Ronda dels Cims “EU acredito, EU consigo”
Ronda dels Cims “EU acredito, EU consigo”
Não são os atletas mais rápidos, mais fortes, com mais treino, com melhor material, e que terminam a prova com menor tempo que são os vencedores. Os vencedores são aqueles que se adaptaram melhor, aqueles que se recusaram desistir apesar das dores, do cansaço, do sono, da exaustão e das dificuldades que passaram, conseguiram terminar, independentemente do tempo que passaram em prova, os vencedores também são aqueles que tiveram a ousadia, a coragem e a força de vontade de se aventurarem nas montanhas de Andorra.

Andorra, oficialmente Principado de Andorra, e por vezes Principado dos Vales de Andorra, é um pequeno país europeu, com uma população de 79 mil habitantes, localizado na cordilheira pirenaica entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França, um pequeno país cercado por montanhas, em que a cada esquina se depara com paisagens arrebatadoras, onde nos sentimos pequenos quando confrontados com a sua beleza, com a sua dimensão. De todos os locais surgem aventureiros, desde caminhantes, praticantes de BTT, parapente e de muitos outros desportos radicais, as pequenas paróquias (aldeias) deste pequeno país são soberbas, com as suas casas tradicionais, em que a simpatia a amabilidade e a boa disposição das populações nos transmitem uma serenidade, uma cumplicidade única, nestes locais vive-se sempre em ambiente de aventura, de desporto, de ar livre e de liberdade.
Ordino (1298 m altitude) é uma paróquia do noroeste do principado de Andorra, com 3.309 habitantes; o local de partida e de chegada de um Ultra Trail com esta dimensão é arrebatador, estamos mergulhados num ambiente de festa, de convívio, de partilha, as nossas emoções estão ao rubro, transformamos este espaço num local de culto, em que o levantamento dos dorsais torna-se o expoente máximo do dia, da hora antes da partida. Ao longo deste ritual vamo-nos cruzando com pessoas que conhecemos deste mundo do Trail, cruzamos com amizades que fomos criando ao longo dos anos, com pessoas que fomos conhecendo nas redes sociais, que fomos acompanhando e que nos acompanham nas publicações.
Ordino acorda de madrugada, atleta após atleta vão saindo dentro dos carros, que lentamente vão invadindo as ruas desta pequena aldeia, atletas equipados a rigor, muitos deles fazem-se acompanhar pelas suas mulheres, namoradas, amigas (os), que vão dando cor à praça principal, vermelhos e verdes florescentes, brancos, pretos e amarelos fundem-se numa grande massa humana, abrilhantando o grande pelotão. Esta é a hora de tirar mais umas fotos, mais umas selfies, para partilharem nas redes sociais, trocam-se beijos, abraços e os mais variados cumprimentos.
1º Dia – A luta constante
Cheguei a Ordino ainda muito cedo, ensonado comia mais uma sandes e ia-me dirigindo para o local de partida, aos poucos ia sendo assolado por um nervosinho, não incomodativo, mas que eu ia sentindo, à medida que a hora da partida se aproximava, um estado de nervoso que em mim funcionava como um regulador saudável, pois permitia centrar-me especificamente na prova, e desta forma eu prestava atenção a todos os pormenores que são essenciais, pois estava atento ao material obrigatório, e o outro que tinha que ter preparado.
Ia ajustando o CamelBak, e ia testando a sua modelação ao corpo, tinha que me sentir confortável, confiante e o resto era da minha responsabilidade, pois na montanha ia estar por minha conta e risco, só podia contar comigo, e com as decisões que ia tomando ao longo da prova e o material que tinha decidido levar em certas alturas da prova podia fazer a diferença entre o continuar e o desistir.
Aos poucos os atletas iam-se aglomerando dentro da área de partida, um após outro iam passando o controlo de material e juntavam-se aos restantes, o Speaker incentivava os atletas, e ia apresentando alguns que já eram finalistas nesta prova, ao mesmo tempo que anunciava quantos minutos faltavam para a partida, pairava sobre os atletas um certo nervosismo, iam-se cumprimentando, outros estavam encostados ás barreiras que separavam os atletas do público e dos acompanhantes, eram distribuídos os últimos beijos, as últimas palavras de incentivo. O relógio aproximava-se do 0:00, e eu depois de passar a área de controlo fui-me diluindo no meio dos atletas, andava à procura da restante comitiva portuguesa, fui-me aproximando da frente da área de partida, aos poucos e poucos lá me consegui aproximar dos portugueses, Pedro Marques, Manuel Quelhas, Hélder Pinto, José Silva, Rúben Monteiro, Miguel Marques, Nuno Ferreira e nesta comitiva lusa também estavam, o Júlio Costa e o Vasco Lopes, fomos trocando cumprimentos, saudações e incentivos, lá estávamos todos juntos para enfrentar este gigantesco desafio.
O speaker pedia um minuto de silêncio em memória das vítimas do atentado de Nice, de repente as manifestações de alegria, os sorrisos, as brincadeiras e os rostos de alegria cobriram-se com um semblante de pesar, de tristeza, este minuto de silêncio foi escrupulosamente respeitado, nem uma única palavra se ouvia, só o som das publicidades que dançavam ao sabor do vento interrompiam este silêncio.
O Rei e a Rainha, dois bonecos que são um dos símbolos desta prova avançam pelotão adentro, a alegria, o entusiasmo e a euforia manifestam-se efusivamente, estamos a chegar à hora 0:00, o rufar dos tambores faz-se entoar por toda a Praça Maior, as palavras de incentivo do speaker e os foguetes com confetes, levam ao rubro os 420 atletas e todos aqueles que assistiam à partida, criando um momento épico. Os meus sentimentos mais profundos estavam ao rubro, sinto-me como que contagiado, emocionado e invadido por momentos de êxtase.

