará a acompanhar este processo com responsabilidade e transparência, mantendo os seus associados devidamente informados.”
Sem atletas, não há atletismo
Como atleta, revejo-me plenamente nesta preocupação.
Se até os organizadores, que conhecem profundamente a realidade das provas, levantam dúvidas jurídicas e práticas, então algo está claramente errado na forma como estes regulamentos foram concebidos e impostos.
A FPA tem um papel essencial na organização e desenvolvimento do atletismo nacional, mas esse papel deve ser exercido com diálogo real, bom senso e respeito pela diversidade da modalidade.
Regular não pode significar afastar, dificultar ou desvalorizar quem sustenta o atletismo no dia a dia.
O atletismo português não vive apenas das pistas oficiais ou das grandes competições. Vive sobretudo dos atletas amadores e das provas populares. Ignorar essa realidade é comprometer o futuro da modalidade.
Espero que este processo sirva para corrigir o rumo, ouvir quem está no terreno e devolver ao atletismo português aquilo que nunca deveria ter perdido, proximidade, simplicidade e respeito por quem corre por paixão.
PORQUE JUNTOS, ATLETAS AMADORES E ORGANIZADORES, SOMOS MAIS FORTES. É NESSA UNIÃO QUE CORRE O VERDADEIRO ESPÍRITO DO ATLETISMO.
Por: Helena Santos


