A relevância da segurança na formação básica em Acupuntura
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Resumo: A motivação que leva um paciente a optar por uma determinada terapêutica vem de dois factores principais: a referência de quem recomenda e, por sua vez, a informação relativamente às garantias de eficácia e de segurança1. No que respeita à acupuntura, dada a sua envolvência, tal matéria se torna inevitavelmente uma necessidade elementar2. A prova irrefutável deste facto são as directrizes publicadas pela OMS3 (Organização Mundial de Saúde) e os inúmeros manuais, artigos e monografias relacionados com a biossegurança4 publicados em diversos países5.
Contudo, reside a questão de saber em que medidas estão devidamente esclarecidas as noções supracitadas entre os acupuntores profissionais e os aspirantes aptos para o treino prático6. Esta questão torna-se mais pertinente aquando do processo de regulamentação7 nacional, nas TNC’s (Terapêuticas não convencionais)8.
Em relação a este facto, este estudo piloto confirma a competência dos terapeutas representados, mas revela a necessidade de desmistificar crenças e convicções que conduzem a hábitos cujos riscos implícitos merecem uma cuidada análise.
Surgiu ainda a oportunidade de colher muitas outras informações importantes, que podem inspirar novas revisões e estudos específicos nesta matéria.
Introdução: Recorrer a métodos terapêuticos seguros é essencial para a confiança que se deseja estabelecer entre o paciente e o terapeuta. Assim sendo, as questões de segurança relativas à Acupuntura revestem-se de um interesse especial, tanto por parte dos profissionais e dos estudantes, como por parte dos pacientes. Uma vez que a exigência de garantias e acesso à informação é indubitavelmente legítima nesta matéria, passa a ser indispensável uma análise adequada ao universo em questão.
Apesar de ser conhecida como uma prática segura, podem surgir diversos tipos de eventos adversos na acupuntura9. São vários os estudos que explicam os riscos associados à acupuntura, desde os mais comuns aos mais raros e dos mais ligeiros aos mais graves. As soluções sugeridas para minimizar estes riscos oferecem aos pacientes excelentes garantias de segurança10. Contudo, é essencial garantir estas técnicas na formação base de qualquer aspirante a terapeuta em acupuntura, antes de experimentar a inserção da primeira agulha, mesmo em treino11. Só assim se poderá manter o crédito da segurança na acupuntura, que cada vez mais inspira os pacientes que a ela recorrem.
Podemos ainda considerar o tema da segurança no âmbito do conforto e prevenção, na medida em que o limiar do risco esteja sujeito a diversas variáveis. Estudos amplos e minuciosos, como do correto uso dos pontos de acupuntura, baseados nos padrões modernos da evidência científica e nas orientações da OMS, são sempre úteis e necessários, na aprendizagem das noções básicas da Acupuntura12.
Objetivo: O objetivo concreto deste estudo é o de confirmar o baixo risco na terapia com acupuntura13, numa população local específica. Estão naturalmente implícitos, outros objetivos subjacentes:
- Despistar eventuais lacunas, na importância dada pelos profissionais e estudantes de acupuntura, face à segurança e riscos na acupuntura;
- Avaliar os riscos de saúde a que os pacientes portugueses estão mais sujeitos14, face aos actuais hábitos na prática da acupuntura;
- Despistar eventuais mitos;
- Avaliar com melhor precisão, a abordagem mais adequada para uma eventual amostragem com maior número;
- Apresentar sugestões de soluções viáveis, visando a implementação de hábitos e rotinas no treino e prática clínica da acupuntura, caso se verifique necessário.
Método: Este é um estudo piloto baseado essencialmente na pesquisa e revisão de artigos, monografias e livros subordinados ao tema da segurança na acupuntura e na análise dos resultados de um inquérito preliminar.
O público alvo deste inquérito foi constituído pelos profissionais e estudantes de acupuntura, principalmente na zona da Grande Lisboa, cuja amostragem foi obtida através do processo de selecção aleatória. Optámos por colocar questões abertas e fechadas, com respostas livres ou de escolha múltipla, em função dos objetivos supracitados. O tempo de resposta estava estimado entre 3 a 6 minutos. O respetivo formulário contém 12 questões de resposta múltipla (incluindo as de enquadramento estatístico), 3 de resposta aberta e 3 facultativas.