Eu, o Manuel Quelhas, o Hélder Pinto fomos mantendo o contacto visual durante os primeiros km, o público ia incentivando os atletas, gritavam pelos nossos nomes e pelo nome do país (estampados no dorsal), nesta primeira hora de prova, os sorrisos, as trocas de palavras, o cantarolar e as graçolas iam entoando por toda a serra, nesta fase inicial, em que andava-mos num constante sobe e desce, mas sempre a caminho do primeiro grande pico, 1.532 m altitude Collada Ferroles, como tudo o que sobe também desce, apresentam-nos uma grande descida até ao primeiro abastecimento ao km 21 Sorteny, tinham sido à volta de 4 horas, por bosques, riachos num constante sobe e desce em que o sol e o calor começavam a dar sinais da sua presença e adivinhava-se um dia quente e seco, em Sorteny fundem-se um conjunto de dialetos, de culturas, de nacionalidades e de cores, nesta fase da prova alguns atletas, incluindo eu começávamos a sentir um ligeiro cansaço, mas depois de comer, de me refrescar e de atestar os bidons lá parti para mais uma dura jornada até ao próximo abastecimento que ficava a 10 km, seriam mais umas 03:00 h, pois cada vez íamos subindo mais, esta segunda etapa que começava agora era toda ela acima dos 2.000 metros de altitude, com os picos mais altos aos 2.508 e aos 2.751.

Nesta altura tento sempre manter-me concentrado, pois geralmente é nestas fases iniciais que tendencialmente faço entorses e caio, e não podia de forma alguma sofrer uma lesão nesta altura de prova, pois o que eu conheço de mim, não iria querer desistir (coisa que nunca aconteceu em 5 anos) e iria condicionar os 140 km de prova que faltavam.
Para mim os primeiros 30 km são sempre sofredores, pois enquanto eu não me adapto aos ritmos vou sempre a sofrer um bocado, depois quando começo já a ter algumas horas de prova começo a sentir-me melhor, já fiz o processo de adaptação quer a nível de material, quer a nível cardíaco, é a partir deste processo que vou interiorizando os tempos que faço a cada 10 km e vou estabelecendo metas físicas, mentais e emocionais.
Em 03:00 horas vou de um abastecimento ao outro, o km 31 estava atingido Arcalys (2.220 m).
Agora 13 km muito complicados com duas grandes subidas a pique e outras tantas descidas que estavam a preparar a super subida a Comapedrosa (2.950 m).
Durante o tempo que me separa de um abastecimento ao outro, fui traçando objetivos – Não quero fazer a subida ao cume mais alto de noite, pois segundo os relatos que tinha lido e ouvido, esta era a pior parte da prova. Durante todas estas horas fui desfrutando de uma beleza natural e única, em que lagoas, riachos e miradouros que nos esmagavam com a sua imponência. O tempo estava quente e o sol escaldante, em que a amplitude térmica era grande, passávamos de 25 graus aos 10 num curto espaço de tempo, esta amplitude térmica manteve-se assim durante os 170 km, embora com o avançar do dia e com a noite as amplitudes térmicas eram maiores, pois em certas alturas da noite as temperaturas desceram aos 0 graus.