Resultados: De um conjunto de 61 indivíduos, acupuntores e praticantes de acupuntura (em treino clínico), foram selecionados 23, dos quais, 12 se recusaram a responder por “falta de tempo ou interesse”:
Dos diversos resultados obtidos de entre os 11 inquiridos, partilhamos aqui, apenas os que conduziram às conclusões abaixo descritas, deixando os restantes para análises e inclusão em publicações futuras:
Quanto às diversas justificações dos inquiridos, relativamente às duas questões supracitadas, foram descritas expontaneamente respostas como: “Utilizo luva apenas na mão que segura o algodão, durante extracção das agulhas, visto ser a única altura em que existe o risco de entrar com contacto com fluídos orgânicos do/a paciente.” (mais 2 respostas similares); “…no caso de necessidade de observação de mucosas internas, partes intimas, feridas, dermatites e outras situações contagiosas por contacto directo.”; (Sem resposta); “Sensibilidade ao toque”; “Não dá jeito ao manipular as agulhas” (não usa luvas de todo); “Não sinto a ‘chegada de energia’” (não usa luvas de todo); “Não contaminar a agulha, dado o risco de tocar o corpo desta”; “Evitar o contacto com o sangue do paciente”; “Segurança mútua”.
Discussão: Apesar de decorrer ainda o processo de regulamentação, os resultados comprovam a existência de uma consciência e conhecimento quanto à relevância dos cuidados básicos de segurança na acupuntura por parte da maioria dos inquiridos. Uma vez que já foram realizados diversos estudos exaustivos e mais específicos nesse sentido15, também em Portugal se pode seguir esse exemplo.
Dos resultados acima descritos surgiram duas primeiras questões quanto ao rácio de respostas recusadas: Estarão os terapeutas portugueses sensibilizados para o papel dos inquéritos na comunidade científica, nomeadamente das TNC’s, incluindo a acupuntura? Qual a razão concreta da recusa em responder a um inquérito com este tema e extensão?
Mais três questões surgiram com base nas respostas dos inquiridos: Quais os fundamentos das suas afirmações espontâneas? Que bibliografia subordinada ao tema da segurança na acupuntura está baseada a sua formação? Estarão os seus fundamentos teóricos validados pelos padrões científicos modernos?
São inúmeras as questões que se podem levantar a partir deste estudo, contudo aqui ficam algumas questões chave que nos conduziram às conclusões mais prementes: Estará comprometida a segurança dos pacientes em prole da manutenção de uma filosofia ancestral? Estarão, os “clássicos” que descrevem tal filosofia, a ser bem interpretados e adaptados à linguagem atual? Haverá uma forma mais adequada de interpretar e adaptar os documentos milenares à prática e ciência modernas?
Conclusão: De um ponto de vista generalizado, os pacientes portugueses podem assegurar que o seu terapeuta toma as providências de segurança essenciais, perante as suas credenciais e interesse expresso de esclarecer o paciente.
Quanto ao principal objetivo do estudo, podemos concluir que aproximadamente entre 45,4% a 90.9% dos acupuntores da grande Lisboa têm consciência dos riscos de contaminação16 e muito provavelmente todos os outros riscos10, uma vez que se apresentam como mais raros ou menos relevantes. Dada a delicadeza do tema, mais estudos são necessários para se evitar a margem de erro supracitada. Considerando os objetivos, os textos revistos neste estudo e as afirmações recolhidas no inquérito podemos ainda concluir com duas principais sugestões:
É necessário realizar e disponibilizar os resultados ao público em geral, de mais estudos específicos e com maior amostragem no sentido de responder às questões citadas na “Discussão”.
É necessário criar modelos atuais de diversos tipos de manuais de forma a serem disponibilizados livremente a todos os terapeutas e aprovados pelas entidades reguladoras (Ex.: M. de procedimentos de segurança em Acupuntura; M. de gestão de reporte dos eventos adversos na Acupuntura; M. de gestão de risco na acupuntura; etc.);
A realização de diversos estudos específicos, com a finalidade de melhor concluir a existência e morfologia de eventuais lacunas nos Regulamentos dos Sistemas de Saúde e Estruturas de ensino, independentemente da sua origem17, poderá constituir a melhor prevenção de saúde, segurança e vida dos pacientes. São estas iniciativas, que evitam muitos eventos adversos.