A poucos metros de L´Estany – km 44 ouço o meu nome e algumas pessoas gritam por Portugal, é uma comitiva de acompanhantes portugueses que nos recebia de forma entusiasta e fervorosa, aqui neste abastecimento tinha que repor todas as minhas energias, fazer uma boa alimentação, hidratação, pois pela frente tinha a subida aos 2.950 m de altitude, eram 5 km na vertical, por uma paisagem agreste, lunar, em que não existia qualquer tipo de vegetação. Neste abastecimento tive uma ajuda surpresa, Esmeralda Melo (a minha acompanhante há 2 anos nestas loucuras (ela que ás 00:00 ia partir para os 85 km), que além de me presentear com um Red Bull, também tratou da hidratação e alimentação, além de me incentivar para esta mega subida, também neste momento soube que os atletas lusos já tinham passado quase todos e que alguns já estavam em dificuldade.

A subida a Comapedrosa é brutal, são 5 km verticais, pedra sobre pedra, esta viagem por este terreno desolador, despido de qualquer tipo vegetação, leva-nos a uma viagem lunar, cada metro é vencido a todo o custo, lentamente vou deslumbrando o topo, com uma pesada respiração, cada metro neste território é uma conquista. Ao atingir o que eu pensava ser o topo (ainda faltavam algumas centenas de metros), sinto-me esmagado pelos últimos metros, além da vista deslumbrante que me fascinou, deparo-me com uma descida brutal a pique que se estende por todo o vale, ao atingir os 2.950 sou recebido como um herói, um português dava-me as boas vindas e depois da foto da praxe, precipito-me montanha abaixo, em que esta descida se tornou mais dolorosa do que a subida, neste momento só pensava que queria chegar ainda de dia ao km 50 Refugi Comapedrosa, nesta altura começava a sentir os pés inflamados, pois começava a perceber que tinha feito uma má opção ao escolher o tipo de sapatilhas que tinha levado para esta parte.

O sol começava-se a pôr e a esconder-se por de trás das montanhas e um lusco fusco ia espalhando lentamente a escuridão por todo o vale, corria e caminhava sozinho já há algum tempo, mas sempre focado, tinha que conseguir estar até ás 09:00 da manhã no km 73 Margineda, de preferência um bocado antes, pois tencionava dormir um bocado para repor forças para o dia seguinte.

A descida ia arruinando cada vez mais os meus pés, eu neste momento já praguejava, dizia em alto e bom som todos os palavrões que me assolavam as ideias e para mal dos meus pecados, ao fim de 6 km, em que demorei aproximadamente 04:00h entrava no Refugi de Comapedrosa, este estava cheio, alguns atletas estavam deitados no chão outros nuns beliches, muitos davam por terminada aqui a sua odisseia, aqui encontrei o Nuno Ferreira, que depois de umas quedas, apresentava muitas queixas e não tinha condições para continuar, agradeço ao Nuno pelo apoio que me deu, pelas barras energéticas e pelos géis. Enquanto me alimentava e carregava as minhas baterias fisiológicas também carregava o frontal e o relógio, chegou o Miguel Marques que teimosamente, apesar de já estar em dificuldades gástricas fez questão de passar Comapedrosa e juntar-se ao Nuno, ambos me incentivaram e me aconselharam, pois eu que erradamente tinha pensado que a descida que tinha acabado de fazer era a mais complicada e a mais agreste, estava enganado, o pior estava para vir, a descida para Margineda era muito, muitíssimo complicada, em termos comparativos com uma prova em Portugal ( na minha perspetiva não existe nada tão agreste, brutal e perigoso em provas nacionais) disseram-me “é fazer a Besta” (Serra da Freita) ao contrário, só com maior distância, maior desnível e perigosidade, e disseram-me para eu ter prudência e calma embora não pudesse perder muito tempo, pois tinha a primeira barreira horária aos 73 km (09:00 da manhã).
Voltei de novo ao trilho, esperavam-me 23 km de dureza extrema, e se até aqui estava a demorar cerca de 03:00 para fazer 10 km, tinha que manter este ritmo até Margineda, uma ideia acompanhava-me – Tenho que conseguir e pensava no que já me tinham dito antes desta prova, se conseguisse chegar aos 73 o resto tinha capacidades para o fazer.
Corria e caminhava novamente sozinho sem nunca desanimar nem por um momento pensei que não conseguia, mantinha-me focado. Depois de umas subidas e descidas não muito intensas (comparativamente ao que já tinha feito) começo a descida vertical, extremamente técnica, dura, agreste, lá do alto avistava a povoação, mas esta mantinha-se sempre distante a progressão era lenta e dolorosa. O sol voltava a nascer, e deixei de precisar do frontal, o que tornou menos doloroso os poucos km que faltavam para Margineda, chego a este abastecimento, ensonado, cansado e com os pés numa lástima e a primeira coisa que fiz, foi ir buscar o meu saco e procurar uma cama rapidamente, não comi nada e só me descalcei, pus o despertador para daqui uma hora, tinha 02:00 horas para dormir um pouco (dormi 1 hora) e preparei-me para continuar.
Faltavam 10 minutos para as 09:00 (hora de fecho) quando um elemento da organização avisava os atletas que quisessem continuar, tinham que abandonar o local brevemente. Comi à pressa e enchi os bidons e estava de novo trilho, continuava sozinho nesta loucura, de vez em quando lá tentava dialogar com alguns atletas que iam passando por mim, mas sem efeito, não falavam português e eu naquela altura não conseguia expressar-me noutra língua que não fosse a minha, a partir daqui estava à procura de um grupo para me juntar, mas sem sucesso, pois uns tinham ritmos mais lentos do que eu e outros estavam mais fortes.
2º Dia – O dia dos verdadeiros desafios
Tinha aguentado a primeira noite, tinha cumprido com as barreiras horárias e embora tivesse pouca gente atrás de mim, parti com todo o entusiasmo, força, consciência, resiliência e estava disposto a fazer os restantes 97 km acontecesse o que acontecesse não iria por momento algum desistir.