Referências:
1. NUMENATI-Núcleo de Medicina Natural e Terapêuticas de Integração. (2005). Manual de Normas e Procedimentos das Atividades do NUMENATI. Portaria Nº 138 da SES/DF, de 13 de dezembro de 2005, publicada no DODF Nº 236, de 15 de dezembro de 2005;
2. Elmar Peuker, Dietrich Grönemeyer. (2001). Rare But Serious Complications of Acupuncture: Traumatic Lesions. ACUPUNCTURE IN MEDICINE 2001;19(2):103-108;
3. WHO. (1995). Guidelines on Basic Training and Safety in Acupuncture. who.int;
4. Robert J. Emery*, Rachel K. Gamble, and Bruce J. Brown. (2012). A Biological Safety Program Prospectus Based on the Collection of 10 years of Key Performance Indicator Data. Applied Biosafety, Vol. 17, No. 1, 2012: 19-23;
5. World Health Organization.(2004). Laboratory biosafety manual. – 3rd ed. WHO Library Cataloguing-in-Publication Data. ISBN 92 4 154650 6 (LC/NLM classification: QY 25) WHO/CDS/CSR/LYO/2004.11;
6. Wahlberg, A. (2007). A quackery with a difference: new medical pluralism and the problem of ‘dangerous practitioners’ in the United Kingdom. Social Science & Medicine, 65(11), 2307-2316. 0.1016/j.socscimed.2007.07.024;
7. Ministério da Saúde. Portugal (2015). Regulamentação das terapêuticas não convencionais. http://www.acss.min-saude.pt/Terap%C3%AAuticasN%C3%A3oConvencionais/tabid/1155/language/pt-PT/Default.aspx
8. Ministério da Saúde. Portugal (2015). Portarias n.º 172-A a F/2015 de 5 de junho. Diário da República, 1.ª série — N.º 109 — 5 de junho de 2015:3636(2-19);
9. Ainee Chung, Luke Bui and Edward Mills. (2003). Adverse effects of acupuncture. Which are clinically significant? Canadian Family Physician • Le Médecin de famille canadien. VOL 49: AUGUST • AOÛT 2003;
10. Akihiro Osaki, Ayumi Sakamoto and Committee of Safety in Acupuncture. (2010). 鍼灸医療安全対策マニュアル (Risk Management Manual for the Treatment by Acupuncture & Moxibustion). Ishiyaku Publishers, Inc.;
11. Akihiro Osaki, Ayumi Sakamoto and Committee of Safety in Acupuncture. (2007). 鍼灸医療安全ガイドライン (Guidelines for the treatment by Acupuncture & Moxibustion). Ishiyaku Publishers, Inc.;
12. 厳 振国(ShinKoku Gen), 高橋 研一(Ken-ichi Takahashi), 吉備 登(Noboru Kibi), 王 財源(Zaigen Oh), 尾崎 朋文(Tomofumi Ozaki), 中吉 隆之(Takayuki Nakayoshi), 川上 智津江(Chizue Kawakami). (2011). 危険経穴の断面解剖アトラス (Manual for medical accidents and an atlas of cross sections of dangerous acupuncture points for a practitioner in acupuncture and moxibustion). Ishiyaku Publishers, Inc.;
13. Adrian White. (2006). The safety of acupuncture – evidence from the UK. ACUPUNCTURE IN MEDICINE 2006;24(Suppl):S53-57;
14. Ministério da Saúde. (2016). Plano Nacional de Saúde 2011 – 2016 (PNS). Portal da Saúde, http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/4DDFFD8C-EB94-4CAE-BCE4-D95DE95EA944/0/PNS_Vol1_Estrategias_saude.pdf
15. Adrian White, Simon Hayhoe, Anna Hart, Edzard Ernst, Volunteers from BMAS and AACP. 2001. Survey of Adverse Events Following Acupuncture (SAFA): A Prospective Study of 32,000 Consultations. ACUPUNCTURE IN MEDICINE ;19(2):84-92;
16. Control of Infection in Acupuncture. Barry Walsh. 2001. ACUPUNCTURE IN MEDICINE ;19(2):109-111;
17. Angelina Arbisi BS, Ratana Panpanich MD. (2008). Acupuncture Use among People Living with HIV/AIDS in Northern Thailand: Motives, Barriers, and Attitudes. J Med Assoc Thai 2008; 91 (4): 533-41;
Agradecimentos:
– Professora Dra. Rika Hirai pela generosa partilha da vasta experiência e conhecimento e pelo especial apoio como elo de comunicação com os diversos professores e Mestres no Japão;
– Professor Dr. Noboru Kibi (Ph.D) cuidado apoio e orientação;
– Professor Dr. Takashi Umeda (Ph.D) pela estimada inspiração para trabalhar este tema, desde o dia em que o conheci;
– Professor Dr. Taro Tomura pelo cuidado apoio e orientação;
– Professor Dr. Toshio Funada pela oportuna referência de publicação;
– A todos os professores e colegas que apesar de não se envolverem diretamente neste trabalho, inevitavelmente ajudaram-me com o seu exemplo e ensino que tanto e sempre me inspiram.
– A toda a família e amigos pela paciência e compreensão pelas minhas ausências enquanto me dedicava a este trabalho.
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Texto de: Bruno Santos e Patrícia A Butzke