Com outras sapatilhas que me davam mais conforto, comecei a sentir-me melhor, as dores dos pés começaram a ser menores lá fui enfrentando a primeira grande subida do dia, nesta altura comecei a aproximar-me de um grupo de italianos, com os quais fiz muitos km, eles tinham um ritmo semelhante ao meu, eram atletas que já conheciam esta prova, e com os quais eu fui dialogando um pouco, entre eu e eles começou a existir uma entre ajuda, e embora eu nas subidas andasse mais rápido (neste momento só me apetecia subidas) eles nas descidas voltavam a juntar-se a mim.
Depois de vencer aquela primeira subida após os 73 km fui mantendo um bom ritmo, agora estava a caminhar para uma nova subida aos 2.645 m – Pic Niegre, as descidas nesta fase não eram tão brutais como até aqui e eu fui-me sentindo cada vez melhor, de novo voltava a focar-me na próxima barreira horária em Coll Valcivedra ao km 116.

O dia voltou a nascer com um sol resplandecente, com um calor que prometia voltar a fazer-se sentir. Eu nas grandes provas vou sempre utilizando as minhas estratégias, os meus mecanismos de coping, o meu objetivo inicial é sempre chegar a meio da prova, pois até aí eu estou a acrescentar km e a partir dai começo numa contagem decrescente, estou a tirar km e por isso quanto mais rápido e melhor chegasse ao km 85 melhor, fui gerindo de forma consciente o meu tempo.

Fui enfrentando todos os desníveis com coragem, estes que iam variando entre os 2.100 e os 2.600 m altitude, novamente aproximava-se a noite, tinha consciência que a segunda noite é sempre muito complicada, era nesta altura que começava a ser posta à prova a nossa resiliência, a nossa vontade para continuar, na segunda noite começam a vir os delírios, a linha ténue que separa a realidade das alucinações é cada vez mais permeável e é nestes momentos que se cometem os maiores erros, é por estas alturas que nos perdemos com maior facilidade e por vezes numa tentativa de querer ir mais longe e mais rápido os acidentes poderão ser mais frequentes e trazerem consequências muito graves, pois um acidente aqui poderia implicar a morte.
Corria e caminhava com mais intensidade, sobretudo nas subidas, depois de chegar ao Refugi de L´illa 2.485 m altitude, um refúgio de montanha perdido no meio do nada, até lá chegar fui passando por alguns atletas, alguns caminhavam lentamente, outros dormitavam em cima de pedras, no refúgio alguns atletas dormitavam nas poucas camas que estes disponham, deixei-me estar um pouco sentado, enquanto comia uma sopa e voltava a atestar o camelbak com barras energéticas e enchia os bidons. Ao sair um elemento da organização, pediu-me para que não fosse sozinho e que esperasse um pouco por outro atleta, pois mencionava que o trilho era um pouco perigoso, lá partimos os dois.
Foi durante a longa descida que comecei a ficar com muito sono e por breves segundos sentei-me a descansar um bocado tentava concentrar-me foi neste espaço de tempo que deixei de ver o atleta que seguia comigo, fui continuando e a certo momento deixei de ver as o atleta que seguia comigo, emarcações, subia e descia o trilho até à última fita visível, na esperança de voltar ao trilho certo nesta altura começo a questionar-me (delírios) o que estou aqui a fazer, mas afinal o que é que me disseram no último abastecimento para eu fazer, tinha uma missão e não era capaz de me lembrar qual era, começava a pensar em voltar para trás, mas como, não tinha coragem para voltar a subir tudo novamente em sentido contrário… até que voltei novamente a ter algum discernimento e, decidi esperar por outro atleta, coisa que não demorou muito, tinha novamente companhia embora por pouco tempo, pois rapidamente desapareceu no meio da escuridão só o via esporadicamente ao longe, mas pelo menos tinha encontrado o caminho e estava novamente no trilho.

Próximo abastecimento Pas de La Casa – km 130, tinha que voltar a enfrentar uma grande subida (2.552m), tinha que voltar a descer (as descidas nesta altura são ainda mais torturantes, dolorosas, penosas) foi uma descida muito complicada, mesmo complicada, estava a passar por uma fase de confusão mental, estava com sono e isso tirava-me a sensatez e a capacidade para agir normalmente, mesmo a chegar aos 130 km, perdi-me um pouco, pois mentalmente estava a criar imagens mentais que não correspondiam à realidade, estava a correr em direção à vila e a imaginar que esta estava cercada por uma rede, comecei à procura de uma alternativa, até que do nada surgiu um elemento da organização, que vinha de carro e que me disse o caminho, voltei a cair na realidade, quando estava a entrar no abastecimento os primeiros raios de sol rompiam por detrás da montanha.
Estive parado nesta base de vida, durante cerca de 1 hora, voltei a trocar de sapatilhas e meias, e enquanto atestava os bidons, com água e isotónico, aproveitei para comer uma sopa quente, e voltar a colocar no camelbak mais umas barras. Neste local ainda tentei dormir mais um pouco pois, enquanto punha o despertador adormeci, foram apenas 15 a 20 minutos, voltei a despertar, estava disposto a regressar aos trilhos, enquanto isso os meus colegas italianos continuavam deitados, eu não queria perder mais tempo naquela base de vida, pois sentia-me com forças para continuar, neste momento começava já a pensar na próxima barreira horária que ficava a 12 km, e tinha que voltar a subir aos 2.575 m Pas de La Vaques.
3º Dia – O dia das emoções
Ao sair ainda descíamos um pouco, para logo de seguida começar a subir, embora os trilhos não fossem muito técnicos, mas exigiam sempre uma grande concentração, a subida foi longa, embora eu estivesse cada vez com mais força para subir, pensava sempre que depois tinha de novo uma descida longa, fui subindo e fui ultrapassando alguns atletas, neste momento só queria encontrar de novo um grupo para me anexar, mas não precisei de muito tempo até que os italianos se voltasse a juntar a mim. Já na descida para o km 142 – Incles, os pés continuavam sem me darem tréguas e ia pensando quando chegar lá a baixo só vou ter mais duas grandes subidas, ainda vou ter que “escalar” até aos 2.657 – Cabana Sorda e aos 2.719 Collada Meneres. Durante a descida colei-me aos italianos, que mantinham um bom ritmo, eu agora não queria perder este “comboio”.

Na chegada a Incles, fiquei como que aterrorizado, eu e um italiano ao chegarmos ao controlo a responsável, mandou-nos parar, colocou-me a mão no ombro e eu pensei por momentos que o controlo já tinha fechado, MAS NÃO, para meu alivio, foi só para me dar os parabéns, pois para mim ser tirado de prova a esta altura era o maior desalento da minha vida.
Voltei a fazer contas, estava a conseguir correr e caminhar mais rápido por isso ia conseguir chegar a tempo ao próximo controlo, não queria de maneira nenhuma chegar muito a “queimar” o tempo e a partir daqui fui colocando um empenho cada vez maior, tinha que me dedicar pois a subida era gigantesca e tinha em mente que depois de vencer esta só faltava mais uma subida, voltei de novo a acompanhar a comitiva italiana, ao chegar aos 2.752 – Collada Meneres, pensei que voltar a descer ia ser complicado, mas antes pelo contrário, fiz uma descida rápida, e pela primeira vez numa descida fui ganhando terreno ao restante grupo.

Nesta fase do percurso fui encontrando muitos caminheiros, que sempre me davam mais força cada vez que passava por um grupo, ganhava mais entusiasmo e esta descida correu lindamente até Coms de Jan. Aqui aproveitei a presença de um pedologista e tratei dos pés, a minha acompanhante Esmeralda Melo votou a presentear com um Red Bull e estava de novo pronto cheio de animo e entusiasmo, só faltava ENFRENTAR A ÚLTIMA GRANDE SÚBIDA.

Nesta paragem mais prolongada, o quarteto italiano tinha avançado mais rápido do que eu, naquele momento estava decidido a fazer o que restava da prova o mais rápido possível, de Coms de Jan foi sempre a subir, para voltar novamente aos 2.719 m, os pés deixaram de doer, sentia-me capaz de fazer os restantes 20 km sempre a correr, durante a subida, rapidamente juntei-me aos italianos, embora ainda faltasse um último ponto de controlo, já sentia que ia conseguir terminar esta prova.

Agora até ao fim foi praticamente sempre a descer, quando cheguei a Refugi Sorteny, estava super empolgado, só parei por breves minutos, tinha novamente a minha bebida energética de eleição. A Esmeralda, estava lá para me dar o impulso final, nestes últimos km, sentia-me feliz e confiante, fui recuperando alguns lugares, embora isto seja praticamente irrelevante, pois não seria mais um lugar à frente ou atrás que iria tirar o mérito a quem termina uma prova desta dimensão.
Estava já a reconhecer as ruas, o casario e os trilhos, estava a aproximar-me de Ordino, a meta estava à vista, e lá já tinham chegado os portugueses Júlio Costa (22º – 39:45), Pedro Marques (23º – 39:50:40), o Manuel Quelhas (92º – 53:24:16). A 2km da meta tirei a bandeira nacional que me acompanha em todas as provas internacionais, pois é com muita honra que termino envergando o nosso maior símbolo nacional.

Ao entrar na zona de meta e com o pórtico a 50 metros, entro em êxtase, ouço os aplausos, o speaker grita pelo nome e por Portugal “bravo Augusto bravo bravo” sou recebido como um Campeão.
Pois aqui entrava no último estado mental – A glória, a vitória, o ser um campeão, pois até aqui tinha penado nos três estados anteriores, em que eu os fui catalogando e classificando durante as 60:44:54 – 170 km.
Na parte inicial da prova, (acontece em todas as ultras com mais de 100 km), até aos 50 km, vou passando pelo primeiro estado (eu e um grande número de atletas que eu conheço), o estado da auto critica e condenação, em que eu pergunto a mim mesmo: “o que estou aqui a fazer”; “porque é que faço isto”; “estava tão bem em casa num sítio confortável e relaxado”; “não venho a mais nenhuma Ultra”; “para a próxima venho à prova mais curta”; ainda vou desabafando: “vou vender as minhas inscrições que tenho para as próximas provas”.
O cansaço e os km vão sendo mais, passo para o segundo estado, que é o pedido de ajuda aos nossos pais, amigos, mulheres, namoradas, vou sussurrando: “minha mãe ajuda-me que eu já não aguento mais”; “mulher porque é que eu me meti nisto” e vou (vamos) sempre em sofrimento. Ao dobrar a barreira dos 100 km aí até os descrentes, vão pedindo ajuda a entidades superiores e divinas, com as preces, como: ó meu deus ajuda-me, aí Santíssima faz com que isto acabe o mais rápido possível.
Terminar uma prova com esta dureza, com este nível de exigência é um feito único, pois até ao momento em que cruzo o pórtico, passei pelas mais diversas e atrozes dificuldades, foram horas e horas em que suor, lágrimas e sangue, se transformaram em endorfinas, em adrenalina, e em neuro adrenalina, e deram lugar a um momento único, a um momento que jamais será esquecido. EU ACREDITEI, EU CONSEGUI.
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Texto e fotos de: Augusto Pinto Oliveira – Paredes Aventura